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Manaus
Medo

Constantes chuvas deixam moradores da periferia de Manaus apavorados

Segundo Sipam e Inmet, as chuvas estão acima da média devido o efeito do fenômeno La Niña e devem continuar 12/02/2017 às 05:00
Show area de risco
José Nogueira Brandão mostra a casa de uma vizinha que está ameaçada pelo barranco que existe nos fundos do terreno. (Evandro Seixas)
Kelly Melo Manaus (AM)

Basta os primeiros pingos de água caírem do céu para a dona de casa Ocilene Calderaro Andrade, 44, não conseguir mais dormir. Ela mora em uma área de risco, no bairro Cidade de Deus, na Zona Norte,  e toda vez que chove, o barranco desliza e ameaça as casas ao redor. Nos últimos dez dias, choveu quase a metade do previsto para período, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). 

Há dez dia, a rua em que ela mora foi palco de uma tragédia por causa da chuva. Uma criança de dois anos morreu após a casa da família dela ter sido atingida pelo barro que deslizou durante uma enxurrada.

“Aqui não era assim. Mas agora a situação está ficando perigosa. Toda vez que chove, a gente entra em desespero. Lembramos do que aconteceu com a vizinha e temo que algo parecido volte a acontecer”, relatou.

Segundo Ocilene, se continuar chovendo forte pelo próximos dias, o barranco vai ceder mais um pouco e casa dela será atingida. Com medo de um acidente, a família pediu ajuda a uma vizinha, que cedeu um dos quartos para que a família de Ocilene pudesse, pelo menos, passar as próximas noites. 

“Não sabemos o que fazer. Ninguém consegue dormir mais aqui em casa por causa do medo do que pode acontecer durante a noite. Então a vizinha nos deixou dormir na casa dela, mas fica todo mundo imprensado e não sabemos por quanto tempo vamos aguentar viver assim”, falou.

Indignados 
A indignação da dona de casa é porque a Defesa Civil Município prometeu retirar as pessoas da área de risco, mas desde o acidente que vitimou  o pequeno José Silva Carvalho, de 2 anos, a pasta, segundo eles, não voltou ao local. 

“Já pensou se essas árvores caírem? Vai cair em cima da minha casa! Toda vez que chove e os meus  filhos ficamos desesperados, com medo do que pode acontecer”. Esse é o relato de uma mãe  de tres filhos – de 11, 3 e 2 anos – que não tem para onde ir. Desempregada há alguns meses, ela espera que o poder público “estenda a mão” e a ajude a sair do local. 

De acordo com a Defesa Civil do Município, a área continua sendo avaliada, por ser considerada de risco, e as famílias que tiveram as residências afetadas foram cadastradas e encaminhadas para o aluguel social. 

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as chuvas foram acima da média nos últimos dois meses, em Manaus. Só nos dez primeiros dias de fevereiro já choveu aproximadamente 50% do previsto para o mês inteiro.  Em janeiro, a precipitação pluviométrica chegou a 34% a mais que o previsto para o mesmo período.

Para o final de semana, a  previsão é de céu variando entre nublado e parcialmente nublado com ocorrência de chuva, mas de menor intensidade e com as temperaturas em pequena elevação, de acordo com o Sipam.

Chuvas bem acima do previsto

Em janeiro, o acumulado de precipitação mensal chegou a 402 milímetros na estação meteorológica do Inmet, enquanto a previsão era de que chovesse 300 milímetros.   Já os dez primeiros dias de fevereiro registraram  precipitação de 152,4 milímetros (na estação do Inmet) e 193 milímetros (na estação do Sipam) o que correspondem a 49,8 % e 63 %, respectivamente, da chuva esperada para todo o mês. As chuvas devem se estender até o mesmo de maio.  

O meteorologista  do Inmet, Gustavo Ribeiro, explicou que  a incidência de chuvas acima da média podem estar relacionadas ao fenômeno La Niña. “É que estamos sob a influência do  La Niña de fraca intensidade, o que na região favorece a formação de nuvens e, por consequência,  aumenta o volume das chuvas”, afirmou. 

Segundo Ribeiro, por causa deste fenômeno, o atual período chuvoso está mais intenso que nos dois últimos anos e a previsão é que as chuvas sigam dentro da normalidade até abril.

Lembrança trágica na Zona Norte

E a chuva não poderia ter deixado lembrança mais triste para os moradores da rua Santo Antônio. Ao lado da casa de Ocilene está o que restou da casa do pequeno José. Alguns objetos como lençóis, colchão e louças ainda são vistos em meio a lama.  Mas absolutamente nada pôde ser recuperado.  Os moradores  afirmam que o risco de desabamentos no local havia sido denunciado, mas que as providências demoraram  a ser tomadas. “Eles esperaram a nossa vizinha perder o filho. Será que mais alguma tragédia vai ter que acontecer para olharem para cá?”, questionou o aposentado José Nogueira Brandão. A dona da casa destruída, Iana Silva Carvalho, se mudou do local e ainda está em estado de choque pela perda do filho mais novo.

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