Quarta-feira, 08 de Abril de 2020
PERFIL

Emília Ferraz: a primeira mulher à frente da Polícia Civil do Amazonas

Em entrevista para o A Crítica, a primeira delegada-geral da Polícia Civil do Amazonas, Emília Ferraz, revelou como irá atuar no combate ao crime organizado, e também falou sobre as prioridades da gestão e como foi feito o convite para assumir a liderança da instituição policial



DIVULGA__O_EM_LIA_FERRAZ_013D1A91-8076-4515-8D7A-336D9E61710B.JPG Foto: Divulgação
22/02/2020 às 18:44

Emília Ferraz Carvalho Moreira, 45 anos, é a primeira mulher a exercer o cargo de delegada geral da Polícia Civil do Amazonas. Ela, que sempre se destacou profissionalmente e no âmbito da polícia já conseguiu ser a primeira mulher em outras funções, é apaixonada pelo que faz. 

Durante a entrevista repetiu varias vezes que não faria mais nada no mundo do que ser delegada de polícia. Ferraz foi a 6ª colocada no concurso para delegados de polícia de 2001, e já começou como titular do 18º Distrito Integrado de Polícia (Dip). No seu segundo dia como delegada geral, Emília Ferraz falou para A CRÍTICA sobre os seus novos desafios, e projetos que serão traçados depois que tomar conhecimento da situação em que se encontra hoje a instituição que vai comandar.



Como foi recebido o convite para comandar a Polícia Civil do Amazonas e, principalmente pelo fato de ser a primeira mulher a exercer esse cargo aqui no Estado?

Eu fiquei surpreendida, a final de contas eu tive uma trajetória dentro da polícia e eu não imaginava que isso ia acontecer. Fui procurada pelo secretário de segurança, pessoa que eu deposito muita confiança, trabalhamos juntos na transição de governo e a forma com que ele conversou comigo dizendo vamos melhorar, fazer, vamos dar um retorno, me encheu de confiança. Quando conversei com o governador Wilson Lima ele me mostrou que quer dar o melhor para que a população  se sinta segura.
 
No seu segundo dia de gestão, já dá para dizer por onde você vai começar e quais serão as suas prioridades?

Sim. Sem dúvidas vou começar, ou melhor, já comecei visitando todas as delegacias, conversando com os delegados. Vou de Dip em Dip levar a ideia que eu tenho de segurança para cada delegado, trabalhar de forma integrada. A ideia compartilhada é integrar mais ainda a população com as delegacias e as delegacias entre si. Porque segurança se faz assim com presença e com conversas. Todas serão visitadas é importante ouvir quem está na atividade fim. Pra mim é importante ver todos os Dips atuando cada um no seu espaço e os departamentos maiores trabalhando com casos maiores.

Que ideias você tem para combater e reprimir o crime, principalmente o crime organizado?

O governador Wilson Lima lançou uma estratégia de segurança pública, vamos seguir esta estratégia. Nós estamos vivendo um momento único na segurança do Estado, não só porque uma mulher assumiu a DG, mas porque antes não se via tanta integração das forças de segurança, Polícia Civil, Militar, Corpo de Bombeiros e Detran trabalhando juntos. Vejo isso com bons olhos. Quando aceitei esse convite eu só pensei uma coisa trabalho, trabalho e trabalho essa palavra ficava na minha cabeça.
Neste ano o índice de homicídio está sendo considerado alto. 

A polícia atribui as mortes à rivalidade entre facções criminosas que agem no Estado disputando espaço e o controle do tráfico de droga. Como você pretende trabalhar essa situação?

Eu me considero uma pessoa de sorte. Assumi a Delegacia Geral em um momento de trégua. Ficamos mais de 72 horas sem homicídio e eu costumo dizer que o povo é pacífico. Fizemos um trabalho no gabinete de crise formado para cuidar dessa situação e foi um trabalho eficiente. Atribuo essa trégua ao trabalho que está sendo feito no gabinete de crise que é eficiente. Para reprimir a ação de criminosos é com polícia nas ruas é conversando, é entrando nos locais, é fechando, porque é esse trabalho que a população vê e é assim que as pessoas se intimidam de continuar praticando crimes. Estamos supridos de viaturas, temos mais viaturas descaracterizadas e vamos poder fazer mais investigação e vamos conseguir dar mais retorno a população. Todo investimento que está sendo feito pelo governo terá reflexo daqui a cinco meses.

O tráfico de droga no Estado é apontado como a principal motivação para que os demais crimes aconteçam como as mortes e os assaltos principalmente. Que projetos a delegada geral tem para combater esta modalidade de crime?

O nosso problema é a tríplice fronteira que é por onde entram as maiores quantidades de entorpecentes. Nós temos um problema muito grave que é um rio mar. É uma estrada sem ponto para sair e sem ponto de chegar. Imagine como é monitorar um rio deste tamanho. O governador do Estado foi muito sensível de ter comprado duas lanchas blindadas, que é um feito que talvez a população não tenha conhecimento da importância. Antes respondíamos as balas dos tiroteios nos rios com lanchas abertas. Agora temos lanchas equipadas com armas pesadas vai ser muito bom e útil para o combate ao tráfico de droga. Era um sonho meu imagina e a população vai ver o resultado nisso. Em breve será entregue a base Arpão, que é um ponto de fiscalização de embarcações que bem da fronteira pelo rio Solimões, e vai auxiliar nas ações de combate e vamos trabalhar com a integração com o Exercito e Polícia Federal. São muitas ações.

O governador Wilson Lima anunciou a realização de concurso público para a Polícia Civil. Qual é o déficit hoje de delegados?

Há necessidade de novos delegados e outros servidores, porque muitos se aposentaram, teve mortes e inicialmente vamos trabalhar com que temos utilizando o potencial de cada um.

Falando um pouco da sua experiência profissional, como foi no começo da carreira como delegada?

Já como titular do 18º Distrito Policial, no bairro Santa Etelvina quando o fenômeno “galera” era um dos crimes que se sobressaía nos casos policiais. A titularidade é mérito dos que ficaram entre os 10º primeiros colocados no concurso (ela ficou em 6º lugar). O que fez me encantar pela minha carreira foi a ausência de assistência, eram desassistidas, havia uma carência muito grande de segurança. Estava muito nova e com muita vontade de trabalhar.  Eu me encontrava semanalmente com os líderes comunitários e a gente desenvolveu um trabalho tão bom que quando eu precisei entrar em licença maternidade, eles colocaram uns cinco carros de som em frente à delegacia pedindo, pelo amor de Deus para eu não sair. Foi aí que eu descobri que eu não poderia fazer outra coisa se não ser delegada de polícia. 

Que casos que você atuou que mais lhe impactou?

Sem dúvidas, o caso da morte da menina Tayla Vanessa, em 2010, uma adolescente de 13 anos de idade que foi estuprada e morta no Adrianópolis. Nesse caso prendemos o assassino e me senti realizada como profissional. O massacre de 2017 eu vi como a banalização da vida e isso me impressionou. Eu fazia parte da força tarefa. Fizemos um relatório final de 320 laudas. Fomos procurados a época por uns cinco jornalistas querendo publicar nosso relatório como livro. Tenho a honra de dizer que estava tão bem feito que nós tivemos que mandar em mídia para o Conselho Nacional de Justiça e fomos muito elogiados. 

Como mulher, você se acha vaidosa? E o que você não sai de casa sem?

Sou sim, já fui mais. Eu não saio de casa sem batom. Acho que um batom é necessário para toda mulher.

O que não pode faltar na bolsa da delegada geral Emília Ferraz?

(Risos) o batom, protetor solar, a minha identidade de delegada e a minha pistola.

Você atira bem? Já participou de algum tiroteio e como foi?

Eu acho que atiro bem. Já participei de tiroteios, sim, é tenso. Na hora você não pensa, não passa nada na tua cabeça, é impressionante, o teu corpo reage, teu coração palpita você sequer tem noção do perigo e depois olha e diz estive ali.

Repórter de A Crítica

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