Quinta-feira, 05 de Agosto de 2021
12 MESES DE COVID

Em meio ao caos da pandemia, amazonenses dão show de solidariedade e resiliência

Dificuldades foram dribladas pela força de vontade de quem pôde ajudar da forma desse a amenizar a dor da perda e da luta pela vida



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13/03/2021 às 13:07

O caos causado pela crise da pandemia não trouxe apenas sensação de dor e desespero. Em meio aos inúmeros problemas e contratempos que surgiam, diversos segmentos da sociedade amazonense resolveram ajudar como podiam. De profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros, integrantes das forças de segurança, até membros da sociedade civil, todos se uniram em uma corrente de solidariedade de proporções inéditas no Estado para enfrentar o inimigo invisível e letal.

Apesar de já ter passado um ano do primeiro caso de Covid-19 confirmado no Amazonas, a médica Ana Galdina, que atua no setor de reanimação do Hospital e Pronto-Socorro (HPS) João Lúcio, lembra muito bem a sensação de confirmar o diagnóstico dos primeiros mortos pela doença no estado.



"Desde o início eu estou na atuação em pacientes com Covid-19. Eu me lembro no primeiro caso que atendemos no João Lúcio. Era uma paciente com sintomas respiratórios e com uma tomografia muito característica da doença. Lembro do plantão que recebemos um paciente novo entre 50-55 anos, ele chegou parado já. Tentamos fazer reanimação, mas não teve êxito. Não havia justificativa para aquele homem ter morrido. Acabou que optamos por fazer uma tomografia pós-morte e aí constatamos que ele havia morrido pela Covid-19.

Ana Galdina faz parte da primeira equipe médica que atua desde antes da confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Amazonas. Casada e mãe de dois filhos, de lá para cá, muita coisa mudou na vida profissional e pessoal de Ana Galdina durante esse ano de atuação.

Foto: Arquivo Pessoal

"Ainda em 2020, fui chamada para atuar como médica pelos Bombeiros, atuei no Hospital Nilton Lins também. A minha principal área de atuação é na intubação. A gente trabalha de tudo para não chegar a esse ponto. Inclusive, eu peguei Covid-19 na última semana de março durante uma intubação. Logo no início, a minha relação de contato com meu marido e meus filhos foi sem contato. Imagina uma mãe sem beijar seus filhos. Eu procurava ficar distante da minha família. Mesmo com todos os cuidados, meu marido acabou pegando depois de alguns meses e meus filhos também, mas de forma assintomática. Ainda que tenha passado um ano, nossa vida mudou. Ninguém sai para fazer coisas que não sejam essenciais. Meus meninos não vão para shopping, não viajamos de férias"

Já vacinada contra Covid-19, a médica tem grandes expectativas que o Plano de Imunização possa contribuir para que o Amazonas retorne aos poucos ao que era antes da pandemia.

"Eu sempre falo que a vacina para mim tem um significado de esperança. Então trouxe esperança para que a gente consiga passar por esse turbilhão. A vida não voltará a ser normal. Vamos voltar muito doloridos, sentido perdas. Hoje, no Brasil, é impossível alguém não ter perdido algum familiar ou alguém muito querido. Não vamos voltar a ter aquela vida de antes, mas a vacina pode trazer uma esperança de voltar a uma vida próxima ao que tínhamos antes. A máscara ainda vai ser nossa parceira por muito tempo"

Ana Galdina acrescentou ainda que todos os profissionais de saúde sentem bastante a dor da perda de pacientes que foram acometidos pela doença.

"Eu gostaria de deixar uma mensagem de solidariedade. Porque a gente sente cada pessoa que a gente perdeu, cada vida que partiu. A gente sente um pouco a dor do familiar que perdeu o seu ente. Todo paciente que não conseguimos curar, a gente sente. Junto com isso, vem a esperança que faz a gente acordar todos os dias. Se cada um fazer a sua parte, dias melhores virão, dias melhores com saúde", acrescentou Galdina.

Segurança na pandemia

Com o estabelecimento do decreto de restrição de circulação das pessoas nas ruas, os profissionais de segurança entraram em campo para garantir que o decreto fosse obedecido pela população. Na fiscalização de estabelecimentos com funcionamento irregular, ou ainda no combate a festas clandestinas. Além disso, não deixar que a pandemia causasse uma crise de segurança no estado, foram uma das principais funções de policiais, delegados e profissionais de segurança que atuam desde o ano passado na linha de frente do combate a Covid-19.

Para a delegada-geral da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), Emília Ferraz, além de proteger a população, as forças de segurança têm a missão de ajudar a sociedade.

"Muito além de proteger a população, nós, que fazemos parte das forças da Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), temos a missão de ajudá-la. E foi o que fizemos! Entramos ‘em campo’, desde o ano passado, focados em cumprir decretos estaduais que determinavam a restrição de pessoas circulando nas ruas, que bares e casas noturnas funcionassem irregularmente aglomerando pessoas, e também agimos no combate a festas clandestinas", contou a delegada.

A delegada acrescenta ainda que as demais obrigações de todas as delegacias não pararam em nenhum momento. Em contrapartida, as ações foram redobradas para manter o combate a todos os tipos de crimes.

"Apesar dessa missão humanitária que decidimos enfrentar com muita garra e determinação, os departamentos de inteligência da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM) não pararam um segundo. Nossos delegados, investigadores e escrivães seguiram atuando nas Especializadas, DIPs e DEPs, buscando manter a ordem no Estado e também manter a população segura e longe de traços de criminalidade", acrescentou.

Emília Ferraz destaca que apesar do isolamento, em meio a este período a PC-AM realizou a maior apreensão de drogas já vista no Amazonas.

"Para se ter ideia, mesmo durante a pandemia, realizamos a maior apreensão de drogas já vista na história do Amazonas, causando um prejuízo enorme ao narcotráfico. E isso é apenas uma, das inúmeras ações promovidas ao longo desse 1 ano", destacou Ferraz.

O direito de respirar

O começo de 2021 foi marcado pelo colapso no sistema de saúde do Amazonas, o aumento do número de hospitalizações, de pacientes na linha de espera por leitos; e alta demanda de oxigênio pelos pacientes internados, trazendo como sequência novos recordes de sepultamentos diários pela Covid-19 no estado. Em meio a crise do segundo pico da pandemia no Amazonas, vários voluntários, entre eles jovens, se uniram em coletivos e mobilizaram arrecadações de fundos para adquirir alimentos, roupas, tanques de oxigênio para pacientes e familiares atingidos pela doença.

Esse é o caso da jovem Tammy Rosas, uma das líderes do "Levante Amazonas", grupo que formado em 2018 por voluntários que decidiram arrecadar doações para famílias vítimas do incêndio no bairro Educandos. Segundo Tammy, desde o ano passado até agora, o grupo tem realizado diversas ações em parceria com outras instituições e projetos visando atender os pacientes e profissionais que estão na luta contra a Covid-19.

"Começamos a fazer levantamento de doações como roupas, alimentos, materiais de higiene, os insumos básicos que as pessoas afetadas pelo incêndio do Educandos. Com a crise do oxigênio, resolvemos nos unir forças novamente. Dessa vez organizar como um grande grupo que contou com o Coletivo Visagem; Projeto Igarapés Limpos; Circo da Ciência. Várias pessoas foram se unindo ao longo desse processo para criar o Levante Amazonas. Tivemos apoio de pessoas incríveis, voluntários, jornalistas, social medias, designers. Todos se juntaram pela motivação de querer ajudar, fazer o mínimo. Oficialmente no nosso grupo temos 23 pessoas, mas recebemos ajuda de mais de 150 pessoas, entre doações, contatos, pessoas que tinham algo em casa e queriam doar. Somos imensamente gratos por cada ajuda porque através disso conseguimos ajudar as pessoas que precisam", contou Tammy.


Tammy (de calças verdes) participou ativamente na arrecadação solidária. Foto: Divulgação

Em janeiro de 2021, o grupo de voluntários conseguiu arrecadar mais de R$ 36 mil em doações para aquisição de insumos hospitalares que foram entregues a hospitais na capital amazonense. Além disso, o grupo também arrecadou alimentos e itens de higiene que foram entregues aos pacientes, profissionais de saúde e familiares em comunidades indígenas em Manaus.

"Total arrecadado, conseguimos R$ 36.888,77. Usamos esse dinheiro principalmente na compra de insumos hospitalares como máscaras, luvas, remédios, álcool em gel, cateter, avental, touca, tudo o que fazíamos na logística de levantamento do que os hospitais estavam precisando. Também auxiliamos em grande maioria o Parque das Tribos, lá nós praticamente fizemos uma estrutura com mesas, cadeiras, tendas, alimentos tudo o que eles precisam. A gente distribuiu muita água. Era muito triste ver que até o básico que era a água que estava faltando nos hospitais. Depois disso, dirigimos o resto do dinheiro da arrecadação final foi destinada para compra de cestas básicas para famílias que foram afetadas por essa crise", descreveu a jovem.

Tammy Rosas pontuou ainda que a prestação de contas está no perfil do instagram do Circo da Ciência onde contém todos os itens adquiridos pelo valor arrecadado, como também fotos das ações do grupo de voluntários, durante as doações. Tammy destaca que apesar da grande mobilização de jovens, ainda não é suficiente para atender às demandas de toda a população.

"Ao meu ver, é muito nobre e corajoso e honrado o que os jovens e os nossos grupos tem feito. Mas tomou uma proporção que parecia que nós estávamos tentando tampar o sol com a peneira, sabe. Era tanto pedido que chegava nas nossas DMs, mensagens de pessoas pedindo ajuda. Era muito triste não poder atender todo mundo. A gente fez ao que estava no nosso alcance e também o que está fora dele. Parecia uma bola de neve, quanto mais ajudávamos, mais apareciam pessoas precisando. Mas eu fico muito admirada dos grupos que surgiram disso, que mostrou uma força que nem nós mesmos acreditávamos que tínhamos. A gente sabe que o povo amazonense é um povo que não se larga, é um povo que ajuda. Não vamos parar, vamos continuar. São projetos que merecem apoio financeiro para levar educação, ciência, apoio social a quem precisa".

Além do Levante Amazonas, diversos outros grupos de voluntários até fora do Amazonas realizavam arrecadações visando adquirir cilindros de oxigênio para pacientes que estavam internados nos leitos dos hospitais e recebendo tratamento em casa. Segundo a delegada-geral da PC-AM, Emília Ferraz, a secretaria se propôs a ajudar nessa missão humanitária também.

"Já em 2021, nossa missão redobrou quando decidimos encarar o desafio de transportar e fazer a segurança de cilindros de oxigênio que tinham como destino unidades de saúde e residências. Queríamos, como sempre, desempenhar da melhor forma possível nossas funções e acredito que atingimos a meta", pontuou Ferraz.

Após esse momento crítico, o estado do Amazonas começa a apresentar redução de índices da Covid-19, apesar de ainda serem altos. Em contrapartida do restante do país. Apesar disso, Emília Ferraz acredita que o estado conseguirá se reestabelecer.

"Acreditamos que haverá uma melhora significativa não apenas no Amazonas, mas em todo o País. Toda a Polícia Civil é muito sensível à situação pela qual nosso Estado passa, e acreditamos que, em breve, tudo isso mudará e poderemos voltar a sorrir. Quanto ao trabalho da nossa instituição, ele seguirá atuante e firme como sempre, buscando sempre o combate à criminalidade e segurança da população", finalizou Ferraz.

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Repórter de A Crítica
Amazonense, nascido e criado em Manaus. Graduado em Jornalismo e mestrando em Antropologia Social, ambos pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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