Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2020
SAÚDE

Número de potenciais doadores de órgãos no AM cai 42,5% em cinco anos

Os dados do Ministério da Saúde levam em consideração o período de 2013 a 2018. A expectativa da Central Estadual de Transplante no AM é que até o fim de 2020 o Hospital Universitário Getúlio Vargas retome os transplantes de rins



ARQUIVO_AC_2_EDC5C490-2B5A-4629-9C80-C61916E24A5F.JPG Foto: Arquivo AC
07/01/2020 às 12:23

De 2013 a 2018 caiu 42,5% o número de potenciais doadores de órgão no Amazonas (AM), aponta levantamento da Central Estadual de Transplante (CET), órgão vinculado ao Ministério da Saúde (MS). Em 2013 eram 129 potenciais doadores em todo o AM, dos quais apenas 17 se tornaram doadores efetivos. Em 2018 o número de potenciais doadores caiu para 96, e conforme dados da CET, desse total, apenas 12 indivíduos se confirmaram aptos para doação de órgãos.

O Amazonas realiza somente transplante de córnea (tecido que envolve os olhos). Em 2019, segundo informou a Secretaria de Saúde do Estado do Amazonas (Susam), foram realizados 153 transplantes de córnea. Desde 2015 não são realizados transplantes de fígado e em 2018 foi realizado o último transplante de rim pelo Estado.  O coordenador da CET no Amazonas e médico cirurgião de fígado, Marcos Lins de Albuquerque, explicou que as cirurgias foram encerradas devido à série de fatores.



“O credenciamento para o transplante de rim e fígado venceu. Essa liberação é concedida pelo Ministério da Saúde. O Governo tentou novamente se credenciar e manter apto. No entanto, os hospitais onde eram realizados os procedimentos, na maioria particular, não quiseram mais cooperar. Além disso, tem que ter uma equipe específica para cada procedimento. É bem complexo com quatro fases”, explicou Marcos Lins.

O coordenador da CET adiantou que até o fim de 2020, a expectativa é que o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), situado no bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul de Manaus, estará apto a realizar transplantes de rins. “O credenciamento junto ao Ministério da Saúde é bem minucioso. O HUGV está mais próximo de retomar o procedimento”, afirmou o coordenador da CET. “O Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz também está nos trâmites, mas a unidade ainda está na primeira etapa”, complementou.

Fila de espera

De acordo com o Complexo Regulador do Amazonas (CRAM) são realizados em média quatro transplantes por dia. Como no Estado não são realizados transplantes de rins e fígado, os pacientes que necessitam destes órgãos são incluídos no programa de Tratamento Fora de Domicílio (TFD), estratégia do Sistema Único de Saúde (SUS) para prover a possibilidade de recuperação parcial ou total da saúde do paciente. De acordo com a Susam o rim é o órgão mais requisitado para transplante no AM.
Até o fim de 2020 o Hospital Universitário Getúlio Vargas estará apto a realizar transplante de rim. Foto: Arquivo AC

Conforme Marcos Lins, os pacientes que necessitam de fígado e rins são encaminhados para estados parceiros, por meio do TFD, e caso haja um doador efetivo é realizado o transplante. Segundo o coordenador da CET, a estimativa é que de 2015 a 2019 já foram transplantados de 80 a 100 rins em amazonenses, ainda existem 480 pessoas aguardando o transplante no Estado. A estimativa é de 200 a 250 pessoas aguardando transplante de fígado, 10 a 15 pessoas na espera de um pulmão e 15 a 20 pacientes aguardando um coração, segundo levantamento do CRAM.

“Pulmão e coração são os órgãos mais difíceis de encontrar doadores. Existem uma série de fatores que é preciso levar em consideração, como histórico de saúde do doador, entrevista familiar onde há possibilidade de negativa, a liberação da Central de Transplantes etc. O órgão precisa está em bom estado e o corpo do transplantado tem que aceitar a nova parte. É um acompanhamento antes, durante e depois da cirurgia”, pontuou o coordenador da CET, Marcos Lins.

Parâmetros no país

No Brasil houve um aumento na identificação de potenciais doadores nos últimos cinco anos. De 8.916 em 2013, dos quais 2.562 se tornaram doadores efetivos, o número saltou para 10.781 doadores em potencial, com 3.529 doadores efetivos no ano de 2018. Em se tratar da Região Norte do país, 389 potenciais doadores foram identificados em 2013 e 425 no ano de 2018, desses números, se confirmaram 55 e 64 doadores efetivos, respectivamente.

Na distribuição de doadores de órgãos efetivos pelas capitais da região Norte no ano de 2018, ainda conforme dados da CET, o estado do Pará (PA) registrou 20 doadores; seguido do estado de Rondônia (RO), com 16 doadores; em terceiro está o Amazonas (AM) com 12 doadores; o Acre (AC) detectou nove doadores efetivos; o estado de Tocantins (TO) com quatro doadores; e Roraima (RR) com três doadores. Segundo o Ministério da Saúde a CET do Amapá (AP) ainda não tem produção.

De 2013 a 2018, de acordo com os dados da CET, a região Norte realizou 3.905 transplantes entre rim, fígado, córnea e medula óssea. Ao ramificar por órgãos, foram 52 fígados, todos de pessoas falecidas; 595 rins, 159 de pessoas vivas e 436 de pessoas já falecidas; 3.256 transplantes de córnea e dois transplantes de medula óssea em toda região Norte do Brasil.

Em 2019, segundo informou a Susam, foram realizados 153 transplantes de córnea. Foto: HRBA/Reprodução

Negativas das famílias

No AM em 2018, a CET também registrou os números em relação a famílias que negaram a doação de órgãos de parentes já falecidos. Naquele ano, das 35 entrevistas realizadas com familiares de doadores em potencial, apenas 13 famílias autorizaram a retirada e reutilização dos órgãos em outra pessoa e 22 familiares não autorizaram o procedimento. Em 2013, segundo dados da CET, foram realizadas 383 entrevistas com familiares de potenciais doadores. Desse total, 285 autorizações foram concedidas e 98 houve resposta negativa.

Em relação ao território nacional, no ano de 2013 foram realizadas 7.874 entrevistas com famílias de potenciais doadores e desse total, 3.492 (44%) famílias negaram o procedimento. Já em 2018, das 6.457 entrevistas com familiares de doadores em potencial, 2.716 (42%) negaram que órgãos de parentes fossem transplantados. Em cinco anos há uma discreta redução no número de negativas. Ainda é um número baixo de doadores para o Brasil, levando em consideração os 208.494.900 milhões habitantes, de acordo com o censo daquele ano.

Para o coordenador da CET no Amazonas, Marcos Lins, três fatores contribuem para a recusa das famílias em doarem órgãos de primeiros. “O primeiro é desinformação sobre o procedimento. Muitas famílias alegam que o familiar morto, ainda em vida, manifestou a vontade de não ser doador. O segundo motivo é os familiares desconhecerem se o parente é ou não doador ou se o mesmo manifestou a vontade de doar”, declarou o médico cirurgião de fígado.

A logística é o terceiro fator apontado por Marcos Lins. “Por vezes a família impõe um limite de tempo para retirar o órgão. Mas o procedimento não é simples, precisa de uma equipe e de exames específicos como o de sorologia, HLA (Antígeno Leucócito Humano) e depois ofertar o órgão para Central de Transplantes. No interior é mais complicado pois tem o tempo de deslocamento até a capital”, pontuou.

Quem pode doar?

De acordo com o Ministério da Saúde (MS) pessoas vivas e já falecidas podem ser potenciais doadores. Consta no site da MS, que um doador vivo é qualquer pessoas juridicamente capaz em condição satisfatória de saúde. “Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores em vida. Ainda pela lei, não parentes somente com autorização judicial. O doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou parte da medula óssea”, informou o MS.

Para doadores falecidos, cuja família já autorizou o transplante ou em vida o doador manifestou a vontade de doar, existem dois critérios. O primeiro critério diz respeito a pacientes falecidos após morte cerebral. “O paciente cuja morte cerebral foi constatada segundo critérios definidos pela legislação do país e que não tenha sofrido parada cardiorrespiratória, pode doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões”, explicou o órgão ministerial.

Nos casos de pacientes falecidos por paradas cardiorrespiratórias, segundo o MS, nesta condição podem ser doados apenas tecidos para transplantes, tais como córnea, vasos, pele, ossos e tendões. “A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia, com equipe especializada e treinada para o procedimento”, ressaltou o Ministério da Saúde.


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