Domingo, 21 de Abril de 2019
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TENSÃO

Estudante e chef de cozinha do AM relata terror na Venezuela: 'Eu preciso sair daqui'

Willian Katô decidiu viver no país vizinho para estudar Medicina, porém afirma que vai voltar para o Brasil. Ele está com infecção urinária por conta do racionamento de água


06/03/2019 às 16:39

“A palavra certa é ‘fugir’. Vou me arriscar porque estou doente e preciso sair daqui”. O desespero para sair da Venezuela no meio de uma guerra entre poderes políticos fez com que o estudante de Medicina e chef de cozinha amazonense William Katô, de 44 anos, decidisse largar tudo no país. Para sábado (9), o presidente Nicolás Maduro e o autodeclarado Juan Guaidó convocaram manifestações devido o impasse na presidência. “Orem por mim para eu chegar logo aí porque vai ser muito complicado o que vou fazer”.

Mesmo com as entradas e saídas do país fechadas e tomadas por conflitos, Katô afirma que vai sair da Venezuela “por outros meios”. Há dois anos ele interrompeu as atividades como chef de cozinha em São Paulo e decidiu estudar Medicina na Venezuela. Segundo ele, o curso no Brasil é caro, e no país vizinho ele alcançou um nível de experiência ótimo, pelo menos até antes da população viver um dos estados de tensão mais alarmantes da sua história.

“Eu sempre via que as pessoas tinham outras necessidades além de comida. Nesses dois anos as coisas pioraram (na Venezuela). Eu sabia que estava perigoso, mas de um tempo pra cá tudo mudou”, disse ele.

Katô mora em Ciudad Bolívar, conhecida por ser uma área nobre onde vivem cerca de 7 mil universitários. Ele vive em um prédio com outros estudantes, mas nem por isso deixou de sentir na pele o terror de uma guerra.

“Nesse sufoco todo tentaram invadir a minha casa. Nesse tempo, jogaram gás por debaixo da porta. Tive que ficar com tudo trancado por mais de três horas dentro do ar-condicionado com pano úmido pra eu não morrer. Já seqüestraram muitas crianças, estrangeiros e idosos. Porque se tiver uma guerra, essas pessoas vão estar na linha de frente”.

Sobrevivência

O racionamento de água na Venezuela é constante. Em casos extremos, Katô conta que a população chega a ficar três dias sem o fornecimento de água. A falta dela fez com que o estudante economizasse a água armazenada. “Está difícil encontrar água para beber. Comecei a economizar água então comecei a beber 1 litro por dia. Aconteceu que peguei uma infecção urinária muito feia”, destacou.

A doença não foi o único motivo que fez o estudante decidir que abandonaria tudo para cruzar a fronteira. Mesmo tendo dinheiro reserva – Katô viaja duas vezes por ano ao Brasil e leva uma quantia – e condições para cambiar dólares, ele conta que o país não tem comida, remédios ou segurança. Ele define o cenário como um “caos”.

“Você não pode sair na rua porque existem dois presidentes. Se você sair na rua você ou você é sequestrado, ou você é morto ou atiram em você. O perigo é muito grande. Estão acontecendo constantemente e cada vez pior. O de sábado (manifestação) vai ser enorme. Tem um avião míssil no aeroporto. Eu moro perto. Não sei. Não sei o perigo que pode acontecer. A gente não pode sair. Ficamos presos. Já fiquei cinco dias sem sair de casa estocando tudo. Viramos prisioneiros”.

O estudante atua em um hospital escola em Ciudad Bolívar auxiliando médicos. Nem o local, que deveria ser um espaço de recuperação, escapa da precariedade que se instalou no país. “As pessoas chegam com tiro no peito, atingidas por gás lacrimogêneo, pessoas que foram acertadas com balas. É um caos porque não tem remédio, não tem nada, e a gente não pode fazer nada”.

Experiência

Apesar do medo e angústia de ter que abandonar o que construiu na Venezuela, Katô comenta que não voltaria atrás na decisão. “A experiência desses dois anos aqui pra mim foi muito boa porque fiz um curso de Neurogastronomia. A experiência que tive com o ser humano foi muito grande. A vivência com essas vítimas, de um poder errado, me faz ter a certeza de querer ser um cidadão melhor, um cidadão melhor para o meu País, de poder voltar e amadurecido de uma forma muito grande”.

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