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Dores nas costas é a principal queixa dos carregadores da Manaus Moderna, no Centro

Apesar desses trabalhadores se comportarem como super-homens, as dores que sentem os deixa tentados a pedir por socorro  01/03/2015 às 17:16
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Torções, dores na coluna, infecção intestinal e dores musculares são problemas de saúde comuns entre os carregadores
Cynthia Blink Manaus (AM)

Os carregadores do porto da Manaus Moderna parecem desconhecer limites de peso na hora de colocar uma carga nas costas. Aliado a isso, está o fato do porto ser um dos principais pontos da cidade por onde chega e sai todo tipo de mercadoria que navega pelo rio Negro, são: frutas, verduras, eletrodomésticos, móveis, verdadeiras mudanças transportadas pelos carregadores, do motor (como chamam o barco) para a rua e da rua para o motor, por vezes, eles alongam o caminho e vão até as feiras suportando levar quase o triplo do próprio peso.

Apesar desses trabalhadores se comportarem como super-homens, as dores que sentem devido aos exageros da jornada de trabalho os deixa tentados a pedir por socorro. “Mas a gente não tem com quem contar. Se eu me machucar aqui, me complico. Fico sem trabalhar e sem receber. Uma vez, faz seis anos, caiu uma peça de madeira no meu pé, ficou inchado, até hoje ele dói. Por causa disso precisei ficar uma semana toda parado e sem ganhar um tostão”, recorda Idemar Corrêa, de 47 anos, sendo 12 como carregador.

Nos últimos 5 anos, ele decidiu pegar mais leve e prefere carregar as bagagens e não os fardos de frutas ou verduras. “Antes eu carregava de tudo, já cheguei a subir as escadas com uma frizer nas costas e sozinho”, garante o carregador que, atualmente reclama de dores nas costas. Uma das queixas que mais se escuta entre os colegas de trabalho do Idemar. 

Doenças

Torções, dores na coluna, infecção intestinal e dores musculares são os problemas de saúde que mais afligem os carregadores da Manaus Moderna, segundo uma pesquisa divulgada pelo  IPEA, Code em 2011.

A mestre em Sociedade e Cultura, Maria Milene Gomes, realizou uma pesquisa, em 2010, intitulada “O mundo do trabalho no cais do porto da Manaus Moderna: o carregador de bagagens e trabalho precário”, e observou que essas doenças são resultado do esforço no trabalho e das condições do porto.

"Eles não usam equipamentos de proteção e a estrutura do porto não oferece segurança nem para eles e nem para os passageiros, com quem correm pelo espaço. Esses fatores que os levam a sempre protagonizar acidentes e muitos envolvendo fraturas. Outro ponto que os coloca em risco é o fato de se alimentarem por ali, nos pequenos restaurantes ou barraquinhas da Orla se sujeitando a infecções, já que não existe uma manipulação correta dos alimentos", diz a mestre que nasceu no município de Iranduba (a 19.89 km Manaus, em linha reta) e nas idas e vindas a capital, sempre observou o trabalho dos carregadores.


Ela ressalta, ainda, que o almoço costuma ser o único intervalo dos carregadores em uma jornada de trabalho que pode chegar a 12 horas por dia, de domingo a domingo. 

Para amenizar os sofrimentos físicos é comum que parte dos carregadores se “anestesiem”, esse é o termo  que falado por eles para dizer que fizeram uso de álcool e, às vezes, até drogas. Uma rotina que explica a recorrência de trabalhadores viciados. Esse é o assunto da próxima edição da série “Às margens do rio e da história”.

Saúde

Um dos poucos equipamentos que os carregadores utilizam é o chapéu, vendido a R$ 15, e a reata, a corda que usam na cabeça envolvendo a carga e deixando as mãos livres para equilibrar mais fardos na cabeça. “E tem carregador achando que essas cordas e chapéu são equipamentos de proteção”, revela a mestre em Sociedade e Cultura da Ufam, Maria Gomes.

O fisioterapeuta, o doutor Tiótrefis Fernandes, explica como os dois “equipamentos” afetam diretamente a saúde dos trabalhadores. “Aparentemente, a finalidade é acomodar e empilhar melhor a carga sobre a cabeça. Tanto o chapéu quanto a corda oferecem riscos à saúde, principalmente pelo elevado peso transportado. Carregar toda a carga sobre a cabeça causa maior efeito compressivo sobre a coluna, sobretudo à região cervical. A corda permite distribuição do peso da carga sobre as costas, diminuindo o impacto em relação a anterior, mas ainda sobrecarrega a região cervical e lombar, devido à postura adotada", detalhou.

Valor fixo

Parece que não há um consenso sobre um valor fixo de carga máxima a ser aplicadas a todas as pessoas, pois o impacto absorvido pelo corpo depende de outros fatores além do peso, como capacidade física individual, posicionamento/postura de transporte e volume da carga, dentre outras.

A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), art. 198/199, e Convenção OIT 127, determinam um limite de 60 kg para homens e 25 kg para mulheres, mas esse padrão está ultrapassado.

Já a Norma Regulamentadora que trata especificamente sobre ergonomia (NR 17) não define um valor específico.O National Institute for Occupational Safety and Health (NIOSH), órgão reconhecido internacionalmente na área, apresenta uma equação que considera diversos fatores e permite definir de forma objetiva e quantitativa qual o limite recomendado para o levantamento manual individual de uma carga.

No entanto, o NIOSH estabelece que os limites individuais para o levantamento, transporte e deposição manuais de cargas não deve exceder 1/3 da massa corporal.

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