Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
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SUZANO

Exposição de crimes faz com que pessoas com transtornos se 'inspirem', diz especialista

Psicopedagoga explica que pessoas com transtornos ao perceberem que tragédias foram cometidas se sentem capazes de cometer o mesmo



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Um adolescente foi encaminhado a Deaai por ameaçar cometer um atentado no IEA, em Manaus. Foto: Jander Robson
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14/03/2019 às 17:06

Dois casos envolvendo estudantes amazonenses que fizeram alusão ao massacre na escola pública de Suzano, em São Paulo, trouxeram à tona a "inspiração" negativa que alunos podem ter em relação a tragédias ocorridas em unidades de ensino. Um adolescente ameaçou cometer um atentado nesta quinta-feira (14), no Instituto de Educação do Amazonas (IEA), enquanto outro foi detido após fazer uma postagem na internet em apologia ao crime.

O termo "inspiração" do crime foi usado pelo aluno do IEA ao comentar o massacre em um grupo de WhatsApp. A psicopedagoga, Priscilla Lima, explica que a escola é um instrumento de "violência simbólica". Aqueles alunos que não conseguem se adequar a esse tipo de "violência" provocada pelas normas e rotinas, adquirem uma repulsa as instituições. O que causa, conforme ela, aliado a exposição de tragédias e um sistema violento, um sentimento de querer recriar o crime uma vez cometido.

"A escola tem uma função social de institucionalizar o aluno. Não só de trazer convivência com o outro, mas sim de fazer ele entender as regras. A escola acaba normatizando isso por meio da violência simbólica, que são por exemplo, os horários e as rotinas que devem ser cumpridos. Com a pós-modernidade e excesso de informação, alguns jovens não conseguem se adequar a este tipo de "violência" e acabam construindo uma repulsa ao professor. Se ele sofre discriminação neste ambiente, então, ele vai querer revidar, seja de quem for", comenta Priscilla.

De acordo com a psicopedagoga, por conta da exposição e repercussão de massacres em escolas, o indivíduo que já sofre com um transtorno começa a se sentir capaz de cometer um crime. Segundo Priscilla, estas pessoas pensam: "Se eles conseguiram fazer, eu também consigo".

"A mídia quando expõe esses casos, ela traz muitos detalhes realistas, assim o adolescente se sente capaz de fazer, se sente empoderado. A mesma mídia também acaba revelando o caráter e os comportamentos do agressor, o que para o indivíduo é suficiente, para também querer matar e acabar com o seu sofrimento. Outras situações favorecem essa inspiração, como a realidade social e um sistema social violento. Mas também não quero demonizar ninguém, porque o sujeito é fruto de várias relações", destaca.

Um dos fatores que poderia diminuir tragédias como a de Suzano e essas inspirações negativas, segundo Priscilla, seria o olhar mais atencioso do poderes e até dos próprios familiares do estudante em relação à escola.

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"A primeira ação de prevenção é de olhar a escola como um objeto de desenvolvimento, não de punição. Uma instituição de ensino capaz de oferecer ao aluno aparatos de cultura e esperte seria um ambiente propício para o desenvolvimento do indivíduo. Se ele não tiver auxílio em casa, encontrar acolhimento e acompanhamento psicológico na unidade escolar será muito bom. A escola deve conseguir identificar quem precisa de ajuda, orientação e terapia ", disse.

A profissional escolar também acredita que o mundo tem a sua geração "mais angustiada". Por isso, segundo ela, é importante o diálogo. "Temos pessoas mais angustiadas do que tínhamos antes. Vivemos em uma sociedade consumista, onde são impostos vários padrões de beleza. Falamos que essa geração tem tudo, mas é difícil escolher quando se tem tudo. É difícil sobreviver em uma sociedade que sobrecarrega informações. O diálogo é importante, principalmente se a escola construir uma parceria com as famílias", comenta Priscilla.

Transtorno

A psicopedagoga Tifone Reis, que trabalha no Centro Pedagógico Estudo Dirigido (Cepedi), não acredita que os indivíduos tenham uma inspiração pelo crime, mas sim transtorno de rejeição. "Ninguém quer fazer isso inspirado em outra pessoa, quer fazer porque estão com problemas. Estão vendo as coisas acontecerem e já foram muitas machucadas. Eles pensam: já que o outro fez, vou fazer também, para tirar essa dor. Essa tragédia em Suzano expôs a nossa vulnerabilidade social. Estamos percebendo que as nossas crianças, adolescentes e jovem estão com dores emocionais", disse.

A profissional também lamenta a falta de tratamento psicológico para os estudantes nas unidades de ensino. "Essas situações não são mais incomuns. Encontramos constantemente adolescentes reféns dos seus traumas, totalmente desamparados, a mercê de um sociedade mascarada e rotulada, dizendo que são vândalos ou drogados. Precisamos entender os alunos que fazem parte destes contextos, porque eles requerem uma luta nossa", comenta a profissional.

Segundo Tifone, para evitar que esses transtornos levem outros alunos a realizarem ou até imitarem massacres, o Ministério da Educação, especialistas da área de saúde e representantes das instituições de ensino precisam debater idéias.

"Isso tudo que está acontecendo é uma calamidade. Precisamos urgente buscar soluções, com cursos para pais e gestores, palestras e, principalmente, começar a observar como os alunos estão adentrando nas instituições de ensino. É muito sério e triste o que está acontecendo", lamenta Tifone.

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