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Manaus
HOMENAGEM

No Dia do Trabalhador, conheça a história de manauaras que atuam em profissões curiosas

De coveiro a carregador no porto. Em homenagem ao Dia do Trabahador, o Portal A Crítica mostra a rotina de trabalhadores não convencionais 01/05/2018 às 07:18
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O cemitério São João Batista é o local onde Rildo de Souza Fernandes, 38, escava a terra onde ficarão os restos mortais em gavetas de concreto. Fotos: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Uma máxima popular mundial ensina que “o trabalho dignifica o homem”. E algumas profissões fogem de um “padrão da normalidade”, sendo curiosas pelo ineditismo, estranheza ou a forma como são desempenhadas. Valorizando o regionalismo amazônico e suas várias facetas, o Portal A Crítica entrevistou, para este Dia do Trabalhador, pessoas que têm essas profissões curiosas.

Marcos da Silva Feitoza, 35, está há cerca de 20 anos atuando como vendedor e “ticador” de peixes na Feira da Manaus Moderna, no Centro da capital, um dos pontos preferidos do consumidor amazonense. Sempre com a peixeira amolada, ele é rápido e afiado na “ticagem” do produto. Ex-metalúrgico, ele atua de 4h às 14h em um dos boxes da feira, e viu na profissão o ganha-pão definitivo.

“Tem que ser paciente e rápido. Aprendi a ticar com meu pai, que trabalha conosco aqui também”, contou ele, salientando que um dos diferenciais para os clientes é levar o peixe já tratado (ticado, sem escamas e vísceras), sem acréscimo de valor. Marcos disse que nenhum peixe dá muito trabalho para ticar, mas que a sardinha é a melhor espécie para se trabalhar.


Para se diferenciar no mercado, Marcos além de peixeiro virou um ticador de primeira

Ele tem uma filha de oito anos, a qual ele espera que se forme em outra profissão, pois a de peixeiro está ficando “saturada”. Neste Dia do Trabalhador, ele estará novamente na feira, pois é “preciso ganhar dinheiro”, ressaltou, concentrado no vai e vem da peixeira amolada.

Ainda na Manaus Moderna, fomos ao encontro de Adalberto Lira de Oliveira, 42 (foto abaixo), que é um legítimo descascador de castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa). Ele trabalha no local há 30 anos e em seu boxe vende outros produtos como macaxeira e polpa de frutas.

Seu trabalho é feito com uma engenhoca simples chamada de “descascador de castanha”, que nada mais é do que um terçado médio amolado adaptado sobre uma base de madeira que dá sustentação para quebrar o fruto aparando suas laterais. Em média, a “máquina” descasca a castanha-do-Brasil em apenas seis segundos. Diariamente, ele descasca de sete a oito quilos do fruto.

“O mais difícil é quando a castanha está no ouriço, mas ela, assim, já ‘tirada’, beneficiada, é mais fácil porque a técnica que utilizamos é com o descascador, que quase não dá trabalho nenhum. Antigamente nós quebrávamos a castanha na porta, no martelo”, contou ele, que está há 11 anos atuando na feira e cujo trabalho sustenta sua mulher e mais quatro filhos, todos morando na Compensa, Zona Oeste da capital.

Nem a experiência e habilidade no descascar fez com que o feirante escapasse de se ferir na profissão: há um ano e meio ele perdeu a ponta do dedo polegar da mão esquerda, em um movimento errado que executou. “Mesmo depois de ficar experiente isso aconteceu. Não dá pra usar luvas próprias, pois atrapalha. Tem que ser no dedo mesmo”. E é claro que ele segue as recomendações médicas onde se deve comer, em média, duas castanhas por dia. “Mas às vezes como três, quatro castanhas, ou uma”, disse o trabalhador, sorrindo.

Mais de duas décadas no Cemitério

Rildo de Souza Fernandes, 38, é um tipo diferente de coveiro. Ele escava a terra do cemitério São João Batista não para colocar caixões, mas ossos e para construir sepulturas.

“Trabalho há 22 anos e a nossa diferença para os coveiros é que eles cavam para colocar o caixão, enquanto que nós cavamos para construir e colocar gavetas das caixas de madeira (mortuárias), para depois encher de concreto”, disse ele, que sempre é contratado pelas famílias das pessoas enterradas a um preço médio entre R$ 4 mil a R$ 5 mil, segundo o próprio.

O medo que alguns têm dos mortos não aflige Rildo. “Nunca tive medo de visagens e agora que não tenho mesmo. Meu maior temor é com os vivos: se alguém vacilar ele vai por trás e lhe fura, lhe caceta”, afirmou o trabalhador, pai de sete filhos.

'Força descomunal' levando carga na cabeça

Carregar cargas na orla do Centro é uma atividade que requer esforço físico descomunal. Um trabalho nada incomum para Marcos Santos, 30, que é acostumado a transportar de frutas em caixas de madeira que comportam, por viagem, aproximadamente 120 quilos.

Para facilitar o serviço, carregadores como ele utilizam dois assessórios: uma espécie de protetor acolchoado para amortecer o peso na cabeça  e uma corda conhecida como “riata”,  que fica posicionada acima da testa e que auxilia no transporte ao ficar amarrada ao produto.


Além da força ‘descomunal’, é preciso ter ‘manha’ para ser carregador no porto

“Trabalho há 19 anos aqui, sempre pela manhã”, disse ele, contando que para fazer a função não é preciso “apenas força, mas também  manha”. Ele sustenta esposa e mais cinco filhos morando na Zona Norte, ganhando R$ 50 por dia. Hoje ele vai folgar. Amanhã, volta tudo ao normal para novas batalhas sem equipamentos de proteção e equilibrando-se nas carcomidas e perigosas escadarias da área portuária.

Vendendo água na rua, mas com muito estilo

No concorrido mercado de venda de garrafinhas de água mineral nas ruas da cidade de  Manaus, o jovem Natan Henrique de Melo Nogueira, de 19 anos, saiu na frente ao oferecer o produto dentro de um balde sobre uma bandeja e devidamente vestido com roupa e sapatos sociais, gravata borboleta e um boné de quebra, dando um ar jovial a ele e o protegendo do Sol causticante da capital.

Tudo começou há dois meses, quando ele foi convidado por outros vendedores que se vestem no mesmo padrão, sendo contratados por uma microempresa que fornece a água mineral. “Antes eu vendia normalmente, até que um dia eu mesmo fui comprar água e vi pessoas trabalhando com roupa social e bandeja. Um desses vendedores me chamou perguntando se eu não queria trabalhar com eles”, disse Natan.

“A empresa dá a água mineral e nós vendemos, ganhando dinheiro e gorjeta. Muitos não gostam de comprar por causa da aparência de outros vendedores, pois há pessoas que pegam a água com a mão suja para vender, mas com a bandeja é diferente”, completou ele.


Natan tem apenas 19 anos e já é o esteio da família: ele tem esposa e um filho

O jovem trabalha de 9h às 16h, de segunda a sexta-feira, e aos sábados até 13h, folgando aos domingos. Durante a entrevista ele ainda não sabia se iria trabalhar neste feriado.

A renda garante o sustento para a sua mulher e um filho na casa que eles moram no bairro Santo Agostinho, Zona Oeste da capital. “Se eu não trabalhasse aqui estaria desempregado”, contou ele, que cursou até o 2º ano do ensino médio.

Para Natan Melo, o trabalho que faz é a chance de mostrar seu esforço para duas pessoas essenciais na sua vida. “Vendendo água e me esforçando eu posso dar orgulho para o meu filho e para a minha mulher. Isso está bom demais”, disse ele.

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