Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
INCÓGNITA

Em crise, Tropical Hotel procura novos investidores e tem futuro incerto

Com mais de 600 apartamentos e uma dívida milionária, hotel na praia de Ponta Negra fechou as portas



hotel_8B89B114-2E74-403F-95FE-1E78582A42BA.JPG Foto: Winnetou Almeida
01/06/2019 às 15:13

O Tropical Hotel Manaus já recebeu reis, príncipes, presidentes e comitivas de Estado, celebridades internacionais. Hoje o hotel de luxo, localizado na Zona Oeste da cidade, paralisou as atividades por tempo indeterminado por conta de dívidas milionárias de energia elétrica e na última semana demitiu mais de 120 trabalhadores.

Ivan Azevedo Pereira, de 52 anos, viveu o apogeu do hotel. Funcionário desde 1990, entrou como barman e chegou à função de encarregado do bar. “O Tropical é como um vírus. Está no sangue. Quem trabalhou lá sabe disso. Lá foi onde trabalhei, casei e morei durante cinco anos na vila dos funcionários. É um cartão postal  conhecido no mundo inteiro e a gente espera que volte a funcionar”, disse lembrando dos momentos vividos e dos registros fotográficos com famosos, entre eles, o vocalista da Banda Pink Floyd, Roger Waters.



O ex-funcionário do hotel por quase 30 anos, João Batista, de 65 anos, lamentou o fechamento do empreendimento e a perda deste patrimônio para cidade. “Eu digo sempre que tive duas famílias uma em casa e outra lá”, relembrou.

Com a presença de oitocentos convidados, inclusive o então presidente da República, Ernesto Geisel, o hotel foi inaugurado em 1976 pelo antigo Grupo Varig. Com a falência da companhia aérea, o empreendimento passou, em sua totalidade, para o controle da rede Tropical Hotels & Resorts Brasil. Em 2017, o hotel passou a ter gestão própria e a ser o único do grupo a manter a marca Tropical.

Abandono

A reportagem de A CRÍTICA esteve nas instalações na última sexta-feira e se deparou com o ambiente deserto e o clima sombrio devido à escuridão. No mini shopping com mais de 20 pontos comerciais apenas quatro lojas ainda estão com produtos expostos e, aparentemente, em funcionamento. Dentro do hotel, as lojas de joias e de artesanato também estão fechadas.


Foto: Márcio Silva

Na única loja que estava aberta, a funcionária, que preferiu não se identificar, disse que desde o corte do fornecimento de energia, no dia 8 de maio, não tem mais clientela. Ao ser questionado se pretende fechar e entregar o ponto comercial, o proprietário, que também não se identificou, disse ter esperança e acreditar em dias melhores.

Nos 611 apartamentos, o mobiliário foi desmontado e a roupa de cama retirada. Das suítes, a presidencial é conhecida por ter hospedado os ex-presidentes Lula e Dilma e recentemente, em 2018, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. As duas suítes tropicais do hotel têm piscinas no terraço. Uma delas foi residência do ex-vice governador Samuel Ranan, local onde ele costumava  despachar.

Na recepção do hotel, o fluxo de pessoas é de poucos funcionários, sobretudo, prestadores de serviços. 

Grandes festas

O Tropical já foi palco de congressos nacionais e internacionais, eventos e festas glamourosas. A realizadora do Bailinho do Tropical, Sky Rodrigues, contou que o hotel foi pioneiro em realizar o primeiro carnaval de salão para crianças da cidade.


Assessoria disse que após o religamento da energia atividades serão retomadas. Foto: Márcio Silva

Na semana passada, na área da piscina, trabalhadores iniciavam a montagem da estrutura de um show agendado para 9 de junho. A boate, o bar e o três restaurantes estão fechados. O zoológico continua em operação, mas visitações não são permitidas. As quadras de tênis, o ginásio e o píer estão em atividade.

O assessor de imprensa do Tropical, Paulo Roberto Pereira, informou que o estabelecimento procura novos investidores e a negociação de dívidas com a Amazonas Energia. Disse que após o religamento da energia as atividades serão retomadas. O prazo está indefinido.

Ariaú Towers está abandonado

Inaugurado no ano de 1986, o hotel Ariaú Amazon Towers foi  um dos hotéis de selva mais famosos do mundo. Localizado  às margens do rio Ariaú, um afluente do Rio Negro, a 60 Km de distância de Manaus via fluvial, chegou a receber diversas celebridades mundiais e foi considerado referência nacional e internacional em turismo.

No auge, o hotel chegou a empregar 300 funcionários e recebeu personalidades como Bill Gates, fundador da Microsoft, e o astro de Hollywood Arnold Schwarzenegger (que também ficou no Tropical).
Fundado pelo empresário Ritta Bernardino, o Ariaú fechou em 2015, próximo de completar 30 anos. Hoje, encontra-se em ruínas. Desde 2016, diversas tentativas de leilão on line foram realizadas para sanar as dívidas. Com o valor inicial de R$ 26 milhões, o lance para compra do hotel já caiu para R$ 13 milhões.

 

COMENTÁRIO

Roberto Bulbol - presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Amazonas

O Tropical Hotel é um ícone para hotelaria do Estado. Sem ele vamos ficar sem memória. Foram anos e anos para conquistar esse destaque no mercado nacional. Nos pegou de surpresa, pois dificuldades todo mundo está passando. O momento econômico que o Brasil está passando atinge todos os setores. Não acredito que seja o fechamento do hotel, está apenas hibernando, parado.

Foi uma das poucas redes hoteleiras que se envolveu com a cidade, as outras muito pouco fizeram. A rede tropical de hotéis fez muito pelo Estado divulgando o Amazonas através da companhia aérea Varig. Por muitos anos, a Varig na capa da passagem aérea colocou a foto da Amazônia, de pontos turísticos e do Tropical Hotel. Onde, a Varig voava tinha material do Amazonas. Foi quando iniciou a divulgação para o estrangeiro e ele começou a vir. É um hotel que preenchia todas as matrizes de classificação da Embratur e sempre foi referência. Nos anos 80 foi um grande hotel para o Brasil e chegou a ter 1.050 empregados. Fomos o 6º Estado do Brasil no ranking nacional de captação e realização de eventos devido o centro de convenções do hotel. 
 

Roselene Medeiros - presidente da Amazonastur

O Tropical Hotel é um dos maiores ícones de equipamento turístico no nosso Estado. Assim como muita gente tem no imaginário o desejo de conhecer a floresta amazônica, muitos turistas sonham em se hospedar neste hotel. Creio que o fechamento seja temporário. Não se pode deixar perder essas referência turística de Manaus. O governo do Estado está à disposição da administração do Tropical para tentar encontrar uma solução e, assim, reabrir o hotel o mais breve possível. Nós estamos abertos a ajudá-los a sair dessa crise.

Creio que legalmente não seja possível que o governo participe como investidor. Já encontramos em contato com o secretário de segurança pública para que a ronda seja mais ostensiva nas proximidades do hotel para evitar que seja saqueado e outros danos. O hotel tinha muitos eventos marcados para este ano com  800 participantes hospedados no estabelecimento. Isso é uma perda em termo de fluxo turístico de Manaus e para o Estado é muito grande.

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Repórter de A Crítica

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