Terça-feira, 20 de Outubro de 2020
LEVANTAMENTO

Em sete anos, número de áreas de risco mais que dobrou em Manaus

Estudo do Serviço Geológico do Brasil mostra que cerca de 189 mil  pessoas vivem em casas vulneráveis a deslizamentos e alagações



JUNIO_1C58C341-D10C-4C26-9C25-43B8364E5472.JPG Foto: Junio Matos
26/11/2019 às 07:26

Nos últimos sete anos, o número de áreas de risco mais que dobrou em Manaus, segundo levantamento do Serviço Geológico do Brasil-CPRM, divulgado ontem. O estudo mostra que em 2019 a área urbana da cidade possui 1,6 mil setores de risco, o que representa 52,5 mil imóveis instalados nessas localidades e mais de 189 mil pessoas vivendo nessas condições. O número de pessoas que moram em áreas de risco alto ou muito alto chega a 66,1 mil.

Em 2012, ano do último levantamento do órgão, o número de setores nessas condições era de 734, com pouco mais de 35 mil residências construídas nesses pontos. O crescimento foi de 117% desde então. O estudo foi apresentado aos representantes das defesas civis do Estado e Município na tarde de ontem.



O aumento, de acordo com os especialistas, se deu principalmente em virtude do crescimento desordenado da cidade. A maior parte das áreas de risco está nas zonas Lestes e Norte de Manaus.

“As invasões influenciaram nesse aumento, sim.  Esse novo estudo mostra que, em consequência do aumento populacional na cidade, teve um aumento nas áreas de risco. Pessoas que moram perto de barrancos, onde tem o risco de deslizamento e pessoas que moram em igarapés e sofrem com alagamentos, inundações e enxurradas. Sendo que as zonas Norte e Leste são as mais problemáticas, em virtude de ficarem nas áreas mais altas da cidade”, disse Gilmar Honorato, pesquisador em geociência e integrante da equipe de pesquisa do CPRM.

Ele explicou  que, diferentemente de 2012, a tecnologia ajudou bastante nesse novo mapeamento, o que possibilitou uma abrangência maior de áreas monitoradas.

“Tivemos o auxilio da tecnologia, o que possibilitou que nos tivéssemos muito mais trabalho, mais resultados em menos pouco tempo. Antes, a gente trabalhava com mapas impressos, íamos para campo e delimitávamos as áreas de risco no papel e passávamos para o setor onde eles faziam tudo no computador. Agora, não: usamos a tecnologia. Então, por isso a gente conseguiu mapear um número maior de áreas de ricos. Foram 1.600 áreas sendo que boa parte delas, menos de 700, são áreas de alto risco”, detalhou Honorato.

Dessa vez, o estudo considerou  todas as áreas de potencial risco geológico, desde que habitadas, mesmo que não tivesse registro de ocorrência de eventos cadastrados pelas defesas civis. 

“Boa parte desses locais ficam perto de igarapés,  áreas íngremes. Quando essas áreas são ocupadas geram perigo a população. Então, esse mapeamento é justamente para evitar que isso aconteça, para passar as informações para a Defesa Civil, para a Prefeitura de Manaus, para elas evitarem que essas áreas sejam mal ocupadas e que, as com restrição, fiquem sem ocupação”, disse o também pesquisador Elton Andretta , integrante da equipe de pesquisa do CPRM.

O estudo é apresentado na forma de 36 mapas de setorização de riscos espalhados por todas as zonas da cidade. A pesquisa aponta ainda  que,  dos 52.571 imóveis localizados nessas áreas, 634 deles estão na escala de grau R3 (risco alto) e R4 (risco muito alto).   

Por pouco

No último dia 19, o filho mais velho de Zirei da Silva, 27, anos escapou por pouco da morte depois que parte da casa da família desabou sobre ele durante um temporal. O menino de 10 anos de idade teve apenas ferimentos leves. Para A CRÍTICA, a mulher contou que por volta de 1h estava dormindo com o marido e o filho de dois anos em um quarto, enquanto o filho maior dormia em outro quatro que fica na parte de trás.

Zirei disse que foi acordada por um estrondo e que o seu marido correu para ver o que estava acontecendo e já encontrou o quarto do filho e a maior parte da cozinha desmoronada. A criança estava atordoada, chorando e foi resgatada pelo pai. O menino apresentava um ferimento leve na cabeça.

Toda a estrutura da casa, localizada no beco Domilson, bairro Fazendinha, Zona Norte, ficou comprometida e com rachaduras pela parede.  No mesmo beco outras casas estão ameaçadas de desabar. Quando ocorre chuva forte, os moradores ficam em estado de alerta. A força da água causa o deslizamento de um barranco que há nos fundos. Há casas que são invadidas pela lama.

Trabalho subsidiará ações da Defesa Civil

O trabalho foi feito com o objetivo de atualizar o último mapeamento das áreas de risco geológico de Manaus, realizado em 2012 pelo CPRM. Além de apresentar dados novos, o estudo concluiu que a maioria dos problemas de risco identificados no levantamento anterior ainda persiste. Por isso as recomendações feitas, aos órgãos envolvidos, àquela época, no relatório final do projeto, são válidas até hoje.

“A gente já tinha o levantamento de 2012 e em cima disso fomos para campo. E nesse trabalho de campo foi que foi feito todo esse trabalho do CPRM, já que o levantamento das áreas de risco é feito com integração do CPRM e Defesa Civil. A Defesa Civil já trabalha a parte de monitoramento dessas áreas de risco da cidade de Manaus, então em cima desses dados novos vamos nos debruçar nesse trabalho para que a gente possa definir algumas diretrizes e em cima disso continuar o monitoramento e o trabalho de prevenção das áreas vulneráveis na cidade”, declarou o secretário-executivo da Defesa Civil municipal, Cláudio Belém.

Já o chefe do setor de capacitação da Defesa Civil estadual, tenente Santos Brito, disse que o  levantamento também vai ajudar no trabalho de ação conjunta feito por todas as esferas, assim como as ações executadas em áreas afetadas pela subida dos rios.

“Esse mapeamento vai ajudar e muito, porque sabemos que é um ciclo que todo ano acontece e fica mais grave por conta da ocupação desordenada. Nós [Defesa Civil] somos um sistema, então esse trabalho vai dar subsídio para nós, justamente no planejamento tanto do Estado como do Município, para podermos trabalhar melhor a parte preventiva, assim como na resposta de um possível desastre. Porque passaremos a ter conhecimento dessas áreas catalogadas. Então, poderemos fazer um trabalho mais eficaz quando acontecer algo”, afirmou.

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Repórter de Cidades
Formada em 2010 pela Uninorte, é pós-graduada em Assessoria de Imprensa e Mídias Digitais pela Faculdade Boas Novas. Repórter de Cidades em A Crítica desde 2018.

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