Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
RETRATO

Em Manaus, trabalhadores sem carteira assinada lutam pela sobrevivência

Marco Alexis, de 51 anos, é um dos 38,8 milhões de trabalhadores por conta própria ou sem carteira assinada no país. Quase metade do país vive nesta situação, diz IBGE



informalidade_B9E50E70-DC52-47F8-96A9-A95F21BB31A4.JPG Foto: Márcio Silva
30/09/2019 às 07:16

O venezuelano Marco Alexis, de 51 anos, após ficar desempregado passou a vender polpas e sucos naturais como ambulante na feira do São José II, Zona Leste de Manaus. Ele é apenas um dos 38,8 milhões de trabalhadores por conta própria ou sem carteira assinada no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

“Fiquei dois anos numa empresa trabalhando como avulso. Como eu entrei, saí. Mas foi bom porque o dinheiro que juntei ajudei minha família na Venezuela. Também fui comprando as outras coisas e hoje estou trabalhando. É com o que ganho aqui que nos sustenta”, disse o autônomo que ainda sonha com o retorno ao mercado de trabalho formal.



A informalidade bateu recorde no Brasil e representa 41,4% da população ocupada. Essa é a maior taxa registrada desde que o IBGE passou a calcular esse indicador, em 2016. 

Das 684 mil pessoas que encontraram emprego no trimestre, encerrado em agosto, 87,1% foram no mercado informal. São empregados sem carteira assinada, trabalhadores por conta própria, empregadores sem CNPJ e trabalhadores familiares auxiliares. O número de trabalhadores por conta própria chegou a 24,3 milhões, o que representa uma alta de 4,7% (mais de 1,1 milhão de pessoas) em relação ao mesmo período de 2018.

Também houve recorde no número de empregados sem carteira assinada no setor privado: 11,8 milhões. O número cresceu 3,6% (mais de 411 mil pessoas) em relação a trimestre anterior e 5,9% (mais de 661 mil pessoas) na comparação com o mesmo período no ano passado.

“As explicações em razão disso é desde o ano passado, com a mudança de governo, e a diminuição da atividade econômica. Por isso, o reflexo na alta do desemprego. São quase 13 milhões de desempregados e o reflexo já está nesta pesquisa que é a informalidade. A diminuição da informalidade e do desemprego vai ter que se esperar os reflexos do plano que o atual governo vem fazendo”, avalia o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-AM), Francisco Mourão Júnior.

Há nove anos, Edinaldo Bentes, de 32 anos, é atendente de uma loja de acessórios para celular sem a carteira assinada. “Foi por necessidade. Eu cheguei a procurar emprego formal e depois desisti. No mercado informal, a flexibilidade de horários é uma vantagem, mas perde-se muitos direitos e benefícios”, disse o autônomo acrescentando que não pretende se formalizar.

Pesquisa

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do 2º trimestre 2019, aponta 989 mil trabalhadores no Amazonas na informalidade. Do total, 557 mil pessoas trabalham por conta própria, sem CNPJ e sem a contribuição previdência, e 196 mil empregados no setor privado sem carteira assinada. São 157 mil trabalhadores familiares de forma auxiliar e o trabalho doméstico, sem carteira assinada, reúne 59 mil pessoas. De acordo com o IBGE, 20 mil empregadores informaram não possuir CNPJ.

Para o presidente do Corecon-AM, o reflexo negativo da alta da informalidade é a não geração de empregos com carteira assinada e o pagamento de direitos trabalhistas. “Mesmo na informalidade, essa pessoa gera uma renda e consome, assim, circula a economia. O que afeta a economia são os desempregados, mais dependentes do Estado de maneira geral, que não possuem renda e não conseguiram entrar na informalidade ou empreendedorismo”, pondera.

Desemprego

A necessidade financeira, o desemprego e uma separação familiar motivaram o autônomo Francisco Barbosa, de 62 anos, a vender kits com produtos de limpezas todos os dias em diferentes bairros de Manaus.

É com a venda dos produtos de limpeza, no valor de R$ 5 o kit, que Barbosa sustenta toda a família há 25 anos. “O valor já está defasado, mas se eu aumentar não vende. O importante é ganhar todo dia o dinheiro da comida e se manter. Não é um dinheiro avantajado, mas sustento dois filhos, assalariados que pago, minha esposa e me sustento”, contou.

Ele disse que formalizar o negócio é burocrático e caro. “É uma burocracia muito grande. Quem é pobre não consegue com esse tipo de produto. Eles exigem mil e uma coisas. Então você tem que trabalhar assim na informalidade, avulso. Eles não dão oportunidade”, afirmou.

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Repórter de A Crítica

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