Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ACESSÓRIO DA MORTE

Em 2018, vinte do semiaberto monitorados por tornozeleira morreram no Amazonas

Cinco das vinte mortes ocorreram na última semana. Autoridades atribuem os homicídios à guerra de facções



tornozeleira.JPG Foto: Márcio Silva/Arquivo AC
24/07/2018 às 07:18

O sonho de todo encarcerado é a liberdade. Deixar a prisão, sem se importar como – seja por meio de uma fuga ou legalmente, monitorado por sistema eletrônico de tornozeleira –,  é o que eles mais desejam. Em Manaus, muitos dos que ganharam a liberdade monitorada no primeiro semestre de 2018 se tornaram presas fáceis do crime organizado e estão sendo executados. 

Até a última sexta-feira (20), a Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) registrou 19 mortes de detentos usando tornozeleiras, sendo 18 na capital e uma em Iranduba. No último domingo (22) esse número chegou a 20, com a morte de Ronald das Chagas Pestana, 35, no bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste da capital. 

Na última semana, pelo menos cinco detentos que ganharam a “semi liberdade”, monitorados dentro um raio de distância pré-determinado, foram assassinados. O secretário executivo de Inteligência (Seai/SSP-AM), Herbert Pascarelli, assegura que as mortes que vêm acontecendo são resultado da disputa entre facções criminosas.

No caso mais recente, Ronald das Chagas estava saindo de um bar e indo para a casa, quando os assassinos chegaram em um carro de cor preta e efetuaram os disparos, que atingiram a cabeça e o tórax dele. Ronald tinha deixado o presídio havia poucas semanas.

Na madrugada da quarta-feira passada (18), Wenderson Feitosa da Silva, o “Picudo”, 31, foi encontrado morto com um tiro nas costas dentro da casa onde morava, na rua A, na comunidade Santa Inês, bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste. A família disse em depoimento à polícia que o homem já tinha sido preso em outra ocasião por tráfico de drogas e porte ilegal de arma.

Um dia antes, Wuiller Pimentel de Brito, o “Vassourinha”, de 32 anos, foi morto com 16 tiros, na rua Sucupira, no Conjunto Ouro Verde, bairro Coroado 3, Zona Leste, por volta das 18h. Ele também estava usando tornozeleira eletrônica, e respondia no regime semiaberto pelos crimes de tráfico de drogas, porte ilegal de arma de fogo, receptação e associação criminosa.

Atualmente 1.400 pessoas estão sendo monitoradas por tornozeleiras eletrônica no Amazonas. Destas 800 saíram do regime semiaberto do sistema prisional e as demais são monitoradas por outras situações, como a liberação em audiência de custódia.

Mais visibilidade

A avaliação do titular da Secretaria de Administração Peniteciária  (Seap), Cleitman Coelho, é de que as morte de detentos do semiaberto sempre acontecia, mas que elas não chamavam tanta a atenção porque eles não usavam tornozeleiras.

Para as autoridades, as mortes de pessoas em “semi liberdade” estão ligadas ao comprometimento deles com o crime, principalmente com facções. Segundo as forças de segurança, a maioria deles é assassinada por conta de dívidas com o tráfico e disputa entre as facções criminosas pelo domínio de territórios.

O relato de quem usa tornozeleira

Talles da Silva, 28, é um dos detentos do semiaberto que usam tornozeleira. Ele ganhou liberdade monitorada há dois meses e garante que o assessório não serve para nada. Talles disse que se sente constrangido com o equipamento e sente medo de ser morto nesse momento de briga entre facções, embora ele acredite que os que estão morrendo são pessoas que deixaram o presídio e continuam na prática criminosa, com envolvimento com facções criminosas.

O detento disse que quando chegou em casa com o equipamento os seus familiares ficaram chocados. “Agora estão acostumados, mas eu me sinto constrangido e evito mostrar, evito vestir bermudas, ir à praia e fico mais em casa”,  contou.

Talles pode circular por toda cidade trabalhando com a venda de bolos no pote, mas não pode ultrapassar os limites urbanos. Ele disse que foi preso, condenado, cumpriu parte no regime fechado e que a cadeia foi uma escola. Atualmente, o autônomo já está se organizando para montar a sua própria empresa.

Nem só detentos do 'semi'

O secretário de Administração Penitenciária (Seap), Cleitman Coelho,  explicou que nem todas as pessoas que são monitoradas por tornozeleiras são do regime semiaberto.  De acordo com ele, há pessoas que não passaram pelo sistema penitenciário, como é o caso das que são presas pela polícia e passam pela audiência de custódia, quando o juiz, ao invés de encaminhá-las para a cadeia, decide mantê-las em liberdade sob monitoramento.

Conforme o secretário, não é a Seap quem decide colocar o presidiário em liberdade. Ela apenas cumpre a lei e o que o Judiciário determina. “Existem as fases do cumprimento da pena. O suspeito entra como preso ingressa no sistema provisório é julgado e vai para o regime fechado e vai progredindo até terminar o cumprimento da pena e ser colocado em liberdade”, explicou Cleitman.

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