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E a cuia foi pras cucuias?

Substituição da cuia gera polêmica 15/03/2013 às 18:27
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Gerente de Marketing do Waku Sese, João Torres, já pensou até em voltar atrás na decisão de oferecer tacacá na tigela, devido a protestos de clientes
Felipe de Paula Manaus (AM)

Boca dormente, sensação de arrepio e calor. O que parecem sintomas de alguma patologia, trata-se na verdade das reações do corpo humano diante de uma outra febre: a apreciação do tacacá. Prato típico da Amazônia Brasileira, a iguaria é uma unanimidade entre a população e turistas que visitam a região.

Mas nem todo mundo engoliu quando o sofisticado restaurante Waku Sese, também conhecido pelo delicioso preparo desse prato, resolveu aderir a uma pequena, porém polêmica inovação: substituir a tradicional cuia por uma tigela de porcelana, segundo eles para aumentar a aceitação do prato e impedir que a deterioração rápida das cuias prejudicasse o gosto e a qualidade higiênica da refeição.

Rede Social

Tudo começou com uma postagem na rede social Facebook com uma foto da novidade. Mas o problema é que nem todo mundo curtiu. “Infelizmente gerou uma repercussão muito ruim”, admite o gerente de marketing do Waku Sese, João Torres. Ele ressalta, no entanto, que o restaurante apenas ofereceu uma opção a mais aos clientes (segundo ele, a cuia é rejeitada por algumas pessoas), sem deixar de oferecer a opção tradicional.

“Parte dos clientes gostaram e até pediram para levar a tigela”, diz ele, reconhecendo, no entanto, que a maior parte dos clientes continua pedindo o tacacá servido na cuia. “Teve cliente que até reclamou com a gente. Creio que serviu como experiência, e vimos que a cuia realmente é a mais aceita”, disse ele, que em respeito à vontade (ou seria revolta?) da maioria, já está até considerando voltar atrás na decisão.

Sopa

Quem também não se conformou com a notícia foi a proprietária da Tacacaria Parintins, Bruna Iannuzzi, que oferece a iguaria aos modos da ilha tupinambarana, isto é, mais doce e com cebolinha e outros ingredientes extras no tucupi. “Eu não consigo conceber o tacacá sem a cuia”, disse a empresária. “Tacacá sem cuia para mim é sopa”, provocou.

Ela diz ainda que quanto à questão higiênica, basta observar o prazo de validade das cuias, pois a tinta com que elas são pintadas realmente começa a soltar depois de um tempo. “Nós acondicionamos as cuias na geladeira e as utilizamos por apenas dois meses”, explica.

Outras mudanças

Mas não é a primeira vez que o tacacá é modificado de alguma forma por razões comerciais. O Tacacá Gelado, criado, ou segundo algumas versões recriado por um chef paraense, chegou a agradar por lá, mas também gerou polêmica de defensores da tradição tacacazeira.

Segundo historiadores como o paraense Aldrin Figueiredo, o tacacá originalmente era preparado pelos povos indígenas com peixe e não camarão. Para torná-lo um prato menos trivial, o camarão foi adicionado. Por isso, antigamente ele era servido mais em festas e em casas de família, embora a tradição conte que ele nunca teve hierarquia social.

Resta saber se as modificações vão criar novas opções de preparo, dando mais possibilidades de sabor para o prato, ou se vão descaracterizar a iguaria, perdendo os preceitos clássicos a que faz referência. E você, leitor, o que acha?

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