Terça-feira, 21 de Maio de 2019
Acolhimento social

Famílias de Manaus acolhem crianças e adolescentes em situação de risco

Lares provisórios estão previstos em lei municipal e abrigo está com inscrições abertas para capacitação de famílias acolhedoras



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Lar Batista Janell Doyle acolhe menores em risco social e pessoal. Foto: Arquivo/AC
06/05/2019 às 05:30

Em setembro do ano passado, a fisioterapeuta Alessandra Viana teve um sonho que a deixou intrigada. “Não lembro de muitos detalhes, mas uma espécie de luz me conduzia a um abrigo de crianças”, conta. Assim que acordou, Alessandra descreveu a imagem ao marido, o também fisioterapeuta Bruno Paixão, e sugeriu que ambos visitassem algum local que oferecesse ajuda a crianças. A intenção era doar roupas, comidas e o que mais fosse necessário.

Em buscas na Internet, Alessandra descobriu o Lar Batista Janell Doyle, no bairro Mauazinho, na Zona Leste. “Liguei para a Magaly (a diretora do local) e perguntei se poderia contribuir de alguma maneira”. Ao final da primeira visita, enquanto percorriam o berçário, o casal foi surpreendido pela reação de um residente. “O menino se jogou no vidro da janela que dava acesso ao corredor. Ele havia escolhido a gente”, afirma.

A criança em questão, Jonatan (nome fictício para preservar a identidade da criança), com dois anos na época, estava bastante debilitada, com fraturas, queimaduras e lesões na cabeça. “Ele sofreu maus-tratos do pai e da madrasta. Era fraco e desnutrido, mal conseguia ficar em pé”, lembra Bruno.

 

Bruno e Alessandra cuidam de criança que sofreu maus-tratos do pai e da madrasta. Foto: divulgação

O casal voltou à instituição em outras ocasiões, com o objetivo de se aproximar do garoto, e atuaram como padrinhos, fazendo visitas e passeios aos finais de semana. “Então surgiu a oportunidade de fazer um curso do programa Família Acolhedora. Ali, aprendemos como cuidar e melhorar o desenvolvimento da criança”, explica Bruno. Só então o casal recebeu de Magaly a autorização de cuidar de Jonatan em casa.

Pioneirismo Pioneiro na capital amazonense, o programa foi estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como uma alternativa aos abrigos, permitindo uma socialização mais eficaz de crianças e adolescentes que enfrentam situações de risco, maus-tratos e vulnerabilidade. “Nesse contexto, o menor tem uma noção individualizada do que significam o pai e a mãe”, esclarece Alessandra. “Nossa prioridade são as crianças com enfermidades ou deficientes”, especifica Magaly Araújo, diretora executiva do Janell Doyle.

Segundo ela, atualmente quatro famílias participam do programa, desenvolvido pelo abrigo há cerca de um ano. “Percebemos melhora no rendimento escolar, na fala e no desenvolvimento das crianças acolhidas”, exemplifica. Um convênio entre o Janell Doyle, o abrigo Coração de Pai e a Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) foi assinado no final do ano passado e garantiu o fornecimento de bolsas no valor de um salário mínimo às famílias que fazem parte do programa. O auxílio é destinado ao custeio de roupas, remédio, despesas escolares e interesses pessoais, entre outros.

O período de convivência inicial é de três meses. Depois desta fase, a família pode solicitar a guarda provisória, com duração máxima de dois anos, concedidas por uma juíza da Vara da Infância e Juventude. A cada seis meses, são realizadas audiências para verificar se a criança está apta a retornar ao lar de origem ou se deve continuar sob acolhimento.

Equipe do lar dá apoio às famílias

Nos primeiros momentos de socialização, eram comuns as brigas entre Jonatan e a filha do casal Maria Clara (nome verdadeiro), de sete anos. Bruno então recorreu à equipe que atua no monitoramento das famílias, formada por psicólogos e assistentes sociais.

“Fazemos o acompanhamento familiar, verificando a situação escolar, as condições da casa e o comportamento da criança. Na maioria dos casos, os acolhidos apresentam hábitos e costumes que podem causar incômodo na família, e oferecemos orientação a respeito”, explica a psicóloga Camila Macedo, da equipe do abrigo.

No final das contas, os problemas mostram-se pequenos diante da evolução proporcionada pelos cuidados de Bruno e Alessandra. “O Jonatan* ganhou peso, ficou mais sociável e é praticamente uma criança normal”, diz Bruno. Já Magaly Araújo faz um apelo aos eventuais pais provisórios: “As crianças com idade acima de sete anos de idade, muitas vezes esquecidas, também precisam de assistência”.

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É o número da lei municipal que prevê o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora. À época da sanção, no Serviço de Acolhimento Institucional de Crianças e Adolescentes (Saica) só havia sete vagas.

Capacitação para novos acolhedores

Para incentivar a adoção provisória, no sábado (11) mês, o Lar Batista Janell Doyle realizará  capacitação para orientar pessoas interessadas em acolher uma criança de maneira provisória. A participação é gratuita e para se inscrever, basta entrar em contato com a organização por meio do telefone: (92) 99214-8949.

“Na capacitação, orientamos sobre o apego e o desapego. O vínculo afetivo é necessário, mas os adultos devem ter noção de que o convívio não dura para sempre”, afirma Magaly Araújo, diretora executiva do abrigo. “Curiosamente, alguns pais dizem que o aprendizado dessa etapa pode ser aplicado também aos próprios filhos”, ressalta a diretora do lar.

Segundo ela, há critérios a serem atendidos por quem pretende aderir ao programa: não possuir antecedentes criminais ou histórico de consumo de drogas, comprovação de renda familiar e residência, além de espaço adequado para a criança. Conforme a disponibilidade, o acolhido pode visitar sua família de sangue no próprio abrigo.

Repórter freelancer de A Crítica

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