Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
HISTÓRIA

Ex-traficante vira pastor e resgata pessoas da criminalidade em Manaus

Alexandre Cardoso, 36, atualmente ajuda jovens que se envolveram com o tráfico de drogas no bairro São José. Ele conta como se rendeu ao evangelho



pastor_2.JPG O pastor Alexandre Cardoso disse que era conhecido no ‘beco Cacau Pirera’, que existe até hoje, e que fazia parte de ‘galera’ (Foto: Euzivaldo Queiroz)
14/08/2017 às 08:22

Houve um tempo, nos anos 90, que ser bandido em Manaus era participar de alguma “galera”. Com o tempo esses grupos começaram a ter contato com as drogas e o nível de criminalidade aumentou. No meio disso tudo, algumas pessoas se perderam nesse submundo e outras conseguiram se salvar. Foi o caso do pastor evangélico e ex-traficante Alexandre Cardoso de Oliveira, 36, um dos pioneiros no tráfico de drogas do bairro São José, na Zona Leste de Manaus. Temido pela população e procurado pela polícia, ele fazia parte da galera “Patinadores do São José” e viu muitas vidas se perderem antes de se render ao evangelho.

Hoje, Alexandre só entra em boca de fumo para levar a palavra de Deus e tentar resgatar vidas. Mas, entre os anos de 1994 e 2003, a realidade era outra. “Conheci as drogas com 14 anos. Depois de um ano consumindo maconha, pasta e cocaína, fui convidado para vender as substâncias. Eu e mais quatro amigos começamos então o tráfico no ‘beco da PF’, que hoje é conhecido como ‘beco Cacau Pirera’, uma área vermelha onde boa parte dos jovens estão ligados a essa prática”, lembrou o pastor, que diz ter iniciado o tráfico  no bairro.



Foram quase 10 anos consumindo e vendendo drogas, roubando e se escondendo tanto dos traficantes rivais como da polícia. “Eu vivia em um quartinho pequeno e sujo, ganhava dinheiro rápido, mas da mesma forma ele ia embora. Tive meu quarto invadido várias vezes por rivais do tráfico”, destacou.

Mas naquela época, segundo Alexandre, apesar de ser um crime pesado, o tráfico não tinha relação com homicídios, como hoje em dia. “Quando alguém estava devendo a boca, o máximo que a gente fazia era dar uns tapas. Não existia esse negócio de sair matando. A gente nem mesmo tinha armas”, ressaltou.

E foi por meio de um amigo traficante, que Alexandre considerava mais perigoso do que ele mesmo, que o pastor conheceu a palavra de Deus e resolveu dar uma chance à própria vida. “Ele entrou na boca onde eu vendia e começou a dar o testemunho dele, leu a palavra para mim e nesse momento percebi que poderia ter uma vida diferente. Comecei a frequentar a igreja e consegui deixar o mundo do crime. Desde lá dedico minha vida em estudar a palavra do Senhor e pregar em locais de tráfico e prostituição”, ressaltou.

Perda na família

De lá para cá, Alexandre viu amigos, conhecidos e até familiares perderem a vida para o tráfico de drogas. Dos amigos da antiga galera, todos morreram por causa das drogas. Um por overdose e três por homicídio relacionado ao crime. Há duas semanas, mais uma vez o pastor viu um ente querido perder a vida para as drogas, o sobrinho dele, Luiz Henrique Cardoso da Silva, 21, que foi executado com cinco tiros na cabeça no beco onde ele começou o tráfico.

O rapaz era usuário e tinha consumido sem pagar a droga de um traficante. Hoje, no entanto, Alexandre já conseguiu salvar três pessoas que trabalham na igreja na qual ele congrega.

Nível de violência

Um investigador da Polícia Civil, que preferiu não se identificar e que atua no combate ao crime na cidade de Manaus desde o ano de 1988, contou que a criminalidade na cidade já foi mais leve antes da chegada das drogas.

“No final dos anos 80 e início dos anos 90 trabalhávamos na repressão às galeras, mas naquela época o negócio dos ‘galerosos’ era brigar por espaço e essas brigas eram leves em comparação ao que se vê hoje. Eram brigas com correntes, soco inglês, eles nem tinham armas de fogo”, destacou. Ainda segundo ele, mesmo com a chegada das drogas, os traficantes cobravam os devedores com surras e pedindo objetos de valor para compensar o prejuízo deixado. “Já os traficantes rivais brigavam de porrada mesmo”, lembrou.

Cedo na criminalidade

Aos 13 anos de idade, Vilmar Pedrosa de Souza Junior, 24, que hoje é da igreja de Alexandre, começou a usar drogas e logo depois começou a vender. Em pouco tempo ele era o “dono” da rua onde morava, na comunidade Novo Reino. “Eu era o traficante de frente da rua. Escapei de morrer várias vezes por ter dívidas com os traficantes maiores”.


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