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Manaus
SEM TETO

Esquecidos, moradores de rua sofrem com a falta de políticas públicas no Centro de Manaus

Forçadas a deixar o convívio familiar por diferentes motivos, aproximadamente 560 pessoas moram nas ruas da região central 23/10/2018 às 01:35 - Atualizado em 23/10/2018 às 13:02
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Foto: Jair Araújo
Joana Queiroz Manaus (AM)

Um lugar seguro para dormir. Esse é o principal desejo da maioria das pessoas que têm as ruas como moradia. “A gente passa o dia por aqui, mas quando a noite chega é que a gente precisa de um local seguro para dormir e não tem”, diz Janderson Pinheiro Hosana, 29, há oito anos morando na rua. Ele é um dos muitos moradores da Praça dos Remédios, no Centro de Manaus, que por algum motivo deixou o convívio familiar para viver nas ruas.

Segundo o padre e professor universitário Joaquim Hudson Ribeiro, há pelo menos 560 pessoas que atualmente vivem nessa condição, sem ter um lugar para se refugiar, sem receber nenhum tipo de assistência permanente do poder público. “Em alguns momentos aparecem iniciativas paliativas que oferecem curativos, corte de cabelos... para fazer de conta que estão fazendo algumas coisas”, afirma o religioso e pesquisador.

Joaquim Hudson diz que as pessoas vão morar nas ruas por diversos motivos. Entre os principais estão os conflitos familiares, vício em drogas, desemprego, transtornos mentais não tratados pela ausência das políticas públicas da saúde mental. “Eles dizem que não é na rua que querem morar”, conta.

Janderson Pinheiro conta que ele e os colegas de rua passam o dia na praça, dormem nos bancos na sombra das árvores, comem o que pessoas de bom coração dão, às vezes fazem um serviço e o dinheiro que conseguem compram cachaça. “Se eu conseguisse um trabalho deixaria a rua”, diz. De acordo com ele, antes de ir morar nas ruas trabalhava como pintor.

Ademar Ferreira, 47, passou a maior parte da vida adulta trabalhando nas fábricas do Polo Industrial de Manaus, chegou a exercer função de chefia em algumas delas e está há oito anos morando nas ruas. “Se eu conseguisse um lugar para morar sairia da rua”, diz. 

Todos os entrevistados disseram ter vontade de deixar as ruas. Eles reclamam que em Manaus, diferentemente de outras cidades País afora, não há nenhum abrigo para que eles passem a noite. “A gente dorme na praça e, quando chega a chuva, nós saímos correndo para buscar proteção”, conta Ademar.

Ele diz que saiu de casa depois de ter se separado da esposa e ter se tornado alcoólatra e usuário de drogas. O ex-industriário descreve como é a vida na rua: “Aqui ninguém se importa com a gente. Quando adoecemos um cuida do outro, consegue um remédio e assim vai. Para tomar banho e fazer as necessidades fisiológicas, pagamos R$ 1”.

Os moradores de rua reclamam que, há alguns anos, eles recebiam assistência pública no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua – Centro Pop, que funcionava no bairro Presidente Vargas, mas este foi transferido de lá para o bairro de Petrópolis, na Zona Sul.


Janderson e os amigos dizem que se tivessem para onde ir deixariam a rua. Foto: Jair Araújo

A mudança que dificultou o acesso deles e para piorar a situação até as vans que faziam a condução deles foi retirada. Atualmente poucos conseguem chegar ao Centro Pop.

Atacados com agressões, pimenta e fezes

Expostos nas ruas, os moradores de rua se tornam vítimas da violência. Conforme o padre Hudson, eles denunciam que são vítimas da violência policial constante, confundidos com bandidos. Muitas vezes são acordados com spray de pimenta e se reclamarem apanham mais. Às vezes aparecem grupos de carros, que jogam pimenta e fezes neles quando eles estão dormindo e ainda batem neles.

Centro abriga 560 pessoas

Para o padre Joaquim Hudson, que estuda a situação e presta assistência a pessoas que moram nas ruas, a mudança do “Centro Pop”, vinculado à Semmasdh, para o bairro Petrópolis o transformou em um “elefante branco”. “Não funciona, as pessoas não vão pra lá”, diz.

“Se aquilo que preconiza a assistência à população de rua diz respeito a acesso e acessibilidade, a constituição desse centro foi totalmente fora dos padrões estabelecidos pelas normativas de atendimento dessa população. É um elefante branco”, afirma o padre.

Conforme ele, há pelo menos 560 pessoas em situação de rua na região central e apenas uma média de 10 a 15 são assistidos pelo Centro Pop. Muitos vão a pé do Centro da cidade para o Centro Pop, por não ter transporte e dinheiro.

"Principal problema é saúde"

O padre Joaquim Hudson disse que as condições dos moradores de rua são negligenciadas pelo poder público. O descaso total, afirmou.  “Têm pessoas que estão envelhecendo nas ruas por falta de uma política pública que possa tirá-lo de lá.  Mas a questão da saúde dessa população é o principal problema”.


Padre Joaquim Hudson diz que os atuais programas são ineficazes, pois são paliativos. Foto: Jair Araújo

O padre revelou que em trabalho feito recentemente pela igreja foram encontradas pessoas apresentando sintomas de tuberculose, como tosse seca, escarro com sangue, além de idosos com feridas expostas, pessoas com diabetes, hipertensão, soropositivos, que, nesse trâmite de idas e vindas à Fundação de Medicina Tropical, não têm onde ficar e acaba piorando.

Quando tem emergência, disse o padre, servidores de ambulâncias se negam a levar as pessoas alegando que elas são sujas, que faltam acompanhantes, que não têm residência física e que vão contaminar a ambulância.

Joaquim Hudson defendeu que serviços públicos como o Consultório de Rua, que é de competência da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), são ineficazes. O religioso citou que recentemente houve uma grande mobilização de saúde para a população de rua durante uma manhã. “Em uma manhã ninguém resolve isso, não favorece e nem melhora a condição da pessoa que está em situação de rua e acaba mantendo ela nessa mesma situação”.

O programa Consultório de Rua citado pelo padre é composto por uma equipe multidisciplinar, com  enfermeiros, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e dentistas e uma unidade básica de saúde para dar suporte a esses serviços.

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