Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2022
Crime ambiental

'Eu não concordo que diga que contaminamos o rio', diz garimpeira do rio Madeira

Mais de 600 balsas continuam a sugar o leito do Rio Madeira em busca de ouro, a cerca de 120 km de Manaus



Sem_titulo__8__2E608EC8-4276-422B-B41A-5E1769BD0538.jpg Foto: Bruno Kelly/Reuters
25/11/2021 às 20:11

Mais de 600 balsas continuam a sugar o leito do Rio Madeira em busca de ouro, a cerca de 120 km de Manaus. A reportagem de A CRÍTICA entrevistou uma garimpeira que está com uma balsa no local. Ela preferiu não se identificar por medo de represálias de outros colegas, mas deu detalhes do cenário no Rio Madeira, como o preço da grama de ouro, vendida por R$ 270 no garimpo, bem abaixo do preço do mercado cotado hoje em R$ 320. Além disso, disse estar esperançosa que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) legalize a prática. 

Ela veio para Manaus com medo “das notícias” de que a Polícia Federal iria realizar uma operação no local, mas deixou no Rio Madeira a draga de que é dona. Ficaram também cerca de quatro ‘funcionários’ cuidando da balsa e em busca do ouro. Apesar disso, todos têm esperança de conseguir ir embora da região sem maiores problemas.



“Até hoje nossa Amazônia é vendida para os estrangeiros, e nós que somos filhos, somos brasileiros, por que não podemos usufruir dessa riqueza? Inclusive, nosso presidente [Bolsonaro] apoia os garimpeiros. Eu consegui ter mais esperança [quando ele se elegeu]. Quem dera se pudesse legalizar, seria muito bom”, comenta a dona da balsa.

Bolsonaro já defendeu a mineração, inclusive em terras indígenas, em mais de uma ocasião. No dia 12 de abril de 2019, em uma live no Facebook, ele sugeriu a exploração da Reserva nacional de Cobres e Associados (Renca), reserva que fica entre os estados do Pará e Amapá e abriga ouro, ferro e cobre.

“Vamos conversar sobre a Renca? A Renca é nossa. Vamos usar as riquezas que Deus nos deu para o bem-estar da nossa população [...] A Amazônia pode ser uma solução para o mundo e não um problema para nós [...] vocês [os garimpeiros] não terão problema com o ministro do Meio Ambiente, de Minas e Energia ou de qualquer outro.”, disse. 

O próprio governo federal é responsável pelo Projeto de Lei 191/20, que atualmente está em tramitação no Congresso Nacional e autoriza a mineração em terras indígenas. O PL aguarda criação de Comissão Especial para avaliar a proposta. 

Cenário no Rio Madeira

Segundo a garimpeira do Rio Madeira, as cerca de 600 dragas começaram a se acumular naquela região nos últimos dias (preferiu não dizer o momento exato da chegada) após uma “fofoca”. Correu entre os garimpeiros conhecidos que a região possuía ouro e assim foram se acumulando na região próxima à comunidade Rosarinho, município de Autazes (AM).

“Eu vim do Piquiá [ilha], perto de Borba (AM). A nossa vida é assim [de um lugar para o outro]. Não é todo mundo que tá conseguindo ouro aqui [onde estão atualmente]. Já foi muita gente embora. Para vir pra cá gasta uns R$ 3,1 mil de diesel e às vezes a gente sai até no prejuízo”, explica.

Ela reclama de ser uma das prejudicadas e que irá mandar tirar a balsa do local. Quando estão em um movimento bom [como quando estava no Piquiá], conseguia tirar até R$ 2 mil por semana. Conta que a grama do ouro é vendida por R$ 270. 

“Mas não sobra muito porque você tem despesa com os mandadores [homens que trabalhavam com as mangueiras que sugam o leito do rio], com a cozinheira [que fica na balsa], com diesel. E pode até acontecer de não achar ouro nenhum, só ficar endividado”, relata.

A dona da balsa se defende das acusações de poluir o rio. Diz que outros garimpeiros contam que antigamente se usava mercúrio, mas hoje já têm outras opções “não poluentes”.

“Hoje em dia para pegar o metal a gente usa azougue, mas não jogamos no rio, é reutilizado. Então eu não concordo que se diga que contaminamos o rio”, desabafa. 

Apesar da fala da garimpeira, ‘azougue’ é um dos nomes pelos quais o mercúrio é conhecido. Outras nomenclaturas utilizadas são ‘prata-viva’, ‘hidrargírio’, ‘hidrargiro’. 

Desemprego e crise econômica

A dona da balsa defende os garimpeiros que estão nas dragas do Rio Madeira. Refere-se a eles como ‘trabalhadores’ e diz que há muitas famílias no local. Nega também que haja violência, como relatam moradores da região.

“Eu estou nessa atividade há uns seis meses. Lá no Piquiá eu nunca vi fiscalização nenhuma. Mesmo porque já existe garimpo há muito tempo [naquela região]. A população está com muita dificuldade de conseguir trabalho e vê essa atividade como um meio mais fácil, mas não tanto. Os mandadores têm um trabalho árduo, ficam 6h seguidas controlando as mangueiras [sugando o leito do rio]”, comenta.

Ela conta a própria história. Diz que trabalhava como funcionária comissionada de uma prefeitura do Amazonas, mas foi exonerada. Por já conhecer pessoas que atuavam no garimpo, vendeu o carro e gastou mais de R$ 100 mil para mandar construir a própria balsa. Desde então, está na atividade.

População assustada

A reportagem conversou também com moradores de Autazes, município às margens do Rio Madeira, onde as dragas estão concentradas. Quem topou falar preferiu não se identificar. O clima, segundo relataram, é de grande medo.

“Estamos espantados com essa chegada repentina. Já se vê pela cidade de Autazes o movimento dos garimpeiros. Teve um lado bom porque sentimos uma melhora na economia, eles compram muito, mas também tem preocupação, inclusive por questões sanitárias”, conta um morador da cidade.

Outra pessoa que não quis se identificar reclama da poluição gerada na água do Rio Madeira. Ela mora em uma comunidade na mesma região por onde passam as balsas de garimpo. 

“Quando cheguei aqui eu perguntei do meu marido o porquê de a água ser desse jeito e ele disse que era por conta do garimpo. A gente fica com coceira, dá diarreia nas crianças. Tem que estar o tempo todo jogando cloro na água, tomando remédio. Dá até ferida. A gente não pode viver nessa situação, tem crianças aqui, a gente bebe essa água, é horrível”, desabafa a moradora.

Fiscalização

Em entrevista à repórter Giovanna Marinho, de A CRÍTICA, o presidente do Instituto Ambiental do Amazonas (Ipaam), Juliano Valente, afirmou que as balsas chegaram naquela região do Rio Madeira há mais ou menos 11 dias. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ipaam atuam juntos para, inicialmente, coordenar ação de fiscalização na área. 
*Colaborou Joana Queiroz


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