Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2020
Medo

Constantes chuvas deixam moradores da periferia de Manaus apavorados

Segundo Sipam e Inmet, as chuvas estão acima da média devido o efeito do fenômeno La Niña e devem continuar



AREA_DE_RISCO.JPG José Nogueira Brandão mostra a casa de uma vizinha que está ameaçada pelo barranco que existe nos fundos do terreno. (Evandro Seixas)
12/02/2017 às 05:00

Basta os primeiros pingos de água caírem do céu para a dona de casa Ocilene Calderaro Andrade, 44, não conseguir mais dormir. Ela mora em uma área de risco, no bairro Cidade de Deus, na Zona Norte,  e toda vez que chove, o barranco desliza e ameaça as casas ao redor. Nos últimos dez dias, choveu quase a metade do previsto para período, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). 

Há dez dia, a rua em que ela mora foi palco de uma tragédia por causa da chuva. Uma criança de dois anos morreu após a casa da família dela ter sido atingida pelo barro que deslizou durante uma enxurrada.



“Aqui não era assim. Mas agora a situação está ficando perigosa. Toda vez que chove, a gente entra em desespero. Lembramos do que aconteceu com a vizinha e temo que algo parecido volte a acontecer”, relatou.

Segundo Ocilene, se continuar chovendo forte pelo próximos dias, o barranco vai ceder mais um pouco e casa dela será atingida. Com medo de um acidente, a família pediu ajuda a uma vizinha, que cedeu um dos quartos para que a família de Ocilene pudesse, pelo menos, passar as próximas noites. 

“Não sabemos o que fazer. Ninguém consegue dormir mais aqui em casa por causa do medo do que pode acontecer durante a noite. Então a vizinha nos deixou dormir na casa dela, mas fica todo mundo imprensado e não sabemos por quanto tempo vamos aguentar viver assim”, falou.

Indignados 
A indignação da dona de casa é porque a Defesa Civil Município prometeu retirar as pessoas da área de risco, mas desde o acidente que vitimou  o pequeno José Silva Carvalho, de 2 anos, a pasta, segundo eles, não voltou ao local. 

“Já pensou se essas árvores caírem? Vai cair em cima da minha casa! Toda vez que chove e os meus  filhos ficamos desesperados, com medo do que pode acontecer”. Esse é o relato de uma mãe  de tres filhos – de 11, 3 e 2 anos – que não tem para onde ir. Desempregada há alguns meses, ela espera que o poder público “estenda a mão” e a ajude a sair do local. 

De acordo com a Defesa Civil do Município, a área continua sendo avaliada, por ser considerada de risco, e as famílias que tiveram as residências afetadas foram cadastradas e encaminhadas para o aluguel social. 

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as chuvas foram acima da média nos últimos dois meses, em Manaus. Só nos dez primeiros dias de fevereiro já choveu aproximadamente 50% do previsto para o mês inteiro.  Em janeiro, a precipitação pluviométrica chegou a 34% a mais que o previsto para o mesmo período.

Para o final de semana, a  previsão é de céu variando entre nublado e parcialmente nublado com ocorrência de chuva, mas de menor intensidade e com as temperaturas em pequena elevação, de acordo com o Sipam.

Chuvas bem acima do previsto

Em janeiro, o acumulado de precipitação mensal chegou a 402 milímetros na estação meteorológica do Inmet, enquanto a previsão era de que chovesse 300 milímetros.   Já os dez primeiros dias de fevereiro registraram  precipitação de 152,4 milímetros (na estação do Inmet) e 193 milímetros (na estação do Sipam) o que correspondem a 49,8 % e 63 %, respectivamente, da chuva esperada para todo o mês. As chuvas devem se estender até o mesmo de maio.  

O meteorologista  do Inmet, Gustavo Ribeiro, explicou que  a incidência de chuvas acima da média podem estar relacionadas ao fenômeno La Niña. “É que estamos sob a influência do  La Niña de fraca intensidade, o que na região favorece a formação de nuvens e, por consequência,  aumenta o volume das chuvas”, afirmou. 

Segundo Ribeiro, por causa deste fenômeno, o atual período chuvoso está mais intenso que nos dois últimos anos e a previsão é que as chuvas sigam dentro da normalidade até abril.

Lembrança trágica na Zona Norte

E a chuva não poderia ter deixado lembrança mais triste para os moradores da rua Santo Antônio. Ao lado da casa de Ocilene está o que restou da casa do pequeno José. Alguns objetos como lençóis, colchão e louças ainda são vistos em meio a lama.  Mas absolutamente nada pôde ser recuperado.  Os moradores  afirmam que o risco de desabamentos no local havia sido denunciado, mas que as providências demoraram  a ser tomadas. “Eles esperaram a nossa vizinha perder o filho. Será que mais alguma tragédia vai ter que acontecer para olharem para cá?”, questionou o aposentado José Nogueira Brandão. A dona da casa destruída, Iana Silva Carvalho, se mudou do local e ainda está em estado de choque pela perda do filho mais novo.


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