Terça-feira, 19 de Novembro de 2019
DIA MUNDIAL SEM CARRO

Em meio a caos do trânsito, grupo em Manaus abre mão de automóveis

A pé ou de bicicleta, há quem deixou de fazer uso dos veículos ou só usa para situações especiais. Dia Mundial Sem Carro é lembrado neste domingo (22)



edmundoskatista_10781323-1026-4B8D-A4F5-0FE3670529B2.JPG Foto: Euzivaldo Queiroz/A Crítica
21/09/2019 às 23:51

Estimular uma reflexão sobre o uso excessivo de veículos é a finalidade do "Dia Mundial Sem Carro", cuja data é comemorada neste domingo (22). Em meio ao trânsito caótico e atrapalhado de Manaus, há pessoas, críticas do status quo poluidor, que preferem abrir mão do uso de automotivos e utilizar meios mais saudáveis para se deslocar a algum ponto.

O jornaleiro Alessandro Silva de Freitas, de 44 anos, o “Sandro”, atua na profissão desde os 9 anos de idade, desde a época em que a sede de A CRÍTICA ainda funcionava na rua Lobo D’Almada, no Centro da cidade. De lá, ele pegava o jornal e ia pelas praças da Saudade, Congresso, bairro Cachoeirinha e outras vias. Atualmente, seu ponto de vendas é na esquina da rua Gabriel Gonçalves com avenida André Araújo, no Aleixo, de 6h até 9h. Tudo a pé, sempre.




O jornaleiro Alessandro Freitas, o "Sandro": vários quilômetros por dia, a pé, vendendo matutinos / Foto: Jair Araújo

"Já teve situações do carro passar por mim e bater com o retrovisor nas minhas costas. No trânsito, não há respeito por ninguém, não. E hoje está mais complicado pois é preciso prestar bem atenção nas ruas", declara ele, que nunca chegou a ser xingado.

"Mas os motoristas buzinam para os da frente, que a gente vende o jornal. As pessoas estão muito afobadas, apressadas, querendo fazer as coisas em cima da hora; aí causam acidentes", disse. “As vias são pequenas, têm carros demais nas ruas”, declara Sandro, sem saber medir quantos quilômetros anda diariamente.

De bike

Andar de carro para o músico Albenízio Júnior, 36, só se for pra levar o casal de filhos para algum lugar. Fora isso, o seu veículo é uma bike que o transporta do bairro de Adrianópolis, na Zona Centro-Sul, até locais como o Centro. Ele tinha o costume de andar de bicicleta na infância e parte da adolescência, e resgatou a prática desde o ano passado.

"Ao voltar a andar de bike vi o quanto eu havia perdido de tempo. É muito bom andar de bicicleta. No Carnaval eu consegui minha atual e pra onde eu vou é com a bike, como para o shopping, estúdio de gravação, etc. Só ando de carro se tiver com meus filhos, a Maria Eduarda, de 11 anos, e o Antony, de 3”, explica ele, baixista e vocalista da banda Os Playmobils, um dos destaques da cena roqueira manauense.


O músico Albenízio Júnior é crítico do caótico trânsito da cidade de Manaus: ele redescobriu a bike há alguns meses / Foto: Junio Matos/Freelancer 

Ele reclama da inexistência de bicicletários e de faixas e ciclofaixas na cidade. "A cidade de Rio Branco tem mais de 100 quilômetros de ciclofaixas, enquanto que Manaus possui só 37 km sendo que, no Boulevard ÁLvaro Maia, existe uma calçada pintada de vermelho onde você não sabe se é pra andar pedestre ou ciclista. As ruas têm buracos, mondrongos", questiona ele.

Albenízio diz que, por conta do trânsito ser perigoso, não anda com fone de ouvido quando está guiando a bike."Os carros estão dominando tudo. Há um inchaço, uma bagunça. Só uma reeducação para ter um trânsito e pessoas melhores na nossa cidade", diz o músico.

Skate

Edmundo Henriques Souza Cabral, 19, é o que podemos chamar de pessoa que vive o verdadeiro life style: ele só se locomove via skate da casa, no Aleixo, para o trabalho, no Japiim, e outros destinos.

"Ando de skate desde a minha infância no Novo Aleixo, após ganhar um do meu tio por passar do ano. Foi amor à primeira vista. Não havia pistas de skate lá na época e eu me transportava até o Mutirão pra andar, em 2 quilômetros e meio mais ou menos. Hoje, do Aleixo pro Japiim, eu gasto uns 20 minutos, no Sol quente e em meio aos carros", declara Edmundo.

Por sua vez, ele classifica o trânsito como violento, nocivo e perigoso, com as pessoas sendo loucas com um carro na mão. "A gente faz o que da pra se sentir seguro, com cuidado e atenção redobrada. Buzinam e já ‘tiraram fino’ de mim direto, mas nunca sofri acidente, felizmente. A mobilidade urbana é horrível, e as calçadas são péssimas, o que me obrigam a andar no asfalto e competir pelo espaço, que é complicado", declara ele.

Pra Edmundo Cabral, a escolha significa, sobretudo, liberdade. "Me sinto mais livre, life style. Me sinto bem com o que eu sou de verdade, sem me importar com o que pensa a sociedade, que me coloca em uma posição marginalizada,sempre. O vento na cara, com o Sol quente, é muito bom, me faz sentir vivo, de verdade", completou.

Com os próprios pés

A dona de casa Eurenice Xavier Melo, de 85 anos de idade, é daquelas pessoas que parecem ter saído da Manaus de antigamente: ela anda a pé para vários locais da cidade. Se vai para o ponto de ônibus, e o coletivo demora, ela segue a pé para o seu destino, que envolve o conjunto residencial no qual mora, o Jardim Paulista, na Zona Sul, com sentido a locais como o Manauara Shopping - perfazendo cerca de 20 minutos de caminhada - ou a Fundação Allan Kardec, na avenida Mário Ipiranga.


Dona Eurenice Xavier Melo gosta de andar e nem sempre espera por ônibus ou carro / Foto: Euzivaldo Queiroz

“Sempre gostei de andar a pé, pois aprendi com meu pai, Francisco Batista Xavier. Ele andava muito a pé e de canoa, pois na época morávamos em Educandos e atravessávamos o rio com catraia e depois seguiamos andando para locais como as escolas Santa Terezinha e Santa Dorotéia.

Para ela, o “trânsito de Manaus é péssimo e as pessoas não têm respeito; felizmente graças a Deus nunca sofri um acidente caminhando”.

“Não sinto nenhuma dor, nem de cabeça, nem de articulações. Adoro andar. Dizem que eu tenho rodinhas nos pés”, brinca ela, que dá banho de vitalidade. Sempre usando os pés como próprio veículo.

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.