Domingo, 16 de Maio de 2021
ENTREVISTA

Enfrentar a insegurança alimentar no Amazonas e os desafios da cheia serão prioridade na Seas

Após se licenciar do mandato de deputada estadual para assumir a Assistência Social do Governo do Estado, Alessandra Campelo fala das prioridades a serem enfrentadas este ano na pasta



ALESSANDRA1_8F6F6370-14F5-4D66-B7B8-50A233F3024A.JPG (Foto: Junio Matos)
18/04/2021 às 15:55

A crise provocada pela pandemia de Covid-19 recolocou na pauta política  um problema que vinha sendo debelado pelos  programas sociais implantados no país, como o Bolsa Família, a fome. Com mais de 14,2% dos amazonenses desempregados, as ações de assistência social nunca tiveram tamanha urgência. 

Um dos desafios da nova secretária estadual de Assistência Social, a deputada licenciada Alessandra Campelo (MDB) é justamente o enfrentamento da insegurança alimentar. Na entrevista abaixo, a nova titular da Seas fala sobre os projetos da pasta no auxílio às famílias em situação de vulnerabilidade e ressalta que,  a prioridade das suas ações, são as mulheres. 



 O Estado enfrenta uma série de problemas ampliados pela pandemia, mas qual a prioridade agora?

Temos muitas tarefas, mas a prioridade é a segurança alimentar. Nesse momento no estado e no país a prioridade é garantir a segurança alimentar das pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade social que a gente encontra diariamente. No meu trabalho temos encontrado famílias em uma situação de extrema pobreza. Vou ter um olhar muito dedicado a essas famílias mas em especial as mulheres porque eu acredito que a pobreza no Amazonas hoje tem uma cara e é a cara de uma mulher. Uma mulher pobre, que não tem um cônjuge, que é chefe de uma família e que sozinha sustenta os filhos, sem ajuda de um homem. Na verdade os dados do IBGE e do próprio CadÚnico do Bolsa Família chefiada apenas por um cônjuge em situação de extrema pobreza esses chefes são mulheres e isso mostra também que o número de mulheres em situação de extrema pobreza é muito maior do que o dos homens.

Por que dar prioridade às mulheres? 

A questão de acumular o trabalho doméstico, o cuidado com os filhos, o que faz muitas vezes que mulheres pobres não consigam ascender ao mercado de trabalho, a educação e isso vai criando uma eternização da pobreza porque aquilo vai sendo passado para os filhos que mantém essa perpetuação da situação de extrema pobreza. Eu vou olhar por todos, mas o olhar é mais dedicado as mulheres chefes de famílias pobres. 

Fora as questões emergenciais, quais pontos a sua gestão pretende focar? 

Essa questão da capacitação. A assistência social, eu entendo que ela é muito setorial. Você tem assistência social na educação, assistência social na produção rural, assistência social na saúde. Você tem assistência social em quase todas as áreas do governo. Eu acho que a gente tem mesmo um guarda chuva da assistência social do governo do estado que está em várias áreas. A gente vai trabalhar e o governador também pediu isso, para que nós fizéssemos trabalhos de capacitação voltados para as mulheres, mas que realmente poderíamos inserir essas mulheres no mercado de trabalho para garantir renda. Vamos trabalhar linhas de crédito especificas para as mulheres empreendedoras. Quando a gente faz um benefício, como houve agora o auxilio estadual, a determinação do governador é para que o beneficio dentro daquela família seja em especial no nome da mulher. Então a gente tenta de várias formas ajudar. Não é uma questão de privilegiar a mulher é ao contrario  privilegiar o gênero que esta sendo mais afetado pela pobreza e como a pobreza aumentou e as mulheres são maioria obviamente que um numero maior de mulheres é afetado do que o de homens. 

Quais as regiões do Amazonas mais preocupantes para a Seas no momento? 

 Nesse momento principalmente as cidades que  estão sendo afetadas pela enchente. Temos uma cheia que talvez seja a maior dos últimos 20 anos, nós saberemos ao final, mas ela tem tido números muito maiores do que nos últimos anos. Então tem muito mais famílias afetadas e me preocupa muito a situação das crianças, dos jovens e adolescentes dessas famílias que têm as suas casas inundadas. E que estão em uma situação de calamidade. No interior especificamente, mais até do que em Manaus, a insegurança alimentar é algo muito preocupante.

E como está a preparação para dar ajuda a essas localidades?

A gente não trabalha apenas com isso. Além da insegurança alimentar a gente, por exemplo, tem trabalhado em parceria com as prefeituras e vai ser uma prioridade para gente em relação à capacitação dos servidores da assistência social que trabalham nos Cras e nos Creas porque esses trabalhadores que fazem aumentar a captação de recursos federais como o Criança Feliz que trabalha de forma multidisciplinar a questão da criança em situação de vulnerabilidade social; como o Bolsa Família que precisa ser cadastrado e muitas vezes você precisa fazer uma busca ativa então você tem todo um sistema de proteção social do governo federal do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) que precisa ser acessado através de sistemas. Então você tem prefeitos novos que  assumiram recentemente e estamos trabalhando na capacitação de toda essa rede de proteção de assistência social. 

Quais ações estão sendo planejadas pela Seas a partir da sua chegada a pasta? 

Estamos nos preparando para um período pós-vacinação que eu espero que chegue logo onde nós queremos fortalecer a convivência das pessoas nos centros de convivência da família, centros de convivência do idoso. Temos um olhar carinhoso para  a pessoa idosa. Essa questão da capacitação, de colocar as mulheres no mercado de trabalho, temos o exemplo do Cetam, na questão de abrir crédito, por exemplo para as mulheres temos a Afeam. E junto com tudo isso temos o parceiro irmão da Seas que é o Fundo de Promoção Social.

 A sua vinda do Legislativo soma de que forma às ações da Seas?

Eu vim do Executivo, fui para o Legislativo e estou de novo no Executivo. Então eu tenho os dois olhares. Por ter sido do Executivo, eu sei que a minha participação no Legislativo teve um diferencial por isso, mas agora voltando para o Executivo eu consigo entender inclusive melhor como funciona toda essa parte legal da elaboração da minha tarefa aqui do ponto de vista legal e não só do ponto de vista prático. Eu acho que abriu horizontes o fato de eu ter ficado todo esse tempo na Assembleia. E também me dá uma mobilidade política o fato de eu ser parlamentar embora licenciada, me dá uma mobilidade política junto aos deputados, junto aos prefeitos.

 De qual forma participam os municípios nessa assistência?

A gente já iniciou repasses fundo a fundo, co-financiamentos de programas. Então a gente repassa recursos às vezes para ajudar a mobiliar e modernizar um Cras ou um Creas. Cras faz o atendimento à proteção básica. O Creas já trabalha mais na média complexidade, em tarefas mais complexas  e a gente trabalha ajudando na manutenção, ajudando na manutenção de programas, na modernização, enviando recursos fundo a fundo para a aquisição de cestas básicas por exemplo, para que as pessoas cadastradas no Cras por exemplo possam receber esses recursos tem varias formas, tanto no apoio técnico quanto no apoio financeiro. 

Existem parcerias com outras entidades? 

Na assistência social você não faz nada sozinho. Para além das prefeituras a gente tem as OCS, as Organizações Sociais que trabalham no acolhimento muitas vezes dessas pessoas ou na abordagem. A gente tem vários abrigos, lares e vários projetos sociais que são dirigidos por Oscs e que são fomentado pelo governo do estado. Agora mesmo assim que eu cheguei estamos viabilizando os repasses de R$ 10 milhoes para OsCs a gente pretende no próximo edital atender mais oscs do interior do estado. Porque embora essas atendam alguns municípios são poucos porque está muito concentrado em  Manaus e nós queremos trabalhar também para que essas oscs possam ajudar as prefeituras. Seja com abrigos, com atendimento a dependentes químicos, a crianças órfãs de covid que a gente tem muitos hoje, seja no atendimento a mulheres, enfim, a gente quer trabalhar para de alguma forma a assistência social no interior do estado possa ter uma abrangência como a gente tem em Manaus e precisamos ajudar as oscs, as prefeituras a chegar nesse nível. Porque a osc chega em um lugar que talvez o governo nunca vá alcançar. 

A Seas tem orçamento para esses projetos?

Um grande parceiro orçamentário da Seas é o Fundo de Promoção Social que tem uma arrecadação própria para  todas as áreas sociais do estado. Temos o orçamento próprio da secretaria e a gente vai em busca do orçamento com o Ministério da Cidadania onde temos a Secretaria Executiva de Assistência Social e vamos buscar apoio junto aos parlamentares mas o próprio governo do Estado vai priorizar no ponto de vista orçamentário o atendimento às pessoas que mais precisam. Não tem como ajudar as pessoas mais pobres se você não tiver um foco na assistência social. 

Qual a importância do auxílio do estado nesse momento aos mais vulneráveis?

Acho que a pandemia fez o Brasil dar alguns passos para trás em várias aspectos. E isso, essa paralisação econômica, acabou levando muito mais famílias a uma situação que há dois anos não estavam em relação à questão econômica. Então o Estado brasileiro, não apenas o Estado do Amazonas, tem que dar dois passos atrás e entender a importância dessas pessoas que têm fome. As pessoas estão com fome, as pessoas precisam de comida, mas essas pessoas precisam também serem reinseridas no mercado de trabalho, mas você só reinsere alguém no mercado de trabalho se você melhora a qualidade econômica, então é todo um ciclo. Você tem que ensinar a pescar, mas enquanto não tiver peixe naquele rio as pessoas precisam também ser alimentadas. 

O que a senhora pretende deixar de ação concreta na Seas nesses próximos 8 meses que deve estar na pasta?

Estamos elaborando e vamos anunciar nos próximos dias alguns projetos e programas na área social.  Estou discutindo com o governador. A primeira dama vai ter um papel fundamental. A Dona Thayana tem sido uma peça importantíssima na assistência social do Estado de ações emergenciais que a gente está fazendo agora. Mas estamos pensando em uma assistência social que quer tornar essas pessoas que hoje dependem dessa ajuda independentes e que a gente possa ter assistência social para todos que dela precisam e quanto menos pessoas precisarem é melhor porque significa que a sociedade está melhor. 

E sobre as eleições no ano que vem?

Estou muito focada aqui na secretaria, mas eu pretendo no ano que vem voltar para o meu mandato. E possivelmente disputar uma reeleição. Mas eu acho que ainda é cedo para disputar uma reeleição, mas eu acho que o desenrolar da gestão pode dizer muita coisa lá na frente. 

Na sua opinião, a trégua que existe hoje entre  os deputados e o governo se deu  em virtude de quê?

Eu acho que foi muito uma reflexão de todos os lados  em relação ao momento. Eu acho que a segunda onda sensibilizou muito mais todo mundo. Acho que todo mundo enxergou que não adianta politizar. Politizaram tanto a segunda onda aqui no Amazonas que ficou parecendo para o Brasil que era uma incompetência e eles perderam dois valorosos meses do Brasil em que eles poderiam ter se preparado, entendendo que não era incompetência e sim uma nova variante muito mais potente e muito mais letal e hoje vemos o Brasil inteiro chorando o que nos choramos e até de forma mais grave. Eu acho que  essa segunda onda talvez tenha tocado um pouco o coração de muitos políticos para entenderem que a gente tem uma prioridade que é salvar a vida das pessoas seja do vírus, seja fome.

O afastamento de figuras que sempre entravam em embate na ALE como Josué Neto, a senhora e Joana Darc pode ter colaborado para isso?
 
Da minha parte eu sempre respondo ao que eu acho que está errado, seja do lado que for, então eu credito muito isso mesmo ao momento que a gente está vivendo. Acho que é um momento de muita dor para todo mundo. Acho que essa politização não leva a absolutamente nada. Não leva por exemplo a melhoria da vida  de ninguém esse embate político.

News giovanna 9abef9e4 902c 428b a7c8 c97314664fb7
Repórter
Repórter de A CRÍTICA. Sempre em busca de novos aprendizados que somente uma boa história pode trazer.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.