Segunda-feira, 25 de Maio de 2020
IDENTIDADE

Doutorando descobre as próprias raízes após pesquisa sobre etnia Mura

Jaspe Valle Neto, 40, que é do município de Autazes e veio para Manaus estudar com 14 anos, encontrou na pesquisa para o doutorado sua raiz indígena



estudante_E613370A-0A41-4E16-B863-4EAD31673A94.JPG Foto: Eraldo Lopes
01/03/2020 às 08:58

Curiosidade e identidade cultural. Foi isso que levou o doutorando Jaspe Valle Neto, 40, a estudar a forma como os indígenas da etnia Mura,  da Aldeia São Félix, localizada no município de Autazes (a 113 quilômetros de Manaus), incluíam a cultura  e a vivência do povo no currículo pedagógico da escola. No estudo, o doutorando buscou mostrar como isso acontecia na prática e de que forma era benéfico para todos da comunidade. 

“O currículo da escola Mura assegura as determinações previstas nas leis, que trata sobre a educação indígena, e se transforma em um projeto de vida, pois trás melhorias na comunidade. Foi isso que constatei nos dois anos de pesquisa do doutorado. Eu percebi que tudo que eles trabalhavam pedagogicamente na escola, era tratado em reuniões com a comunidade de um modo geral. Eles se reuniam a cada bimestre e discutiam os problemas que a escola  e a aldeia estavam enfrentando. Eles apontavam a situação. Viam também o que estava dando certo. Os pontos fortes e francos e aquilo  se transformava e conteúdos temáticos”, explica Jaspe. 



Ele, que passou dois meses, não consecutivos, na comunidade durante o período do estudo, disse que a ideia era comprovar como e de que forma os assuntos  discutidos entre eles se convertiam em temas pedagógicos e não fugiam das orientações previstas na constituição, nas legislações que abordam como devem ser feitas as escolas indígenas. 

“Esse currículo se transforma em um projeto de vida para o povo. É esta tese que defendi. No decorre da pesquisa vi que quando eles apresentam um problema, aquilo não ficava apenas no víeis das ações, aquilo tinha que  ter resultado. Então eles trabalham com pedagogias de projetos para que de fato os problemas tratados sejam minimizados e o que esta dando certo seja mais fortalecido”, afirma. 

Autoconhecimento

Jaspe, que é do município de Autazes e veio para Manaus estudar com 14 anos, conta ainda que uma sequência de fatores o levaram ao objeto de estudo. Inclusive, a aceitar e identificar sua identidade cultural, já que o pai dele também é da etnia Mura.

“Foi na graduação, já fazendo pedagogia, que conheci uma professora e me encantei pelo tema quando ela começou a falar sobre o multiculturalismo. Nesse período meu irmão tinha voltado para Autazes e lá  conheceu a história do povo Mura juntamente com o meu pai. Os dois viraram militantes da causas indígenas e nisso  meu  pai contou a meu irmão que era  indígena da etnia Mura. Naquela momento foi um choque, não aceitei de imediato. Porque a imagem que eu tinha era uma imagem preconceituosa e discriminizadora dos povos indígenas. A Professora coincidentemente conhecia os dois e me sugeriu  falar sobre o povo Mura de Autazes como exemplo de grupo étnico, na ótica do multiculturalismo, está conseguindo a sua emancipação”, conta.  

Ele incluiu o assunto no projeto de conclusão de curso e disse que partir de então começou um processo de transformação de sua vida. “Eu tive a oportunidade de conhecer o povo Mura e comecei a quebrar os preconceitos, a desconstruir as discriminações, a olhar o sujeito, o outro, inclusive a mim mesmo. Porque se meu pai é Mura e meu irmão,  eu também sou. E aí  foi que eu me debrucei na pesquisa de graduação e apresentei o povo Mura como exemplo de povo que estava conseguindo ocupar o seu espaço na área da educação”. 

Na Academia

Anos depois ele acabou fazendo Mestrado sobre sobe o projeto político pedagógico da escola indígena o que acabou motivando o estudo atual. Ele, que defendeu sua tese de Doutorado na última sexta-feira, na Ufam, acredita que a pesquisa pode ajudar e contribuir na educação indígena praticada em outros lugares do Brasil e do Estado. 

“Na tese, a gente fez as recomendações. O meu estudo, quando se tornar público, vai estar à disposição para que todo mundo conheça a peculiaridade do trabalho que esse grupo desenvolve. Eu acredito que isso pode ser referencia um parâmetro, se tornar um exemplo para outros grupos étnicos. Quando leem e identificarem a forma de excelência, que o povo Mura faz na sua educação, isso pode servir de luz e inspiração para outros”, afirmou.

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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