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BALANÇO

Em seis meses, Amazonas registrou mais de 6 mil casos de violência doméstica

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, número é menor comparado ao ano passado, mas índices ainda são considerados altos 02/10/2017 às 05:00
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Independente da posição social, vítimas devem buscar ajuda em caso de violência (Foto: Antônio Lima)
Kelly Melo Manaus (AM)

Foram dez anos de convivência, mas foi no último ano de relacionamento que o amor se transformou em medo, agressões e ameaças de morte. Essa é a história da administradora Cristina Almeida*, 41, que precisou ser forte para denunciar o ex-companheiro, que por causa do vício das drogas, a submetia a sessões de pancadas e maus-tratos. Assim como ela, mais de seis mil mulheres foram vítimas de violência doméstica, independente de classe social, nos primeiros seis meses do ano, em Manaus, uma média de um novo caso a cada 57 minutos. Mas para cada caso registrado, cinco deixam de ser notificados à polícia. 

A vida de Cristina mudou há dois anos quando ela  decidiu pôr um ponto final nas agressões e denunciar o caso à polícia. Antes disso, ela sentia vergonha e medo de contar à família o que vinha acontecendo dentro da casa dela. “Em senti vergonha de falar no começo, mas hoje as mulheres não podem se calar e aceitar esse tipo de situação. A violência acontece em todas as classes sociais e é preciso ter coragem para denunciar e se livrar dessa situação”, contou.

Segundo a administradora, várias vezes ela foi agredida pelo ex-companheiro, principalmente quando ele estava sob efeito das drogas. A situação piorou quando ele começou a agredir também as duas filhas, que na época tinham 10 e 4 anos. “Ele sempre inventava um motivo para me bater. A desculpa era sempre o ciúme ou porque ele queria dinheiro para comprar droga. Aí ele começou a bater nas crianças também e eu não podia aceitar isso. Foi o estopim”, relatou. Muitas vezes, Cristina chegou a ficar com de hematomas pelo corpo. Após a denúncia, ele foi preso.

Dados da Centro Estadual de Referência e Apoio à Mulher (Cream) mostram que 42% das vítimas atendidas possuem emprego formal ou informal e 19% delas possuem nível superior completo ou incompleto.

Subnotificação

De acordo com a Secretária Executiva de Políticas para as Mulheres (SEPM), Keyth Bentes, a violência psicológica é a raiz “de todos os males”. Por isso é importante que qualquer tipo de violência contra a mulher seja combatida dentro e fora de casa.  “A violência começa quando o homem agride com palavras ou viola os direitos dessa mulher. Mas muitas delas ainda têm medo de denunciar, principalmente as que têm poder aquisitivo maior. Por isso, nós realizamos campanhas de caráter permanente porque acreditamos que só com educação esse cenário pode mudar”, afirmou.

Conforme Bentes, para cada caso denunciado, existem quatro ou cinco casos que não foram notificados. “O que a gente observa é que as ocorrências de violência são maiores do que os casos que realmente chegam até nós. Muitas dessas vítimas são mulheres que possuem uma certa posição social e que por isso não denunciam, não buscam ajuda. E é aí que mora o perigo”, comentou.

Denúncia

A delegada da Delegacia Especializada em Combate a crimes contra  Mulher (DECCM) Anexo, Edilene Mafra, explicou que as mulheres carentes são as que mais registram as denúncias por não terem mais o que perder.  Apesar disso, 10% das vítimas que buscam os serviços da Especializada são de mulheres de classe média e alta.  “Infelizmente, a vergonha impede que essas mulheres denunciem os agressores porque elas pensam que têm um nome a zelar. É importante que essas mulheres denunciem sim porque esses casos podem influenciar outras vítimas a pedir socorro”, afirmou a delegada da Mulher.

Apoio

No Cream, no Educandos, na Zona Sul, as vítimas recebem atendimento  e acompanhamento especializado. De acordo com a coordenadora, Nadyma Cavalcante, mulheres E filhos são acompanhados por psicólogos e assistentes sociais e participam de palestras e cursos.

Registros elevados

Dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (SSP-AM) mostram que houve uma pequena redução nos registros de violência doméstica no primeiro semestre deste ano em comparação com 2016. No ano passado foram registrados 6.564 casos de violência doméstica contra 6.135 em 2017.  Mesmo assim, os números ainda são considerados altos. “Nós queríamos que não houvesse nenhum caso. Mas, infelizmente, eles existem. O papel da SEPM é de articular políticas de atenção à mulher e isso tem sido feito, tanto na capital quanto no interior”, destacou a secretária Executiva de Políticas para as Mulheres, Keyth Bentes.

Além dos casos de violência física e psicológica, a secretária também alertou para os casos de feminicídio registrados nos seis primeiros meses deste ano: 12 no total. “Esse número também é assustador e o que nós percebemos é que a maioria dos casos não foram denunciados. Quando não há a denúncia, essa violência pode acabar em morte”, afirmou ela.

Para a delegada da Delegacia Especializada de Combate a crimes contra a Mulher (DECCM), Edilene Mafra, o problema agrava quando as vítimas não se reconhecem em um ambiente violento. “Recentemente, recebemos uma denúncia de uma mulher que apanhou tanto do marido, que ele chegou a tirar a prótese de silicone dela. Mas como ele optou por pagar uma nova cirurgia plástica, ela não quis levar adiante. Negou que tivesse apanhado. Nós tentamos ajudá-la, mas ela não quis”, disse.

A empresária Marina de Oliveira*, 38, decidiu não fazer mais parte dessa estatística. Por mais de 20 anos ela foi agredida pelo ex-marido e há quatro ela tomou a decisão que mudou complemente a sua. “Eu sofri muito. Apanhei diversas vezes, tive que viver longe da minha família, mas chegou uma hora que eu não suportei mais toda aquela humilhação e procurei ajuda na delegacia e ele foi obrigado a sair de casa. Eu venci. Hoje tenho o meu próprio negócio e voltei a viver”, afirmou ela.

*Nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas

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