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Em dois anos, Amazonas recebeu 11 refugiados sírios, diz PF

A foto que chocou o mundo em setembro, o menino Alan Kurdi morto numa praia da Turquia, chamou atenção para o grave problema dos refugiados 12/09/2015 às 13:48
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Corpo da criança foi encontrado na praia.
Silane Souza Manaus

O Amazonas recebeu 11 refugiados sírios, nos últimos dois anos, de acordo com dados do Departamento de Imigração e Estrangeiros da Superintendência Regional da Polícia Federal. Eles vieram para o Brasil após a instalação de um caos político e social na República Árabe da  Síria, que vive uma guerra civil cujo protagonista é a violenta milícia Estado Islâmico.

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM), José Roberto Tadros, lembra que a comunidade árabe é uma das mais antigas no Amazonas.

Segundo ele, que é descendente de árabes, a primeira leva de imigrantes, de modo geral, que veio para o Brasil foi por iniciativa do imperador  Dom Pedro II. “Eles relativamente se firmaram muito bem por razões variadas e segundo se diz, hoje existe de 20 a 25 milhões de descendentes do mundo árabe em todo o País”, afirma Tadros.

O empresário conta que a família dele veio para o Brasil justamente na época do Império, por volta de 1879. Conta que tem parentes no Líbano, onde sua avó morava, mas hoje em dia, só mantém contato com dois primos, mas um mora em Paris e o outro em Nova Iorque. Para ele, o motivo dos sírios e libaneses, entre outros, saírem do País de origem é para proteger a família.

“Diante da guerra interna, os pais querem proteger seus filhos e, por isso, acabam fugindo para poder oferecer algo melhor a ele”, salienta. E foi justamente essa busca por proteção dos filhos que chocou o mundo neste início de setembro com a foto do menino Alan Kurdi, 3, cujo corpo apareceu morto numa praia de Bodrun, na Turquia, após o barco que levava a família dele tentar cruzar o mar Mediterrâneo e chegar à ilha grega de Cós.

O Amazonas sempre recebe imigrantes sírios porque a Colônia Síria é grande no Estado, aponta o presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Ismael Bicharra, também um descendente. Mas ele destaca que não necessariamente são refugiados da guerra que está acontecendo naquela República. Muitos vêm por ter familiares que vieram para o Amazonas, na época do segundo ciclo da borracha 1942-1945.

“Já houve união maior entre os descendentes de sírios e libaneses no Amazonas, logo no período da migração para o Estado. Eles se encontravam no Clube Sírio Libanês, que existe até hoje, mas que não tem mais tanta importância como antes. Atualmente não há mais aquela individualidade que existia na época porque houve uma divisão e a Colônia Síria não é mais tão unida como antes. Hoje tem famílias de diversas nacionalidades”, explica.

Os árabes contribuíram e contribuem muito para o desenvolvimento e crescimento do Amazonas. Os descendentes que hoje vivem aqui possuem grande importância, principalmente nas áreas econômica - especialmente no comércio -, social e religiosa. Eles construíram a Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, localizada na Praça dos Remédios, no Centro de Manaus, e a primeira mesquita da região norte do Brasil, também situada no Centro.

Em números

 2.077 sírios foram recebidos no Brasil, de acordo com dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), órgão ligado ao Ministério da Justiça. Esse contingente começou a chegar em 2011, quando a guerra civil começou a devastar o País. O número é maior do que os dos Estados Unidos, onde 1.243 sírios receberam asilo.

A história do cônsul

O cônsul-geral da República Árabe da Síria em Manaus, Khaled Hauache, 97, elogia a atitude dos sírios de vir para o Brasil. Segundo ele, além de generoso, tudo o que tem de bom no mundo está no País.

“Acho bom para os sírios, ótimo para o Brasil, cuja atitude de recebê-los é de uma generosidade sem tamanho. Eu nunca vi um povo tão humano quanto o brasileiro e olha que conheço quase o mundo todo. Foi o País que me acolheu e me atendeu bem”, comenta.

Hauache conta que veio para o Brasil em 1945, a convite de um tio, que era irmão de sua mãe, que já morava no país desde 1904. Em 1953 ele veio para Manaus, onde se tornou um grande empresário.

Começou antes do início da implantação da Zona Franca de Manaus (ZFM), com empresas de manufatura de juta e, depois, com a fábrica de tecidos Matinha. Ele conta que, na época a cidade não possuía energia elétrica e a fábrica dele tinha e cedia para a Santa Casa de Misericórdia.

Porém, Hauache acabou sendo perseguido pela ditadura militar, morou três anos fora e na volta fundou a primeira televisão a cabo do País, a TV Manauara.  “Passava poucos meses na Síria, só ia para vê minha mãe. A última vez foi em 1998. Eu perdi minha pátria. Minha pátria é o Brasil”, destaca.

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