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Manaus
ESTIMULANDO O SENSO CRÍTICO

Comerciante transforma vitrine de loja em mural de notícias para pedestres

O comerciante Geraldo Pires divulga notícias que causam impacto na sociedade e estimulam o senso crítico 26/03/2017 às 05:00
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O comerciante usa a fachada da antiga de uma antiga loja dele há 12 anos afixar as manchetes. (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Álik Menezes Manaus

Nem mesmo a pessoa mais desatenta consegue passar pela avenida Getúlio Vargas, no Centro, e não ser atraída pelas manchetes de jornais que formam um grande painel na fachada da propriedade do comerciante Geraldo Pires, 65, popularmente conhecido como “Cambalhota”. 

Carismático, brincalhão, mas também muito determinado em divulgar notícias que causam impacto na sociedade e estimulam o senso crítico, além de estimular o hábito da leitura, Cambalhota usa, há mais de 12 anos a fachada da antiga loja dele para fixar manchetes de jornais locais, principalmente A CRÍTICA. “Tive essa ideia porque me sinto vergonha desses homens que dirigem nosso País e vejo que essa é uma forma de estimular a sociedade a pensar, trazendo para um local como o Centro essa discussão”, disse.

Geraldo Cambalhota contou que, logo no início, muitas pessoas pensavam que a iniciativa era apenas para cobrir a fachada da loja e muitas até rasgavam ou arrancavam os jornais, sem sequer ler as notícias. “Eles não sabiam o real motivo e tinham essas atitudes, mas eu comecei a explicar para os moradores e com o passar dos anos tudo mudou”, contou. 

Segundo ele, hoje as pessoas compreenderam o protesto, respeitam e até elogiam a decisão. O grande mural se tornou uma fonte de informação até para os mais desatentos ou apressados: sempre tem alguém parando para ler e se informar ali, na calçada, sobre as notícias da cidade e do País. “As pessoas sentem o impacto dessas notícias”, disse. 

Ao longo dos 30 anos em que mantém o comércio funcionando, hoje bem mais simples do que antes, Cambalhota conquistou a amizade de vários comerciantes  e vendedores. Além de parar para ler as reportagens, eles dedicam um tempinho, mesmo com a correria do dia, para conversar com ele. “É um laço de amizade que se fez com o tempo”, conta ele. 

E não é só com os velhos amigos que Geraldo mantém laços de amizade. Ele também tem vários amigos jovens, muitos estudantes atraídos pelo mural de notícias ou pelos livros expostos na calçada, e que se tornam clientes. E, em nome da amizade e do incentivo à leitura, Geraldo vende a esses estudantes livros a preço de “banana”. “Muitos amigos me dão ou vendem livros em ótimo estado e eu vendo bem baratinho. Livros que são mais caros, mas na base da amizade a gente consegue ajudar esses estudantes, que serão o futuro do País. Esse valor é praticamente uma taxa para que eu consiga manter a minha loja e continuar fazendo esse serviço”, pontuou.

Pedestres aprovam iniciativa

O estudante do 3° ano do ensino médio João Lucas Vieira, 17, contou que acha curiosa a atitude de Geraldo  e revelou que, sempre que pode, para na calçada e se atualiza no “mural de notícias”. “O engraçado é que ele seleciona as reportagens que mais geram impacto. Por isso a gente não consegue passar e não olhar, não se interessar”, contou. 

O auxiliar de escritório Kaio Souza, 25, também disse que admira a atitude do comerciante e, sempre que pode, lê as manchetes. “É uma atitude muito louvável. Ele faz a parte dele, ajuda as pessoas a serem mais críticas”,  disse.

O vendedor Carlos Almeida Silva, 29, natural de São Paulo, disse que conheceu a história de Geraldo há alguns anos... e não foi em Manaus.
“Eu estava no Rio de Janeiro, lendo reportagens num site de notícias. Uma delas contava a história dele, achei bem interessante e hoje passo por aqui todos os dias antes de ir para o trabalho. Sempre lembro disso”.

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