Publicidade
Manaus
TRAUMA

Ex-funcionária detalha denúncia de abuso sexual contra desembargador aposentado

Em entrevista ao Portal A Crítica, a mulher explicou porque fez a denúncia anos após o crime e disse que escondeu o assunto da família até esta semana: "Só eu sabia o peso que estava carregando" 22/08/2018 às 02:31 - Atualizado em 22/08/2018 às 08:43
Show denunciante abuso sexual 0ebcb5d6 d75e 42c8 b033 b46632a88e4c
Foto: Antônio Lima
Vitor Gavirati Manaus (AM)

“Mãe, o que tá acontecendo? Eu quero ouvir de você, não quero ver no jornal”, perguntou o filho de Amanda*, após ver a mãe atendendo a imprensa nessa terça-feira (21). Amanda, hoje com 30 anos, venceu o medo e acusa o ex-juiz da Infância e Juventude Rafael Romano por abuso sexual no período em que ela trabalhou como babá de um neto do magistrado na casa da filha dele, onde viveu dos 13 aos 19 anos, em Manaus.

A ex-funcionária da família decidiu expor os abusos ocorridos entre 2000 e 2007 apenas este ano, após o desembargador aposentado ser denunciado por abusar sexualmente da própria neta desde os 7 anos de idade. Hoje, a menina tem 15 e o último estupro ocorreu quando a adolescente estava com 14 anos.

O que Amanda não contou ao filho, mas relatou em depoimento à Polícia Civil em junho, foi a história que ela compartilhou com a reportagem na tarde de ontem.

“Hoje eu sou dona de casa, no momento, estou desempregada. Esse caso sobre o desembargador, na época, eu tinha 13 anos, fui morar na casa deles. Aí depois dos 14 ele começou a se aproximar de mim e quando fez isso, ele já teve contato físico. No momento de piscina, com o neto, ele passava a mão em mim, nas minhas pernas, nas minhas coxas”, relembrou a mulher que, atualmente, é casada e mora no bairro Redenção, na Zona Centro-Oeste.

Os abusos se tornaram cada vez mais frequentes ao longo dos seis anos de convivência. Durante os meses em que o apartamento onde Amanda trabalhava foi reformado, ela foi morar na casa de Rafael Romano, quando os abusos aumentaram.

“Resumindo a história, nas aproximações comigo, ele me levou para um motel. No quarto de motel, me desesperei, pedindo para sair, ele dizia que não e que só sairia de lá junto dele. Na ida para casa, ele me deixava na casa da sogra da filha dele, onde o neto ficava. Outras vezes ele me obrigou a fazer sexo oral nele. Essas coisas todas. Quando eu ia para escola ele me ligava. Na aula de reforço ele inventava passeio e ficava me aliciando, sendo que o neto ia junto”, lamenta Amanda.

No depoimento à polícia, Amanda também afirmou que sua primeira experiência sexual teria acontecido durante uma das vezes em que ela foi obrigada pelo desembargador aposentado a fazer sexo oral. 
Mas por que fazer a denúncia só agora, anos depois? “Na época eu achava que era a única vítima. Eu tinha medo de fazer a denúncia. Aí teve o caso da neta, a Maria. Um mês depois eu denunciei”, contou.


Romano foi o relator do caso e autor do voto que levou à condenação do ex-prefeito de Coari Adail Pinheiro por pedofilia. Foto: Arquivo AC

O caso que repercutiu na imprensa no começo desta semana era um segredo guardado a sete chaves por Amanda. Ninguém da família dela sabia, até essa segunda-feira (20), sobre os abusos que são negados veementemente pelo ex-juiz.

“Isso me traumatizou muito, durante esses anos todos. Eu guardei isso para mim. Durante esses anos todos eu nunca comentei com ninguém. Até mesmo com meu marido. Então, a família se surpreendeu. Por que durante esses anos todos guardando isso? Mas, eu fiquei com trauma dessas coisas”, comentou a mulher, falando sobre o fardo.

“Agora é como se eu tivesse revivendo essa história. Na segunda-feira, meu marido viu e ficou abalado. Como eu tinha conseguido guardar por tanto tempo? Mas só eu sabia o peso que estava carregando. Até porque hoje tenho um filho de 10 anos e o meu medo era que acontecesse com ele o que aconteceu comigo. Mas agora me sinto aliviada. Espero que a justiça seja feita”, afirmou.

Apoio para a denúncia

Há seis meses, em fevereiro, a mãe da neta do desembargador aposentado, a advogada Luciana Pires, denunciou ao Ministério Público (MP) os abusos que sua filha teria sofrido. Ela contou que o último ocorreu quando a jovem tinha 14 anos. O primeiro relatado pela adolescente ocorreu na casa do avô, onde a menina ficou por uns tempos porque Luciana teve que viajar para cuidar da mãe, em tratamento de saúde.

A denúncia de Luciana foi o que, segundo Amanda, a fez criar forças para expor ao MP o que ela teria vivido.

“Eu disse que um dia a máscara dele ia cair e isso está vindo à tona. Eu acho que isso não tem fim. O que ele fez com a neta é uma coisa que não tem explicação. Eu espero que as outras vítimas denunciem. Quero justiça e justiça vai ser feita. Não só por mim, mas por todas as vítimas que eu acredito que existem. Peço que se encorajem e façam denúncia”, afirmou contando que ouviu comentários sobre outras vítimas.


Amanda* durante a entrevista na tarde dessa terça-feira (21). Foto: Antônio Lima.

Após a repercussão da denúncia de Luciana sobre os abusos sofridos pela neta de Rafael Romano, Amanda decidiu se aproximar de Luciana. “Eu vi o caso da Maria, o movimento #JustiçaPelaMaria no Facebook, me aproximei da Luciana, falei o que tinha acontecido comigo e ela pediu para que, se eu quisesse denunciar, que fosse de minha livre e espontânea vontade. E eu quis”, disse.

Para Amanda, o apoio foi essencial para que ela criasse coragem para denunciar o caso. “Eu achava que ia ficar sozinha”, afirmou durante a entrevista concedida na casa do irmão de Luciana.

‘A minha palavra contra a dele’

Trabalhando com a família de Rafael Romano, Amanda diz ter se enganado.

“Eu cheguei a falar que iria comentar com a esposa dele e ele dizia que eu que sabia, porque era uma empregada. Era uma babá e iria ser a minha palavra contra a dele. Ele se sentia o poderoso sendo na época o juiz da Infância e da Juventude e eu me sentia protegida. Poxa, morando com um juiz de menor. Então mal nenhum vai me acontecer. Mas foi aí que me enganei”, afirmou a mulher que espera justiça.

“Eu achava assim que, por ele ser desembargador, ele se sentia o poderoso que a máscara dele nunca ia cair. Isso é um absurdo e ele tem que pagar”, comentou.

Defesa de Romano nega acusação

Por meio de nota, a defesa do ex-juiz Rafael Romano negou “veementemente” a nova acusação.

“Trata-se de acusação de suposta prática de crime alcançado pela prescrição e, como tal, não cabe mais a discussão das acusações no campo penal ou cível por parte da denunciante ou de quem quer que seja, convertendo-se a denúncia em mero pano de fundo para a continuidade aos ataques promovidos contra a honra de Rafael Romano”, afirma a defesa no comunicado.

De acordo com a legislação, a prescrição é a perda da pretensão do titular de um direito que não o exerceu em determinado período de tempo. Segundo os advogados, a família Romano aguardará o pronunciamento da justiça “com a resignação dos que sabem ser inocentes”.

Em nota, a Polícia Civil afirma que as diligências sobre o caso já começaram e que mais informações não podem ser repassadas para não comprometer o trabalho realizado pela Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca).

*O nome Amanda é fictício e foi utilizado para preservar a identidade da denunciante. 

Publicidade
Publicidade