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Manaus
Vítimas

Famílias de vítimas de latrocínios falam sobre os sonhos interrompidos

Índice de latrocínios aumenta na cidade, enquanto os familiares das vítimas tentam, de alguma forma, superar a dor e a perda dos seus entes queridos, mas está difícil 09/04/2016 às 23:05 - Atualizado em 09/04/2016 às 23:20
Joana Queiroz Manaus (AM)

Eva Monique, 14, queria ser médica e estudar no Chile; Rosivaldo Diniz, 23, ia se formar no curso de educação física no meio deste ano e queria montar a sua própria academia, e Alan de Souza Monteiro, 26, estudava veterinária e queria ser dono de uma clínica para cuidar de animais. Todos tiveram as suas vidas e os seus sonhos interrompidos por conta da ação de criminosos que desconhecem o valor de uma vida e atiraram contra eles para roubar.

Os três fazem parte da triste estatística de mortes classificada pela polícia como latrocínio (que é o assalto seguido de morte) e que de acordo com o delegado titular da Delegacia Especializada em Roubos, Furtos e Defraudações (DERFD), Adriano Félix, só em 2016 já somam 20 casos.

Eva Monique e Alan foram mortos dentro de suas casas, lugar que poderia ser considerado o mais seguro. Eles tiveram os seus lares invadidos por homens armados e receberam os disparos quando gritaram “não matem o meu pai”, ou “não atirem no meu pai”.  Alan morreu junto com o pai, o comerciante Antônio Monteiro Filho, o “Tonico”, 64, na quarta-feira de Cinzas.

Para os familiares só restam a dor e a lembrança. Eles tentam buscar forças em Deus para superar a tristeza e a revolta pela insegurança que tomou conta de Manaus. Os pais de Eva Monique, Moisés dos Santos e Evânia Menezes, ainda mantêm o quarto da filha do jeito que ela arrumou no dia que foi assassinada.

Evânia entrou no quarto da filha para mostrar à equipe de A CRÍTICA. Ela pegou uma blusa que a filha deixou sobre a cama, encostou o seu rosto e disse que ainda sente o cheiro dela.

O pai mostra orgulhoso uma foto abraçada com a filha e aos prantos diz que ela foi um presente de Deus para eles. Moisés disse que o primeiro bom dia, o primeiro abraço e o primeiro beijo que ele recebia todos os dias era de Eva Monique.

A mãe de Alan, Rosa Guimarães de Souza, 51, preferiu não voltar mais para a casa onde morava com o marido e os filhos depois que eles foram assassinados. “Estou morando com a minha filha e não sei como consigo continuar trabalhando aqui (no mercadinho São Jorge) onde o meu marido e o filho foram mortos”, diz.

A mãe de Rosivaldo  viajou para Santarém, no Pará, para sepultar o filho e ainda não voltou. No bairro da União, onde ele morava, o clima ainda é de luto pelas pessoas que o conheciam e pelos parentes. Charlene Diniz, 34, prima dele, disse que ainda dói muito a perda de  Rosivaldo. Ela se lembra dos projetos de vida que ele tinha e costumava compartilhar com ela. Ter uma academia de ginástica era o principal.

Aumento dos casos em 2016

O delegado Adriano Félix disse que os casos de latrocínios aumentaram em Manaus neste ano. Na DERFD estão registrados 20, destes, sete faltam ser elucidados, entre eles o de Eva Monique. De acordo com o delegado, a  ação por parte das vítimas, tentando impedir que os infratores levem os seus pertences, pode resultar em uma ação violenta pelos bandidos,  que involuntária pode botar em risco a própria vida. Para o delegado, como medida  segurança, deve  manter a calma, porque muitos infratores podem estar sob efeito de drogas; outros não sabem manusear armas e já vão com o dedo no gatilho.
“Objetos pessoais, carros, dinheiro, bolsas, que seja entregue, porque isso se pode recuperar futuramente, já a vida não”, orientou o delegado.

Relatos  de quem sobreviveu

Alan de Souza Monteiro, 26, e Antônio Monteiro Filho, 64,  foram assassinados no dia 11 de fevereiro deste ano, quando o mercadinho da família, no conjunto Ica Paraíba, Zona Centro-Sul, foi invadido pois  dois homens e uma mulher. “Eu só ouvi o meu filho falar pela última vez, ‘não mata o meu pai’, em seguida ouvi os tiros, um atrás do outro”, “contou. Eva Monique, no dia do crime, estava em seu quarto  quando três homens entraram no comércio da família para assaltar. Um deles fez a mãe de refém.

Ela ouviu o barulho. A estudante vinha descendo a escada e teria gritado “não mata o meu pai”, e o criminoso já foi atirando na cabeça dela. Ela ainda ficou dois dias no hospital João Lucio e morreu.

Rosivaldo era fisiculturista e o atual campeão do concurso Mister Amazonas Tur 2015. Ele foi assassinado a tiros ao reagir a um assalto em frente a um estabelecimento comercial na rua Comendador Clementino, Centro.  O fisiculturista foi alvejado por três tiros, sendo um na cabeça, um no peito e outro no braço. A pessoa que atirou foi presa e disse estar arrependido. “Atirei nele porque ele quis pegar a minha arma”, disse.

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