Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
EFEITO CORONAVÍRUS

Drogarias começam a racionar venda de máscaras e álcool gel em Manaus

Em alguns estabelecimentos visitados por A CRÍTICA, se constatou que os produtos não estão disponíveis em todos os lugares e, em alguns locais, sequer há previsão de renovação do estoque.



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04/03/2020 às 09:16

O primeiro caso confirmado do novo coronavírus (Covid-19) no Brasil somado aos três casos suspeitos notificados pelo Amazonas ao Ministério da Saúde (MS) na última segunda-feira (2) tem causado uma alta procura por frascos de álcool em gel e máscaras cirúrgicas nas drogarias e nas lojas especializadas em Manaus. Em alguns dos estabelecimentos visitados pela equipe de reportagem de A CRÍTICA, se constatou que os produtos não estão disponíveis em todos os lugares e, em alguns locais, sequer há previsão de renovação do estoque.

Localizada na avenida Ayrão, Centro, Zona Centro-Sul de Manaus, a loja especializada em artigos médicos Instrumental Técnico, que vende tanto no varejo quanto no atacado, segue limitando as vendas de máscaras cirúrgicas devido à falta do material disponibilizado pelo fornecedor. Segundo o diretor do estabelecimento, Mauro Macedo, são vendidas, no máximo, dez unidades de máscara por pessoa para que, assim, mais pessoas possam comprar. Para isso, as máscaras têm ficado no depósito. Uma caixa com 50 unidades é vendida a R$17,50.




Foto: Junio Matos.

‘’Se a gente não tivesse adotado essa regra todo o estoque já teria sido vendido a um cliente só’’, justificou ele. “Na semana do carnaval, quando o primeiro caso de coronavírus foi confirmado no Brasil, a procura aumentou consideravelmente. Nem no surto de H1N1 [ocorrido ano passado no Amazonas] houve uma procura tão grande por essas máscaras’’, completou ele, acrescentando que a mesma política da venda limitada tem sido adotado com os frascos de álcool em gel de 500ml que custam R$ 6,00 e são vendidos, no máximo, duas unidades por pessoa.

Perto dali, na avenida Boulevard Álvaro Maia, Zona Centro-Sul de Manaus, na loja especializada Odonto Med Shop, a última caixinha de máscaras cirúrgicas havia sido vendida na tarde de ontem. Conforme a gerente do estabelecimento, Ana Claudia, uma nova leva está prevista para chegar ainda nesta quarta-feira (04).

‘’As pessoas estão com medo. Muitos têm nos procurado nos últimos dias, principalmente aquelas que vão viajar’’, disse. ‘’O estoque tem esgotado rapidamente e demoramos a repor, pois as máscaras vêm de São Paulo. A média de preço de uma caixinha com 50 unidades é de R$ 30 a R$ 40 reais’’, contou.

Se nas lojas de artigos médicos a oferta tem sido limitada, nas farmácias as máscaras estão praticamente extintas e sequer há previsão da volta do produto às prateleiras. Na FarmaBem, localizada na mesma avenida, não há nem álcool em gel nem máscara cirúrgica. ‘’Estamos há quatro dias sem álcool [cujos preços vão de R$ 7,92 a R$ 17]. Talvez chegue mais essa semana. Hoje mesmo uma senhora ficou chateada por não ter encontrado nenhum dos dois produtos’’, relatou.

Ainda na mesma avenida, tanto na farmácia Santo Remédio quanto na Farmácia do Trabalhador do Brasil, ainda é possível encontrar alguns frascos de álcool em gel. Na primeira havia apenas uma unidade de 60ml vendida a R$ 11. Na outra, a reportagem encontrou sete frascos de 60ml disponíveis ao preço de R$3,99. ‘’O álcool e a vitamina C têm sido bastante procuradas por pessoas de todas as idades. Estamos aguardando chegar mais frascos de Pernambuco’’, disse a vendedora que, por timidez, preferiu não se identificar.

Uso da máscara é recomendável para as pessoas doentes

O uso da máscara cirúrgica é mais recomendado para as pessoas que estão gripadas a fim de evitar que o vírus se espalhe, não para as que não apresentam nenhum sintoma respiratório, já havia ressaltado o médico infectologista Marcus Guerra em entrevista publicada no jornal A CRÍTICA no dia 16 de fevereiro.


Foto: Junio Matos

“Devemos adotar medidas ligadas à higiene pessoal. Lavar as mãos com água e sabão, principalmente após tocar em superfícies de uso comum. Caso esteja em um lugar onde não possa higienizar as mãos, não levá-las aos olhos, nariz e boca: portas de entrada do vírus. As pessoas que estão doentes deveriam evitar ir aos locais onde há aglomeração de pessoas para evitar a disseminação, principalmente entre o grupo de risco, crianças e idosos. Crianças deveriam, por exemplo, se afastar da escola enquanto doentes porque a sala de aula , por ser ambiente fechado, é propício para a transmissão do vírus da gripe’’, orientou ele, que é diretor-presidente da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) desde 2017.

Casos suspeitos no AM

O Amazonas notificou na última segunda-feira (02) três casos suspeitos de Covid-19 (novo coronavírus) ao Ministério da Saúde. Um dos casos trata-se de uma pessoa que esteve nos Emirados Árabes. Os outros dois chegaram de viagem da França. Todos passam bem e estão em isolamento domiciliar, em Manaus.

As autoridades de saúde do Amazonas também continuam monitorando duas pessoas, residentes em Manaus, que estavam no voo do primeiro paciente positivo do Brasil. Até ontem (03) elas estavam saudáveis e não apresentam sintomas. Por essa razão, elas não são consideradas casos suspeitos.

Kits de diagnóstico específico para o COVID-19

De acordo com o Ministério da Saúde (MS), ainda essa semana serão enviados, gradualmente, 10 mil kits de diagnóstico aos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs) dos estados do Amazonas, Pará, Roraima, Bahia, Ceará, Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, contemplando todas as regiões do País.

O objetivo é começar o quanto antes o processo de descentralização e expansão da capacidade laboratorial para realização dos testes moleculares para detecção do novo coronavírus. ‘’A expectativa é de que profissionais de todas as regiões do Brasil estejam aptos a realizar o diagnóstico deste novo vírus, o que representa maior agilidade na detecção de possíveis novos casos”, explicou e chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), Marilda Siqueira.

De acordo com o MS, todos os laboratórios passarão por uma capacitação capitaneada pela Fiocruz antes de receber os kits de diagnóstico específico para o COVID-19. A expectativa da pasta é que em até 20 dias os kits já estejam em todos os laboratórios. Os insumos foram desenvolvidos pelos Institutos de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) e de Biologia Molecular do Paraná (IBMP).

“O Amazonas será um dos primeiros estados a receber os kits para testes específicos para o coronavírus. Estamos nos preparando ainda mais para a detecção da doença, principalmente porque estamos no período de sazonalidade das doenças respiratórias”, afirmou Rosemary Pinto, diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM).

Atualmente, apenas quatro laboratórios realizam o teste para diagnóstico do coronavírus. São eles os laboratórios de referência nacional, Fiocruz, no Rio de Janeiro; Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará; e Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo; além do Laboratório Central de Goiás, que foi capacitado para a realização do exame específico para coronavírus dos brasileiros repatriados da China e que ficaram na base aérea de Anápolis (GO).

Contágio

O coronavírus (COVID-19) possui grau de contagiosidade moderado e a epidemia na China está em declínio, afirmou o professor da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV EMAp), Claudio Struchiner, justificando que, conforme os dados disponíveis, os focos do coronavírus fora da China e alguns países vizinhos, como Coreia do Sul e Japão, refletem este padrão moderado.

‘’Quanto à dinâmica de transmissão, essa epidemia é compatível com as anteriores. Existe um número que mede a contagiosidade, representada pela quantidade de novos casos gerados a partir de um caso. Se for maior do que um, caracteriza uma fase de expansão da doença. Se for menor que um, indica uma fase de retração. Os cálculos atuais para o coronavírus estimam um R0 [o índice] de aproximadamente 2,5, o que o coloca em uma posição de moderação’’, disse.

O pesquisador, que também é médico com doutorado em Dinâmica Populacional de Doenças Infecciosas pela Universidade de Harvard, afirma que outras doenças, como a rubéola, é da ordem de 10; e doenças como a malária em regiões hiperendêmicas chegaram a mil.

‘’A contaminação ocorre principalmente em sua fase sintomática, mas pode acontecer também na fase de incubação, o que torna o controle da sua disseminação mais difícil. A prevenção é a melhor forma de evitar a doença, uma vez que o desenvolvimento de uma vacina demoraria muito tempo até ficar disponível’’, explicou Claudio Struchiner.

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Repórter do caderno Cidades do jornal A Crítica. Jornalista por formação acadêmica. Já foi revisor de texto de A Crítica por quatro anos e atuou como repórter em diversas assessorias de imprensa e publicações independentes. Também é licenciado em Letras (Língua e Literatura Portuguesa) pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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