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Manaus
ALEIXO

Assediada em casa noturna de Manaus não consegue fazer B.O na delegacia da mulher

Estudante de 20 anos diz que dançava com amigas quando um homem passou a mão na saia dela. “Começaram a rir, dizendo que eu estava exagerando” 24/07/2017 às 21:38 - Atualizado em 24/07/2017 às 22:48
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A delegada Alyne Lima, do 16º DIP, vai investigar o caso (Foto: A Crítica)
Vinicius Leal Manaus (AM)

Uma estudante de medicina de 20 anos denunciou à Polícia Civil, em Manaus, ter sido assediada na noite deste domingo (23) por um homem de 36 anos dentro de uma casa noturna da cidade localizada no bairro Aleixo, na Zona Centro-Sul da capital. A jovem, que preferiu não se identificar à reportagem, reclamou da forma que foi tratada pelos seguranças do estabelecimento e também do atendimento recebido na Delegacia da Mulher. Ela disse ter tido dificuldades para registrar o Boletim de Ocorrência (B.O).

“Eu estava na parte de cima do bar com umas amigas e o namorado de uma amiga. O meu irmão estava com a namorada dele e os amigos dele meio afastado. Eu estava dançando com elas e o cara já estava me olhando. E aí ele veio e passou a mão na minha saia e segurou assim, como se quisesse apalpar. Ele meio que apertou a saia, eu não entendi o que ele quis fazer. Só sei que eu virei com tudo na hora, foi um reflexo. Eu comecei a gritar. Eu falei ‘você está maluco, passando a mão em mim?’ Os amigos dele começaram a rir, dizendo que eu estava exagerando. Estava todos embriagados”, disse a jovem.

Segundo ela, os seguranças do bar foram chamados, mas fizeram pouco caso. “Eu chamei o segurança, que não quis fazer nada. Ele disse que não devia ter sido nada, que ele deveria ter só esbarrado em mim, que ele (suspeito) era um cliente frequente da casa e que não ia fazer nada. E eu falando ‘eu quero que vocês expulsem ele daqui’. Eu só queria que tirassem ele de lá, mas ninguém fez nada”, disse.

De acordo com a estudante, os seguranças só “agiram” após a presença do irmão da vítima. “O segurança não queria fazer nada. Isso que me deixou mais p*ta. Eu comecei a xingar todo mundo e perdi minha razão. Aí ele (segurança) começou a gritar comigo e mudar de assunto, ele começou a bater boca comigo. Os seguranças não me deram moral. Só aconteceu alguma coisa quando eu chamei meu irmão. Porque mulher falando é exagero, é ‘ah ela está falando demais, é culpa da saia dela’, essas coisas”.

Depois da intervenção do irmão, a gerência do estabelecimento tomou providências. “Eu chamei meu irmão e foi a maior confusão. Mandaram a gente sair de lá e todo mundo saiu junto, só o cara e os amigos dele ficaram lá. A gente foi para a parte do pagamento, noutro ambiente, e conversamos com o dono do bar. Ele mandou eu ir falar com a gerente e mostrar quem era ele (suspeito). Eu apontei e retiraram ele de lá. E fomos todos resolver lá fora. Nisso apareceu a polícia e fomos para a delegacia. Ele na viatura, algemado, e eu com meu irmão”, disse.

Delegacia da Mulher

Conforme a estudante, ao chegarem na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), que fica no bairro Parque Dez, ela foi impedida de registrar B.O. “Quando eu cheguei na delegacia da mulher, eu vi o assediador conversando com o policial, passando o papo. Foi quando o policial disse que era para irmos para a delegacia do aeroclube, porque na delegacia da mulher estava muito lotado, sendo que nem estava”, afirmou a estudante de 20 anos.

Segundo ela, não ser atendida na delegacia especializada para as mulheres não a surpreendeu. “Eu já sabia que não ia dar em nada na delegacia da mulher. Eu já tinha ido lá outra vez prestar um B.O contra um cara que estava me perseguindo, e dessa vez eles ficaram me desacreditando. Mas dessa segunda vez eu nem consegui entrar. Eu sabia que a delegacia era ruim porque eu já tive essa experiência lá”.

Exigência de advogado

No 12º Distrito Integrado de Polícia (DIP), no bairro Parque das Laranjeiras, a jovem disse também não ter sido atendida de imediato. Segundo ela, os policiais exigiam a presença de um advogado para fazer o B.O. “No 12º DIP eles ficaram com maior dificuldade para fazer o B.O, dizendo que eu precisava de um advogado. Só depois de eu conseguir um colega advogado que eles registraram. E lá dentro, a menina que me entrevistou, não estava levando muito a sério o que eu dizia”, reclamou.

Segundo a jovem, apenas o delegado plantonista prestou um bom atendimento. “Só o delegado me levou a sério. O assediador ficou pensando que sairia impune porque tinha amigo policial que estava com ele, um policial do lado dele para tudo, até na hora de prestar depoimento. E o delegado ficou com raiva porque esse policial e ele (suspeito) estavam embriagados. O delegado falou ‘ele pensa que trazendo um amigo policial vai adiantar alguma coisa’. O delegado super se sensibilizou comigo”, disse.

Investigações

Após o registro do B.O, o suspeito foi liberado. Agora, o caso deve ser transferido para o 16º DIP, delegacia da área do Aleixo e sob a responsabilidade da delegada titular Alyne Lima. Segundo a delegada, ela ainda não recebeu o caso formalmente, mas adiantou que deve acionar vítima para prestar esclarecimentos e posteriormente notificar o autor. Segundo Alyne Lima, deve ser aberto um inquérito de Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por Importunação Ofensiva ao Pudor, e não crime de assédio sexual.

“Importunação Ofensiva ao Pudor é uma contravenção penal que atenta contra a dignidade sexual do ser humano, é mais leve que o crime, pois é punido com detenção simples ou multa, mas geralmente a multa apenas. Um exemplo é tocar nos seios da vítima”, explicou. A delegada Alyne Lima informou também que os procedimentos nas delegacias devem ser apurados. “Tem que apurar se foi isso que foi falado realmente porque o procedimento não é esse”, disse ao se referir ao atendimento nas delegacias.

Polícia Civil

Em nota, a Polícia Civil do Amazonas informou que, conforme o delegado Geraldo Eloy, diretor do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM), “as orientações repassadas aos policiais civis é de que os Boletins de Ocorrência (BO) sejam registrados sem hesitar”, sem exigência da presença de advogados. “Informamos, ainda, que os titulares das unidades policiais citadas não têm conhecimento da situação relatada e não há registros relacionados à conduta policial comunicada para que as providências sejam tomadas”.

‘Me senti inútil’

A estudante de medicina afirmou à reportagem que se sentiu “sem voz” ao ser impedida de registrar o B.O na delegacia da mulher e pela forma como foi tratada pelos seguranças da casa noturna. “O assédio foi um choque, mas é uma coisa que acontece sempre. Nós mulheres sabemos disso, infelizmente. Mas eu tentei brigar e expor ele (suspeito). Quando fizeram pouco caso eu me senti inútil de não poder fazer nada e ter que chamar meu irmão para resolver. Aquela coisa de que voz de mulher não consegue ser ouvida”, lamentou.

Suspeito

A reportagem tentou entrar em contato com o suspeito de assediar a jovem, mas não obteve sucesso.

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