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Esgoto a céu aberto esconde uma ameaça ainda pouco conhecida: o Gemycircularvirus

Vírus foi encontrado em amostras de exames feitos em crianças com diarreia nos hospitais de Manaus. Doença pode provocar paralisia temporária nas pernas e, se não tratada, pode levar à morte 12/02/2016 às 13:42
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A falta de saneamento básico aumenta o risco de contaminação e esgotos a céu aberto pode ser porta de entrada para a doença
acritica.com Manaus (AM)

Problema comum a 81% da população da capital amazonense, a falta de saneamento básico pode esconder um outro risco à saúde: o Gemycircularvirus, um vírus descoberto no ano passado, em Manaus, que causa diarreia, paralisia flácida temporária nas pernas e, nas crianças de 0 a 5 anos, pode provocar uma inflamação no cérebro e até levar à morte.

A descoberta do vírus foi resultado de um estudo realizado pela pesquisadora da Fiocruz Amazônia, Patrícia Puccinelli Orlandi, e Tung Gia Phan, pesquisador do Laboratório de Medicina da Universidade da Califórnia (EUA).  Eles analisaram 1,5 mil amostras de crianças de 0 a 10 anos com diarréia nos hospitais de Manaus e identificaram o Gemycircularvirus em pelo menos 15 delas. Segundo Orlandi, foi a primeira vez que o vírus foi detectado no Brasil. Ele já havia sido confirmado em adultos que vivem em locais sem saneamento básico, como a Nicarágua.

“É um vírus descoberto há pouco tempo, através de uma pesquisa sobre a diarreia infantil, problema muito comum no Amazonas, por conta da falta de saneamento básico. Esse estudo começou em 2009, mas a descoberta se deu no ano passado. Coletamos 1,5 mil amostras de crianças com diarréia nos hospitais de Manaus e começamos a procurar novos vírus que pudessem estar causando isso. Juntamos nossas ‘doenças’ e a tecnologia da Califórnia e o resultado foi esse”, disse.

De acordo com a pesquisadora, apesar de ter baixa prevalência – apenas 1% das amostras de crianças de 0 a 5 anos com diarreia investigadas tinham a presença do Gemycircularvirus, enquanto o rotavírus estava presente em 25% delas – a doença pode levar à morte crianças de 0 a 5 anos. “A prevalência é baixa, o problema é que, mesmo assim, algumas crianças vão parar no hospital por causa da paralisia temporária nas pernas e, se não receberem tratamento adequado, podem até morrer”, alertou.

Apesar de ter sido identificado em Manaus, o vírus pode estar presente em todas as regiões brasileiras, afirma Orlandi. “Se fizerem a coleta, também vão achar”.

Contaminação

A principal fonte de contaminação, lembra Orlandi, é a água contaminada. Daí a relação preocupante da doença com a falta de esgotamento sanitário em Manaus, cuja rede tem infraestrutura disponível para atender apenas 400 mil pessoas, cerca de 20% da população da capital.

Como a transmissão do Gemycircularvirus se dá de forma fecal/oral, a mais efetiva forma de combate é ampliar a rede de esgotamento sanitário, opinou a pesquisadora. “O saneamento básico pode reduzir entre 70% e 80% a transmissão das doenças de veiculação hídrica, não só esta. A transmissão do Gemycircularvirus se dá pelo consumo de água contaminada com fezes que contêm o vírus, daí a importância do saneamento, que, como o nome já diz, é básico”, explicou.

Vírus migra para o sistema nervoso

O primeiro sintoma do é uma diarreia, que pode durar 5 dias. Após esse período, o vírus migra para o sistema nervoso, provocando a paralisia e, em alguns casos, evoluindo para um problema neurológico que, sem tratamento, pode levar à morte.

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