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Escolas, ruas e logradouros em Manaus têm nomes relacionados à ditadura militar

Datas e nomes de presidentes da República da época do regime militar intitulam instituições de ensino, ruas e até conjuntos habitacionais da capital 26/12/2015 às 11:26
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O regime militar foi época de censura, pouca liberdade e repressão
VINICIUS LEAL Manaus

A ditadura militar no Brasil durou um longo período. Foram 21 anos de supressão de liberdades, censura dos veículos de comunicação, prisões, torturas e assassinatos. Hoje, tendo se passado 30 anos após o fim do regime, diversos elementos dessa época ainda permanecem vivos e espalhados por todo o País, inclusive em Manaus.

São ruas, escolas e conjunto habitacionais da capital – e alguns exemplos no interior do Estado – que mantêm em seus nomes homenagens ao tempo da ditadura, a datas importantes dessa época e aos presidentes da República dos anos de chumbo.

A Comissão Nacional da Verdade, órgão que investiga violações de direitos humanos no País, recomendou que logradouros públicos que homenageiam personalidades ligadas ao regime militar sejam modificados. Em todo o País há exemplos de cidades que fizeram essa alteração, como em São Paulo, onde o famoso Elevado Costa e Silva passou a se chamar oficialmente de “Minhocão”.

Em Manaus, o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro a governar sob o regime, é campeão em receber homenagens: ele dá nome ao Centro Municipal de Educação Infatil (CMEI) que fica no CSU do Parque Dez, que não por coincidência fica também no chamado conjunto Castelo Branco, no bairro Parque Dez, Zona Centro-Sul.

Marechal do Exército, Castelo Branco governou de 1964 a 1967, e foi o responsável pelos primeiros atos institucionais de repressão militar. Ele também dá seu nome a uma escola estadual que fica entre a avenida São Jorge e a travessa Aderson de Menezes, no bairro São Jorge, na Zona Oeste da cidade, e nomeia mais cinco escolas estaduais no interior do Estado: em Envira, Ipixuna, Japurá, Manacapuru e Maués.


Fachada da Escola Estadual Presidente Castelo Branco, no bairro São Jorge. Foto: Winnetou Almeida

Ruas chamadas Castelo Branco ou Presidente Castelo Branco também existem nos bairros Compensa, São Jorge e Lírio do Vale, Zona Oeste, e também nos bairros Cachoeirinha e Colônia Oliveira Machado, na Zona Sul.

O segundo presidente da ditadura (1967-1969), o marechal Artur da Costa e Silva, também é bastante exaltado. Ele dá nome à avenida Presidente Costa e Silva, no bairro Raiz, Zona Sul – também conhecida como Silves – e a uma escola estadual no município de Anori, no interior do Estado. Também há ruas Costa e Silva nos bairros Santo Antônio e Lírio do Vale, Zona Oeste.

O terceiro presidente da ditadura, o general Emílio Garrastazu Médici, dá nome à rua Presidente Médici, no bairro da Compensa, Zona Oeste. O quarto presidente do regime, Ernesto Beckmann Geisel, não recebe nomes de ruas na capital, mas o quinto e último presidente, João Baptista de Oliveira Figueiredo, é homenageado com uma rua no bairro Tancredo Neves, na Zona Norte

Uma data importante na ditadura, o dia 31 de Março, dia do golpe militar que retirou João Goulart da presidência, é o nome de um conjunto que fica no bairro Japiim, na Zona Sul da cidade, e também nome de uma rua no bairro Betânia, também na Zona Sul.

Em São Paulo, o Elevado Costa e Silva. Foto: Marcelo Camargo/ABr

O município de Presidente Figueiredo, que fica a cerca de 107 quilômetros de Manaus, mesmo fazendo referência parecida ao presidente da ditadura, faz na verdade uma homenagem a João Figueiredo, o primeiro presidente da província do Amazonas no tempo do império, do período colonial imperial.

Alteração de nomes

Na Câmara Municipal de Manaus não existe nenhum projeto de lei com objetivo de modificiar nomes de ruas e outros logradouros da capital que sejam nomeados com datas ou nomes de presidentes da ditadura. A nível estadual, também é inexistente na Assembleia Legislativa (ALE-AM) algum PL para fazer essas alterações.

O deputado José Ricardo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALE-AM, considera importante a alteração dos nomes dos logradouros, mas ressalta que a mudança causaria transtornos, no caso das ruas. “Entendo que é interessante que se retire nomes de pessoas ligadas a torturas, mortes de pessoas. Não se pode ficar homenageando. Sou a favor da alteração. Tem que valorizar nomes de pessoas que lutaram pela liberdade e pela democracia”, disse.

As ruas da cidade

Em Manaus, a Prefeitura Municipal vem aos poucos modificando os nomes das ruas da cidade, conforme a determinação a uma lei aprovada pela Câmara Municipal. Porém, a alteração não considera a substituição de nomes de pessoas ou datas relacionadas à ditadura. Na capital existem aproximadamente 15 mil ruas.

O projeto de lei 312/2013 da Câmara Municipal, do vereador Marcelo Serafim (PSB), objetiva proibir a mudança de nomes de ruas em Manaus para evitar transtornos a moradores e comerciantes. O PL altera o art. 7º e revoga os artigos 8º e 8ºA da Lei nº 266, de 30 de novembro de 1994, que permitia a troca de nomes de ruas se houvesse autorização de boa parte dos moradores.

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