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Manaus
tempos de chuva

Quem mora nas áreas de risco troca as noites de sono por madrugadas em claro

Segundo o Sistema de Proteção da Amazônia, são mais de 740 áreas de risco espalhadas por toda a cidade 31/03/2016 às 03:40 - Atualizado em 31/03/2016 às 17:51
Show desaba
Cena comum na Zona Leste: erosões ameaçam os imóveis (Antônio Lima)
Marcela Moraes Manaus (AM)

“Depois que eu escutei o barulho, abri a porta de casa e o barro estava ‘arriando’. Chamei pela vizinha porque a casa dela poderia ter sido atingida. Depois que começa a chover, não conseguimos mais dormir, preocupadas com o que possa acontecer. Ela tem crianças em casa, eu tenho meu casal de filhos... é difícil conviver com o medo”, desabafou a dona de casa Francilene Almeida, 33, após passar mais uma madrugada em claro, se preparando para o caso de ter que deixar a casa dela às pressas.

Por volta das 4h de ontem, por pouco ela e a vizinha, a doméstica Zilma Duarte, 57, não tiveram as casas “engolidas” pelo barranco que fica ao lado das residências, na rua Amazonas, bairro Jorge Teixeira, Zona Leste, e que desabou durante a chuva.

Zilma, que mora há 18 anos na mesma casa com toda a família -  oito pessoas, sendo duas crianças - acompanha, ao longo desse tempo, a corrosão lenta do barranco, que fica bem na direção do quarto onde dormem seus dois netos. “Ficamos preocupados toda vez que chove, porque a impressão que temos é que a qualquer momento todo esse barranco vai desmoronar e engolir nossas casas. Nessa época de chuva mal conseguimos pregar o olho, com medo que isso aconteça durante a noite”, relatou.

Mas trocar as noites de sono por madrugadas em claro não é um “privilégio” de Zilma e Francilene: quase todos os vizinhos delas convivem com o medo por morarem em áreas de risco espalhadas pelo Jorge Teixeira. Em alguns casos, o medo é que o trauma se repita, como conta Janete da Silva, 31, moradora da rua Zero, no mesmo bairro.  Há quatro meses, ela teve a casa destruída pelo deslizamento de um barranco, que também pôs abaixo o muro do vizinho. “O muro do vizinho, que mora na parte de cima do barranco, desabou e destruiu a minha casa. Tivemos que sair de lá e agora moramos de aluguel”, lamentou.

740 pontos

Apesar de ser um dos bairros da cidade que mais concentrou ocorrências de deslizamentos e alagações entre janeiro e março, o Jorge Teixeira não é o único onde a população vive em áreas de risco. De acordo com o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam), são mais de 740 áreas de risco espalhadas por todas as zonas da cidade.

Francilene sabe bem disso. Ela morava em uma área de risco no bairro da Glória, Zona Oeste e, removida pelo poder público, foi indenizada e acabou comprando uma casa nova em outra área de risco, desta vez no Jorge Teixeira. Mas sem saber, garante ela.

“Quando nos mudamos não tinha risco de deslizamento. Mas com o passar do tempo e as chuvas, o problema surgiu e agora somos obrigados a conviver com ele”, desabafa.

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