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Manaus
não tinha nenhum documento

Morte do menino André, afogado em igarapé, expõe exclusão social a qual ele vivia

Criança caiu em um bueiro, no domingo, no bairro Novo Aleixo, antigo Mutirão, Zona Leste, após uma enxurrada e teve o corpo levado por mais de 10 quilômetros, vindo a ser encontrado no parque do Mindu, Zona Centro-Sul 27/04/2016 às 04:00 - Atualizado em 27/04/2016 às 08:07
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Davidson Pereira reconheceu o corpo do filho por um defeito congênito. Andre não estudava porque documento estava com a mãe nas ruas (Foto: Antônio Menezes e álbum de família)
Silane Souza Manaus (AM)

A morte do garoto André Pereira Crescenço, 6, confirmada nesta terça-feira (27), foi o fim de uma existência de exclusão. Filho de um autônomo com uma moradora de rua, ele não frequentava a escola e nunca foi procurado pela mãe biológica. Apesar de ter um cartão de vacina, o único documento dele em posse do pai  era uma Declaração de Nascido Vivo, emitido após o parto, e não foi aceito pelo Instituto Médico Legal (IML) para a liberação do corpo, o que só deve acontecer hoje (28) quando a mãe, que foi encontrada à noite, tirar a documentação dela e da criança. O corpo seguirá direto para o cemitério por conta disso.

O menino caiu em um bueiro, no último domingo, no bairro Novo Aleixo, antigo Mutirão, Zona Leste, após uma enxurrada e teve o corpo levado por mais de 10 quilômetros, vindo a ser encontrado  no parque do Mindu, Zona Centro-Sul. O reconhecimento do corpo foi feito pelo pai Davison Lúcio Pereira, 31, e pela tia Raquel Natividade Pereira Martins, 47.

Eles o reconheceram por conta de uma marca de nascença  no pé direito. “Ele tinha o dedo mínimo e o anelar grudados. Se não fosse essa marca não teríamos  reconhecido porque ele estava muito diferente, com o corpo todo machucado em função de  ter sido arrastado por um longo percurso nos bueiros. É muito triste, mas graças a Deus o corpo dele foi encontrado e terá um enterro digno”, comentou a tia Raquel.

O corpo de André foi encontrado no início da tarde de ontem pelo personal trainer André Wallace de Lima Colares, 26, voluntário do regaste coordenado pelo  Corpo de Bombeiros. Ele não conhecia a criança, mas morava no mesmo bairro  e quando soube do ocorrido resolveu ajudar a procurar o garoto. “O corpo estava imprensado no monte de lixo. Quando vi que era ele, chamei o coronel Rodrigues. Eu havia prometido ao pai dele que a gente ia encontrá-lo e graças a Deus conseguimos”, disse.

As buscas por André iniciaram ainda na tarde de domingo nos bueiros do bairro Mutirão e também no igarapé do Novo Aleixo. Na segunda-feira, os bombeiros continuaram os trabalhos e ontem, as buscas foram concentraram em quatro pontos da cidade: no igarapé Novo Aleixo em direção ao Parque do Mindu; nas imediações da ponte do bairro São Raimundo; no trecho do igarapé do Mindu próximo à sede do Detran-AM, na avenida Mário Ypiranga; e no igarapé que corta o bairro São Jorge, no sentido Rio Negro. Ao todo, 20 bombeiros trabalharam no caso ontem.

Vizinhos de André Pereira Crescenço estiveram ontem à tarde no IML e promoveram um pequeno um tumulto na frente do local. Eles estavam revoltados com o descaso do poder público com a questão dos bueiros sem proteção. “É um absurdo! Praticamente todos os bueiros no Mutirão não têm tampa. Se o governo ou a prefeitura não revolverem essa situação em 15 dias nós vamos promover uma grande manifestação na avenida principal do bairro”, afirmou a cozinheira Maria Huguett, 48.

Blog: Raimundo Rodrigues, Subcom. do Corpo de Bombeiros

"Mantivemos de 20 a 30 homens em cada dia de busca pelo  André. Hoje (ontem), por exemplo, mobilizei 20 bombeiros, mas tínhamos ainda nossas viaturas. Tinha equipe concentrada em quatro pontos, inclusive, uma estava fazendo a varredura no local onde já havíamos passado antes. Sobre o tumulto feito pelos vizinhos da criança é uma situação difícil de se falar, pois é uma vida. E, principalmente porque envolve uma criança, cuja vida foi tirada bruscamente aos seis anos de idade. Nós prometemos aos familiares que íamos encontrar ele e com a ajuda de Deus conseguimos cumprir a promessa".

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