Sábado, 19 de Junho de 2021
Toda a ajuda é bem-vinda

Famílias que veem suas casas tomadas pela água amargam prejuízos dia a dia

Realidades como da Marcilene dos Santos, conhecida como palhaça Jujubinha, que acordou com uma cobra dentro da casa alagada, se encontra com a necessidade de comprar madeiras para ‘fugir’ da invasão do rio Negro



1909414_E17E53BD-EA6C-424B-B5B7-EF28C6A03743.jpg Foto: Arlesson Sicsú
30/05/2021 às 13:09

“A minha casa está completamente alagada, um dia desses tinha um cobra grande aqui dentro”, é o que revela a autônoma Marcilene Silva dos Santos, 39, a palhaça ‘Jujubinha’, sobre a realidade que vem enfrentando, nos últimos dias, devido à subida das águas do rio do Negro. Nesta sexta-feira (28), o rio subiu mais dois centímetros, chegando a 29,95 metros, ou seja, a apenas dois centímetros da cheia histórica de 2012.

Marcilene mora em uma casa de madeira localizada em meio ao Igarapé de São Vicente no Centro de Manaus. Ela tem três filhas, e uma delas dará à luz a um bebê nos próximos dias. A autônoma teme não conseguir levantar a casa a tempo.

“Eu estou muito agoniada porque a minha filha está grávida de nove meses, vai chegar um bebê recém nascido a qualquer hora e a minha casa está totalmente alagada”, apela a mulher que é conhecida pelos trabalhos voluntários em hospitais infantis da capital.

Recentemente, o A CRÍTICA mostrou a situação em que vive Marcilene Silva. Até então, ela tinha o sonho de conseguir um carrinho de churrasco para voltar a trabalhar e assim, dar continuidade a ação social que vem realizando desde 2009. Agora, a história é outra. Para ela, o mais importante é conseguir madeira para construir um assoalho e ficar distante das águas.  

“A madeira é muito cara, eu ainda vou precisar pagar alguém para fazer esse assoalho, então a minha situação é muito difícil. Já apareceu cobra, jacaré e a gente não consegue dormir à noite”. A palhaça ‘Jujubinha’ também perdeu vários objetos da casa. “Aqui eu já perdi geladeira, fogão, cama, máquina de lavar, praticamente tudo. Não só eu, mas sei que muitas famílias estão sendo afetadas da mesma forma”.

Assim como ela, tem outros....

Ela é uma das centenas de manauaras os quais tiveram suas casas invadidas pelas águas e em consequência disso, perderam a maioria de objetos que compraram durante toda uma vida como é o caso a aposentada Lucidalva Souza, 66. Moradora do beco José Casemiro, no Centro da capital, ela e dezenas de vizinhos compartilham a mesma realidade. “A água já entrou nas nossas casas. Nós perdemos cama, colchão, freezer e eu tenho dormido na casa de um vizinho por que o nosso quarto já está totalmente tomado pelas águas”.


Lucivalda Souza relata perdas causadas pela cheia. Foto: Arlesson Sicsu

Ela e outros moradores questionam sobre o recebimento do auxílio aluguel por parte da Prefeitura de Manaus. “Até agora ainda não recebemos o auxílio emergencial prometido pela prefeitura. Nós não temos nenhuma informação sobre isso”.

A agricultora familiar Cleonice da Silva, 62, também está com a casa inundada. Ela divide a residência com dez pessoas. “Nós não aguentamos mais nossos pés encharcados pela água. Não tem para onde irmos. Nós recebemos rancho, mas não é só isso, a gente precisa de uma ajuda financeira, a gente precisa sair daqui”.

Pagamento do Auxílio Aluguel

A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) e da Casa Militar, responsável pela Defesa Civil Municipal, a liberação do pagamento da primeira de duas parcelas do Auxílio Aluguel,  no valor de R$ 300, para as famílias desabrigadas pela cheia está prevista para acontecer a partir desta segunda-feira, 31/5. Na quinta-feira, 27/5, a Semasc encaminhou para a Caixa Econômica Federal os dados das famílias beneficiárias.

Ainda conforme o executivo municipal, o cadastro ainda está acontecendo e o pagamento será feito em lotes. Neste primeiro lote está previsto o pagamento para 1.056 famílias, mas a Semasc trabalha para ampliar esse número.

“Junto com o Auxílio Operação Cheia 2021, que serão duas parcelas no valor de R$ 200, pagas pelo Fundo Manaus Solidaria, a Prefeitura de Manaus exerce o seu dever de auxiliar as famílias que sofrem neste período de cheia. Com o valor dos dois auxílios, as famílias poderão procurar um lugar onde possam viver com dignidade até as águas baixarem e retornar para seus lares”, destacou, em nota.

Em relação ao aparecimento de animais venenosos como serpentes em casas alagadas, por exemplo, a Defesa Civil de Manaus orientou que a população entre em contato com o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPAmb). Para denúncias ou pedidos de resgate, a população pode entrar em contato pelo telefone do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, que atende no (92) 98842-1553, 98842-1959 ou 98842-1547. As denúncias também podem ser feitas ao 181, o disque-denúncia da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). Vale destacar que o atendimento da Central 199, da Defesa Civil, para receber demandas de urgência e emergência da população continua em funcionamento.

Muitos moradores, sem ter como contar com a ajuda do poder público, tiveram que desembolsar dinheiro

O jeito foi comprar madeiras

A subida das águas do rio Negro, que já chega próximo da marca histórica de 2012, mudou a prioridade financeira de dezenas de moradores das áreas alagadas. Grande parte dessas pessoas investiu toda a renda que tinha na compra de madeiras para a construção de assoalhos e marombas o que aconteceu com o autônomo Altevir Alves Gomes, de 47 anos.

Ele é morador do beco José Casemiro, localizado no Centro de Manaus. Altevir comprou três dúzias de tabua de assoalho, duas dúzias de pernamanca de madeira e uma dúzia de ripão, investimentos esses que chegaram a mais de R$ 1,5 mil. “Compramos todo o material que leva uma construção por que se a gente não compra, a gente fica debaixo d’água. O assoalho está todo debaixo e a gente não tinha condições de andar mais nela, por isso fizemos a maromba para andar em cima”.


Altevir Gomes teve que gastar mais de R$ 1,5 mil em madeiras para fugir da água. Foto: Arlesson Sicsu

Ele ainda comenta que não esperou as águas subirem para construir a maromba. Todo o trabalho manual foi feito por ele mesmo. “Eu deixei de pagar outras contas para ter onde minha filha e esposa andarem. Esse material está em torno de R$1.200 a R$1.600, isso por que foi eu mesmo que construí, se eu fosse pagar alguém, eu ia gastar bem mais. A gente que mora na área de risco, não tem nada barato, as pessoas se aproveitam da situação dos outros”.

O marido da doméstica Raquel Pires, 39, precisou fazer um empréstimo no valor de mil reais para levantar a casa. O casal tem dois filhos pequenos. E a construção do assoalho durou onze dias. “Eu e meu marido levantamos o assoalho. Nós levantamos 60 centímetros acima da água. Não programamos essa compra, tanto que ele fez um empréstimo de mil reais para fazer isso aqui. Nós temos dois filhos pequenos, e se a gente tivesse na maromba antiga, uma hora dessas a gente estaria no fundo”. 

A autônoma Lenice da Silva Arcanjo, 40, é vendedora de mingau nas ruas do Centro da capital. Ela deixou de comprar itens necessários para trabalho para evitar que tivesse contato com as águas. A autônoma investiu em duas dúzias de tabua de assoalho e meia dúzia de pernamanca de madeira. 

“Se a gente tivesse recebido alguma verba de auxílio, eu teria investido nos materiais para o meu trabalho como descartável. Eu deixei de comprar coisas necessárias para as minhas coisas não irem para o fundo”.

Preço de madeiras

A equipe de reportagem entrou em contato com algumas madeireiras da capital as quais não revelaram o aumento do preço de madeiras este ano em comparação com o ano passado. Para se ter ideia, o preço da dúzia de tábuas para assoalho está na faixa de R$ 350 a R$528. A dúzia de pernamanca de madeira custa entre R$ 289 a R$420 e a dúzia do ripão custa entre R$ 163 e R$ 192



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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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