Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
SAÚDE DA MULHER

Em busca de valorização da atividade, parteiras fazem 6% dos partos no Amazonas

Com o avanço da medicina e do saber científico, conhecimento tradicional passou por momento de desprestígio, mas a realidade amazônica nunca abriu mão dessas personagens



parteira_3E160C8A-CAFE-45B0-BB86-190356C88A5E.JPG Foto: Antônio Lima/Arquivo/AC
14/02/2019 às 21:18

No Amazonas, que possui todas as particularidades que um estado amazônico possa ter, pelo menos  6% dos partos são assistidos por parteiras, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam), que contabiliza 1.280 delas em seu banco de dados.  Com o avanço da medicina, do saber científico, esse conhecimento tradicional passou por um momento de certo desprestígio no País, mas a verdade é que realidade amazônica nunca abriu mão dessas personagens.

Ao longo dos últimos anos, o árduo trabalho desenvolvido por elas, de ajudar a várias gerações virem ao mundo, passou a ter maior reconhecimento da saúde pública, que as integrou ao sistema. Mas é preciso mais, principalmente apoio, dizem elas.

Com o intuito de discutir mecanismos para a valorização da atividade junto às equipes de saúde dos municípios e chamar a atenção da sociedade em geral, dezenas de parteiras tradicionais do Amazonas estiveram reunidas nesta semana em Manaus. A reunião da Associação das Parteiras Tradicionais do Amazonas (APTAM), que discute as atividades para este ano, além de formas para subsidiar o grupo como entidade civil organizada aconteceu, quarta-feira e ontem, no Instituto Leônidas e Maria Deane/Fiocruz Amazônia,  no bairro Adrianópolis, Zona Centro-Sul de Manaus.

Na pauta, propostas para as próximas conferências saúde, cadastramento parteiras de outros municípios na associação e, ainda, elaboração de atividades para o dia 5 de maio, data que se comemora o Dia Internacional da Parteira Tradicional. Compõem a comissão responsável pela associação, parteiras de Tefé, Tabatinga, São Gabriel da Cachoeira, Itacoatiara, Maués, e Parintins.

De acordo com a presidente da APTAM, Tabita dos Santos Moraes, apesar dos dados oficiais,  a maioria dos partos feitos por parteiras ainda não é computada pelas secretarias municipais. “O que nos move a estar reunidas é o nosso direito, queremos mostrar que existimos. E a importância do trabalho da parteira precisar ser descoberta e reconhecida pelo poder público e toda a sociedade”, afirmou.

As propostas da associação estão bem delineadas. Algumas delas são: adaptar o cartão pré-natal para incluir observações das parteiras tradicionais sobre os seus cuidados a gestante; autorização do uso de plantas medicinais pelas parteiras nas maternidades; inclusão das parteiras nas Casas de Parto das salas de Parto Humanizado; ambulanchas com macas para transporte das parturientes (pré-parto, parto e pós-parto); remuneração do trabalho das parteiras tradicionais; dentre outras propostas que serão levadas às conferências de saúde.

“Nessas conferências há muitas propostas sobre práticas tradicionais de saúde e, então, as parteiras estão levando uma agenda para dentro das conferências porque é onde serão definidas as políticas tanto para os municípios quanto para o Estado”, destacou o pesquisador Júlio César Schweickardt, da Fiocruz.
 
“O trabalho que essas mulheres desenvolvem não é em oposição ao trabalho de saúde, mas sim de no sentido de complementar, é uma ajuda, porque as gestantes têm muita confiança nelas”, afirmou. “Elas querem ser reconhecidas pelos trabalhos nas comunidades. Acaba que isso fica no anonimato. Quando elas começam aparecer e há a valorização dessa prática, elas se sentem estimuladas a continuarem a trabalhar e isso faz com que novas parteiras possam surgir”, acrescentou.

Elas também atuam na metrópole

Em Manaus, onde parteiras também estão integradas à rede, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) contabiliza 34 partos assistidos por elas nos últimos dois anos, sendo 22 em 2017 e 12 no ano passado. A pasta informou que também tem realizado vários treinamentos. No Distrito de Saúde Rural, informou a Semsa, as parteiras estão ligadas às Unidades Rurais, onde podem ter acesso a materiais para o acompanhamento do parto como luva, gaze estéril, etc.

'Me sinto útil na comunidade'

A parteira Tabita dos Santos Moraes, 45, tem vasta experiência em trabalhos envolvendo partos humanizados. Ela conta que a primeira vez que assistiu um foi aos 15 anos de idade. Tabita  aprendeu a atividade com a mãe, que hoje tem 67 anos e continua ativa, realizando partos no município de Tefé.

Em maio a tantos partos, alguns difíceis. Um em particular, em 1989, quando ela ainda não tinha tanta experiência em partos, ficou marcado na memória. A criança quase não sobreviveu ao nascimento e, por um milagre, voltou à vida.

“Aconteceu em Tefé. Dava 50 metros da minha casa até a casa da moça que gritou por socorro. Quando chego lá, ela estava engatinhando pela cozinha da casa e quando eu disse ‘o que foi?’ Ela contou que ia ter um bebê. Quando eu a deito, agasalho ela e tiro a calcinha da moça, vejo a palma do pé da criança de fora”, conta.

“Naquela época, aquilo era tudo novo para mim e chamei a parteira veterana, que era a minha mãe, para resolver”, acrescenta. “Ela colocou as pernas dela pra cima e entrou de volta a perninha da criança. Ela chacoalhou até que a criança ficou presa e não quis descer. Quando veio, todo mundo pensou que estava morto”, detalha.

“Os pais sofreram muito naquela noite. Tudo começou por volta das 20h e foi resolvido às 3h. Cada um tem sua crença e sua fé, a única coisa que sei dizer é que a gente reuniu ao redor da cama dela, clamamos ao Senhor e nesse momento deu a vida da criança”, relata.

Tabita, assim como outras parteiras do Amazonas, diz se sentir orgulhosa por significar tanto para o seu município. Como Nazaré Souza do Amaral, 58, que atua na Vila de Lindóia em Itacoatiara. Ela conta que a primeira vez que assistiu um parto foi aos 12 anos de idade. As mulheres da família atuam como parteiras há gerações, desde sua bisavó.

“Para mim, é um prazer ser parteira tradicional e ter esse legado dos meus avós, sinto orgulho. Eu já perdi a conta de quantos partos eu já ajudei, então eu me sinto muito útil na minha comunidade”, afirma.  “A nossa luta é diminuir esse anonimato. Por isso que eu digo: a melhor coisa é palestrar e mostrar para as pessoas que o parto natural e humanizado é a melhor opção”, ressalta.

Projeto de valorização da atividade

Criada em 2018, a APTAM faz parte do projeto “Redes vivas e práticas populares de saúde: conhecimento tradicional das parteiras e a educação permanente em saúde para o fortalecimento da rede de atenção à saúde da mulher no Amazonas”, que está sendo desenvolvido pela ILMD/Fiocruz Amazônia, por meio do Laboratório de História, Políticas e Saúde na Amazônia (LAHPSA), em parceria com a Susam e apoio financeiro do Ministério da Saúde.

“O objetivo do projeto foi para a gente valorizar o trabalho da parteira no Amazonas, através de oficinas e convidando gestores para dialogarem com elas. Outro objetivo é buscar a inclusão das parteiras às praticas de saúde dos municípios como, por exemplo, o pré-natal, o acompanhamento do parto, no uso de plantas medicinais”, explicou o pesquisador Júlio César Schweickardt, coordenador do projeto.

*Colaborou Izabel Guedes.

Receba Novidades

* campo obrigatório

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.