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IDEIAS E EXPERIÊNCIAS

Evento debate o papel da mídia ao tratar assuntos como suicídio, depressão e bullying

Evento reuniu especialistas da área de comunicação e da saúde para debater sobre os temas que por anos foram tabus na mídia 15/09/2018 às 13:59 - Atualizado em 15/09/2018 às 14:00
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Foto: Márcio Silva
Paulo André Nunes Manaus (AM)

“Se a mídia não falar sobre o tema, nosso trabalho fica maior”. A orientação é da médica psiquiatra Alessandra Pereira, uma das palestrantes do evento “Suicídio e o Papel da Mídia”, que aconteceu na manhã deste sábado (15) no auditório da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), no Parque Dez de Novembro, Zona Centro-Sul. Para uma plateia formada por estudantes de Jornalismo, de outras áreas da Comunicação, e de quem já atua no segmento, um discurso uníssono: é preciso ter atenção para ouvir a pessoa fragilizada que quer falar, ter empatia e não banalizar o assunto na mídia. Detalhe: os jornalistas estão entre os 300 milhões de pessoas em todo o Planeta que sofrem de depressão.

O evento teve a finalidade de preparar profissionais e acadêmicos da área da Comunicação para a cobertura de temas como a saúde mental, o suicídio, depressão e bullying especialmente no “Setembro Amarelo”, campanha nacional de prevenção ao suicídio que vem crescendo e ganhando mais repercussão a cada ano.

“Temos o grupo do Setembro Amarelo 2018 no Instagram e há uma média de 170 pessoas no grupo do WhatsApp fazendo atividades por toda a cidade. Mas, quando você pega um grupo de 40 a 50 pessoas para fazer atividades em uma escola, por exemplo, há um alcance muito maior através da mídia. Então, o alcance que a mídia tem de trabalhar com serviço e não fazer desserviço nesse sentido da informação é muito maior, muito mais amplo, e o alcance da qualidade da informação pode ser maior”, disse a psiquiatra, que palestrou sobre “De Braços Abertos para a Prevenção: Acolhendo Pessoas em Sofrimento Psiquiátrico”.

“É preciso checar, analisar, porque em cima dessas notícias trágicas existe outro lado: o lado humano, das famílias, de pessoas que estão envolvidas e extremamente necessitadas de uma acolhida, cheias de culpa, buscando sair daquele problema. E se de repente chega um vizinho, e faz comentários negativos, de uma notícia que sai na mídia, mexe com essas feridas. A imprensa tem um papel fundamental nesse contexto”, acrescentou.

Mais de 90% dos indivíduos que morrem por suicídio tem algum transtorno psiquiátrico prévio. E com diagnóstico e tratamento adequados poderia ter sido evitado, ilustrou a médica. “E uma pessoa que tem depressão demora até três anos para chegar ao atendimento de um psiquiatra”, alerta a especialista.

Para a psicóloga Dilza Santos, a presença de profissionais do Jornalismo discutindo esse assunto “reforça o respeito e a acolhida, e porque não, também promove a vida e a cura”. “Vejo com muita alegria movimentos como esse que são como bebezinhos”, disse a psicóloga, criadora do site  dilzasantos.com.br, que traz informações sobre as doenças mentais.

Academia

Presentes ao evento, os jornalistas Jônia Quédma e Rômulo Araújo falaram sobre “Suicídio e o papel na Mídia: Quebrando o Tabu na Faculdade de Jornalismo”.

“A primeira medida preventiva é a educação: é preciso deixar de ter medo de falar sobre o assunto, derrubar. Como aconteceu no passado com as doenças sexualmente transmissíveis ou câncer, a prevenção tornou-se realmente bem-sucedida quando as pessoas passaram a conhecer melhor esses problemas”, disse Rômulo Araújo.

Atenção para ouvir quem quer falar, ter empatia e a não banalização do assunto foram destacados durante a palestra. “A sala de aula é a ponta de partida. Em relação às fake news é importante a checagem de dados e com credibilidade, que é o que nos cabe”, salientou a professora Jônia Quédma.

Lembranças

O diretor-executivo do portal A Crítica, jornalista Dante Graça, também foi um dos palestrantes do evento e trouxe à tona um depoimento impactante dentro do tema “Como abordar o suicídio nos meios de comunicação”: a morte de um colega dos tempos de cursinho pré-vestibular.

“Aos 17 anos eu fazia cursinho e nos intervalos descia, junto com outros colegas, para lanchar no intervalo. E lembro de ter visto um amigo transtornado. Pouco tempo depois ele se jogou do quarto andar, e alguém ao redor falou que era preciso ligar para um jornal local. E eu questionei se era pra isso que eu estava estudando pra fazer jornalismo um dia”, relembra.

Ao relembrar o episódio, Dante fez outro questionamento bem atual: “Por muitos anos o jornalismo jogou a poeira pra debaixo do tapete. Será que funcionou?”, afirmou ele.

Apuração correta, pesquisa e fontes são elementos essenciais da informação, destaca o jornalista, que defende a discussão e a publicação do tema não apenas em setembro, mas antes e depois do mês.

Superação

Uma das organizadoras do evento, a jornalista e advogada Nauzila Campos, ex-paciente psiquiátrica, exibiu uma matéria de TV onde destacou a superação de uma paciente. Na matéria para uma emissora de TV local,  ela contou ter evitado, na produção e captação da reportagem, cenários obscuros ou algo que trouxesse conotação negativa ao assunto. Um belo exemplo de como transformar dados em notícia, não reforçando clichês e sem reproduzir preconceitos.

“A finalidade era mostrar a superação da personagem, que tem uma história fantástica. Quanto mais luz e vida trouxermos para a matéria, mais tabus nós quebraremos. Mostrar uma pessoa que superou é muito mais importante do que fazer um apelo emocional de quem está sofrendo. Ver que com alguém deu certo é um motivo a mais para o tratamento. É uma batalha contínua, e quanto mais positividade, mais incentivo você tiver, melhor”, disse Nauzila Campos.

Ela alertou que a categoria dos jornalistas está entre as 300 milhões de pessoas em todo o Planeta que sofrem de depressão. “Não há poço tão fundo que a gente não possa sair. Eu reverti o quadro. Vamos disseminar as boas informações”, comentou, destacando uma frase dita pela personagem da sua matéria: “Se eu consegui sair, você também pode!”.

Premiação

Ao final do evento, foi realizado o anúncio dos vencedores do “1° Prêmio de Jornalismo Universitário Suicídio e o Papel da Mídia”. O 1º lugar ficou com os acadêmicos Cindy Patrícia Lopes da Silva, Dionisson Jorge da Silva, Gabriele da Costa Moura, Laura Cristina da Silva Freitas e Patrícia Rabelo, com o texto “Casos de Suicídios Crescem no Brasil”, que será publicado durante a semana no Portal A Crítica.

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