Publicidade
Manaus
PRECARIEDADE

Esquecidos: ribeirinhos de casas flutuantes sofrem com pobreza no interior do AM

Potencial da riqueza natural da Amazônia não se converte na melhoria na qualidade de vida da população. O Estado é o segundo com mais pobreza no País 21/10/2018 às 08:46 - Atualizado em 21/10/2018 às 08:48
Show pobreza 1 bcd74a15 51d2 477f 941c aed89d24afa5
Aos 12 anos, Wellington vende picolés para ajudar no sustento de casa (Fotos: Euzivaldo Queiroz)
Cecília Siqueira Manaus (AM)

Seguindo o ritmo de descida e subida das águas do rio Negro, há 40 anos Francisco Canindé Dias Gonçalves, 58, puxa sua casa-flutuante com a ajuda de sua companheira, a dona de casa Maria da Conceição Souza, 52. O casal mantém a moradia no local onde antes era o atracadouro de balsas no Cacau-Pirêra, distrito de Iranduba (a 27 quilômetros de Manaus).

Francisco e Maria fazem parte dos 49% de pobres do Estado, porcentual que coloca o Amazonas, mesmo com tanta riqueza natural, como o segundo estado com mais pobreza do País, atrás apenas do Maranhão (52,4%), conforme os dados da Síntese dos Indicadores Sociais, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números de pesquisa realizada em 2016 e divulgada em dezembro de 2017.

Além de abrigar os flutuantes e servir como lar, é do rio que seu Francisco tira o sustento de sua família. Não só ele, mas toda a comunidade que ali reside. Apesar do município de Iranduba ser conhecido principalmente por seu potencial agrícola, boa parte dos ribeirinhos instalados no antigo porto, hoje vive basicamente da pesca.

O descaso e a falta de políticas públicas para conscientização ambiental e preservação hoje desenrola um cenário de lama e lixo, totalmente diferente do que Canindé rememora. “Aqui funcionava a feira do bagaço e era muito bom. Era muito farto de peixe, passavam cardumes e mais cardumes de matrinxã, tambaqui e pirarucu. A gente pegava com bomba”, conta ele.

Sem se dar conta que a ocupação desordenada somada à exploração desenfreada dos recursos naturais com o uso do artefato explosivo contribuíram para a destruição da flora e fauna aquática daquele trecho, o pescador diz que ali também existia um aningal, espécie de vegetação importantíssima, que evita o assoreamento dos rios e ocorre somente em áreas de várzea, que é o caso do Cacau-Pirêra.

“Com o passar do tempo, entraram políticos corruptos, derrubaram a vegetação. A gente foi esquecido aqui. Começou a entrar lanchas, outras embarcações e hoje não é o que eu conheci”, lamenta.

Ele afirma que faz parte da colônia de pescadores há pelo menos 15 anos, mas, desde que foi operado há pelo menos seis meses por conta de uma hérnia no abdômen, está afastado da atividade. Sob o mesmo teto, os três filhos Leandro, Branco e Francimar, com idades entre 20 e 25 anos, ajudam nas despesas da casa.

“Agora a gente tem que ir lá para o outro porto e coloca malhadeira numa boa distância para conseguir curimatãs bem gordas. Tem muita lá. Meu menino foi ontem e trouxe 30 unidades. A gente consome e tira para vender também. Por causa da hérnia, estou parado, então cato latinhas junto com meus filhos e mais um vizinho”, diz Francisco.

Apenas com café e pão, como alimentação, o grupo se desloca para Manaus às 7h e retorna ao distrito de Iranduba por volta das 14h. Dependendo da quantidade coletada, a família consegue tirar em média 60 a 70 reais diariamente. “Sessenta latas equivalem um quilo, que dá 4 reais. Os meninos ainda pescam, mas com a seca, só dá para sair daqui de rabeta, jogando lama para todos os lados até chegar no rio. A gente pede que Deus mande logo água”, completa.

Sua companheira de trabalho e vida, a dona de casa Maria da Conceição, cuida da pequena horta no “quintal” da casa, disposta num tablado suspenso nos fundos da residência, ajuda no tratar dos peixes para a comercialização e também vai buscar água. Com o período de seca e o precário abastecimento de água, já que é quase inexistente sistema de encanamento para distribuição do líquido ali, Conceição confessa que já está cansada desse cotidiano.

“Morar em flutuante é bom, mas já estou cansada. Todos os dias, quando seca mais um pouco, nós temos que puxar para dentro da água. Quando enche, a mesma coisa, só que puxamos para fora. São 40 anos nessa luta. Assim é nossa vida”, completa.

Infância

Dados divulgados em abril  pela Fundação Abrinq mostram que, no Amazonas, crianças e adolescentes até 14 anos vivendo em situação de pobreza e miséria somam cerca de 890 mil jovens. O número corresponde a 23,6% da nova geração de amazonenses.

Sob o forte sol do verão amazônico, Wellington da Silva, 12 anos, segue com sua caixa de picolés para ajudar no sustento de casa. O pequeno, que mora com a mãe, Ivone, e duas irmãs menores, de 4 e 7 anos, conta que a responsabilidade lhe rende diariamente em torno de 20 reais. “Estou no 6º anos e estudo de tarde. Ajudo minha mãe, pois não fico por aí vendendo essas coisas que os outros meninos estão fazendo (drogas)”, diz o menino.

Comunicativo, Wellington logo conta que não tem vínculos afetivos com o pai. “Não lembro muito bem da aparência dele. Faz tempo que fui visitar a casa dele, no Novo Israel. Minha mãe falou que ele vai fazer 29 anos amanhã (ontem)”, conta.

'Apesar de tudo isso, eu sou feliz'

Dos 35 anos de vida, Silvanete Araújo da Silva vive há 16 anos sobre as águas do rio Negro com o companheiro Elio Almeida Maciel, 42, juntamente com os dois filhos Diego e Denise, de 16 e 15 anos, respectivamente. Cercada de outras moradias flutuantes, a família tem como vizinhança outros familiares.

“Meus filhos nasceram aqui e estão se criando. Aqui quando está seco, como agora, fica ruim de pesca. Então a gente vende dindin, vai vivendo. Também fazemos torneios de futebol valendo porco, boi, frango ou rancho e tomamos uma cervejinha”, conta a ribeirinha. Ela diz que, apesar das dificuldades e da falta de apoio do Município, como a coleta de lixo e o fornecimento de outros serviços essenciais, não há motivos para reclamar. “Sou feliz porque meu pai me criou aqui, criei meus filhos e está indo para quarta geração, tenho três netos da minha filha mais velha que não mora conosco”, afirma.

‘Damos nosso jeito’

“Nós aqui não contamos com ajuda de ninguém, damos o jeito de comprar borrachas e canos para fazer com que a água chegue até nós. O pessoal diz que quem mora em flutuante é porque quer, mas na verdade somos esquecidos. Nunca ninguém olhou por nós”, diz Silvane

Publicidade
Publicidade