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Estrangeiros

Estrangeiros buscam em Manaus novas oportunidades de emprego

Fugindo da crise que ameaça países da América Latina, uma turma de migrantes cria laços e aproveita o mercado de trabalho na capital amazonense 11/09/2016 às 14:15 - Atualizado em 11/09/2016 às 15:28
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O venezuelano Deninsson Guijada trabalhava como metalúrgico e, em Manaus, é atendente de um quiosque regional (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Alik Menezes Manaus (AM)

A crise política e econômica tem praticamente obrigado cubanos e venezuelanos a buscarem abrigo no Amazonas para fugir da insegurança, da inflação, da escassez de alimentos e das manifestações que acontecem em todas as regiões da pátria deles.

Apesar das dificuldades que enfrentaram em seus países, os estrangeiros não se abalam e chegam ao Amazonas cheios de vontade de trabalhar e de começar uma nova vida. Na capital, a primeira providência dos estrangeiros é se regularizar na Polícia Federal.

A família Arredondo (pai, mãe e três filhos) chegou a Manaus há três meses e, apesar de todos possuírem nível superior e terem vivido confortavelmente por muitos anos na Venezuela, eles chegaram determinados a vencer na vida novamente. “Nosso País está acabado, se afundando na crise, empresas fechando. Nosso dinheiro não vale mais nada porque não tem nem alimento para comprar, nós encontramos no Amazonas um povo acolhedor, que não discrimina ninguém, e nós vamos renascer aqui”, disse Anderson Arredondo, que é jornalista.

O jornalista é o caçula de três filhos do chef de cozinha Walter Arredondo, que é um dos maiores incentivadores da família a não baixar a cabeça e trabalhar nem que não seja na área de formação deles. “Só uma das minhas irmãs está trabalhando na área dela, a Adieliuska é engenheira, mas nós estamos trabalhando com o papai, fornecendo comida”, contou.

O chef recebe ajuda da filha médica Adrieliuneska e da esposa Adilia para cozinhar e fornecer comidas em várias lojas de um shopping da cidade. Eles apostam em um cárdapio diversificado, com pratos venezuelanos, italianos e chineses, para conquistar os clientes amazonenses. “Uma amiga disse que estava enjoada de comer a mesma comida todos os dias e depois que experimentou o nosso tempero gostou e começou a nos divulgar. Hoje já temos uma clientela boa”, disse Anderson, que revelou que a família pretende inaugurar em breve seu próprio restaurante.

Nova vida

Outro exemplo de pessoa determinada e disposta a esquecer as dificuldade que passou é a cabeleireira Katherine Fonte, 25, que fugiu de Cuba e viveu como ilegal na Venezuela por quase três anos, mas acredita que no Amazonas vai mudar de vida.

Segundo a jovem, a crise no Venezuela vem se agravado a cada dia e a tendência é piorar cada vez mais, principalmente para os ilegais. “Tem manifestações todos os dias, em todos um lugares, é tudo muito perigoso, a única solução é sair de lá e procurar vencer em outro lugar”, contou.

Atualmente a jovem trabalha em um salão de beleza no bairro Parque 10 de Novembro, Zona Centro-Sul, (onde muitos imigrantes estão trabalhando em salões de beleza) e sonha em fazer faculdade de arquitetura ou psicologia. “Vou trabalhar e correr atrás dos meus sonhos aqui nessa terra que me acolheu, vou construir uma nova vida”, disse.

Cabeleireira venezuelana sonha em abrir um restaurante

A cabeleireira Mileyda Vita, 44, é um exemplo de otimismo e determinação. Há sete meses no Amazonas, trabalhando em um salão de beleza no Parque 10, ela consegue mandar ajuda financeira mensalmente para ajudar os dois filhos que ficaram na Venezuela.

Para Mileyda, o Amazonas representa a possibilidade de realização de sonhos, diferente do seu País, onde chegou a enfrentar uma fila de 5 horas em supermercados para comprar um quilo de açúcar. “A gente ia para a fila do mercado às 3 horas da manhã, enfrentávamos uma fila de mais de cinco horas e, na maioria das vezes, era para tentar a sorte porque não tinha garantia de que ia comprar ou que lá ia ter alguma coisa”, relatou.

Mileyda pretende montar um pequeno restaurante onde irá trabalhar com um cardápio venezuelano. “Meu sonho é esse e vou trabalhar para isso. Vou trabalhar e trazer a minha família que ficou lá para trabalhar comigo aqui. Não pretendo mais ir embora dessa cidade, agora também é a minha terra, meu novo lar”, disse.

Trabalhando como manicure, cubana quer trazer a família

“Cuba e Venezuela estão afundando na crise, não tem como viver mais lá, nosso refúgio é o Brasil, é o Amazonas”, disse a manicure cubana Arlen Ruiz, 34, que viveu ilegalmente na Venezuela por dois anos e há dois está no Amazonas.

A cubana decidiu sair da Venezuela em 2015, quando a crise começou a ficar insustentável, principalmente para os ilegais. “As empresas estavam fechando, o seu dinheiro não valia mais nada, os preços de tudo aumentavam todos os dias, manifestações a qualquer hora, a única solução era sair”, contou.

A cubana disse que não enfrentou problemas na Polícia Federal e conseguiu se regularizar. A impressão que tem do Amazonas é tão positiva que a manicure pretende trazer o restante da família e comprar uma casa.

Atualmente ela paga aluguel e mora com o marido, que é venezuelano e trabalha em uma barbearia também no Parque 10, próximo do trabalho de Arlen. “Ele também acredita que aqui nós vamos recomeçar nossas vidas”.

De aluna a manicure e professora

A venezuelana Daylenis Silva, ou simplesmente Day Zumba, 22, nunca teve medo do desconhecido e, principalmente, de buscar qualidade de vida. Foi assim que ela deixou Puerto Ordaz, em 26 de novembro, e desembarcou em Manaus com o marido, Carlos Gonzales, e o cunhado.

A vinda a Manaus, assim como a de outros venezuelanos, foi motivada pela crise da terra natal. “Estava muito difícil e decidimos vir ao Brasil em busca de oportunidades de trabalho”.

Em Puerto Audaz, Daylenis era estudante de contabilidade. Hoje, além de cabeleireira, é manicure e dá aulas de zumba à noite, o que a fez adotar o pseudônimo de “Day Zumba”. A mudança inspirou outros parentes, que vieram em busca de uma vida melhor “Não estamos arrependidos, pelo contrário. Aqui encontramos qualidade de vida”.

Personagem: Adrieliuneska Arredondo, Médica

A médica venezuelana Andrieliubeska Arredondo veio para o Brasil com toda a família e está esperando aprovação do Revalida (prova aplicada pelo Ministério da Saúde para reconhecer a formação e autorizar a atividade dos médicos estrangeiros, por meio do programa Mais Médicos) para poder exercer a profissão no Amazonas.

Para a jovem, a Venezuela não deve sair da crise tão cedo e o país precisa urgentemente de um novo governo. “Se o governo não está bom para o país tem que ser trocado, porque o bem de todos deve prevalecer, deve se pensar em todos”, disse.

Como exemplo, a jovem cita as “portas fechadas” de outros países para a Venezuela. “Ninguém quer negociar com nosso país, o povo está na miséria, não entra nada na Venezuela”.

Personagem: Ramón Carrier, Podólogo

Natural de Puerto Ordaz, na Venezuela, Ramón Carrier também apostou em vir para o Amazonas para conseguir ajudar a família, principalmente o filho de 9 meses, que ficou na terra natal dele, em meio à crise política e econômica que arrasa o país. O podólogo está no Brasil há sete meses e trabalha em uma barbearia no bairro Parque 10, e assim consegue pagar o aluguel da casa onde mora e divide com uma amiga, fazendo sempre sobrar uma parte para enviar à família, na Venezuela. Diferente dos colegas, o jovem não pretende morar definitivamente no Amazonas. Daqui a três anos ele planeja voltar para a Venezuela. “Agora não é o momento, mas quero voltar para lá, para viver com a minha família e cuidar do meu filho”, disse.

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