Domingo, 08 de Dezembro de 2019
ENTREVISTA DA SEMANA

‘Fazer pesquisa sem dinheiro é impossível’, afirma doutor Euler Ribeiro

Diretor da Universidade Aberta da Terceira Idade diz não ter vergonha de andar com um pires na mão para viabilizar pesquisas, mas aposta na conversão da instituição em fundação para acelerar captação de recursos



746546.JPG (Foto: Márcio Silva)
16/04/2017 às 05:00

Euler Ribeiro caminha pelos corredores da Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati), na zona Oeste de Manaus, e a cada servidor que encontra, faz a mesma pergunta: como vão os estudos? Jovens, adultos, senhores, ninguém escapa do questionamento – que vem acompanhado de um aviso: se não estudar, vai ser demitido. A “ameaça” é feita em tom de brincadeira, mas diz muito sobre o valor que esse médico de 76 anos, graduado aos 23 e doutor aos 65, dá à educação.

Diretor da Unati, que este anos completa 10 anos de funcionamento, Euler recebeu a equipe do jornal A CRÍTICA na última quarta-feira. Ele falou sobre as mudanças na Previdência, tema que acompanha com especial atenção por ter sido relator da última reforma, sobre o “segredo” da longevidade e sobre como está preparando a Unati para pesquisar cada vez mais, e melhor.



O sr. foi relator da última reforma da Previdência, na segunda metade da década de 90. O que mudou no País?

Houve uma expansão na expectativa de vida do brasileiro. Nos anos 90, a maior expectativa de vida, que é entre o sexo feminino, era 64 anos. Dobramos o ano 2000 com 70 anos para as mulheres, que vivem três ou quatro anos mais que os homens. E nesses 17 anos de século 21, já ganhamos sete anos de expectativa de vida. Como nasce menos gente e morre menos gente, a concentração de pessoas a terem direito aos benefícios se acumula. E cada dia tem menos pessoas entrando no mercado de trabalho formal, que é o que contribui para a Previdência.

Que impacto isso tem no sistema?

O aumento da expectativa de vida torna imprescindível que se mexa no tempo de contribuição mínima. Se você começa a trabalhar aos 18 anos e contribui 35 anos, pode se aposentar com 50 e poucos. Como a expectativa de vida aumentou, você vai auferir benefícios num tempo acima do tempo de contribuição. E isso quebra todo o sistema. Por outro lado, foi utilizado dinheiro da Previdência na construção de Brasília, na ponte Rio-Niterói, na Belém-Brasília. E esses valores nunca foram restituídos. O desequilíbrio hoje é grande, mas boa parte dele vem da retirada de recursos sem posterior restituição.

Então a reforma, sozinha, não resolve?

Os bancos devem bilhões de reais para a Previdência e ninguém toma uma providência. Bilhões de reais! Saiu uma relação: Itau, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica... todos devendo a Previdência. Então, se vão fazer a reforma – e tem que ser feita a reforma, o povo brasileiro precisa entender que ela é necessária  –, temos também que resgatar todos esses valores que estão fora do cofre.

Qual sua opinião sobre a proposta de igualar a idade de homens e mulheres para requerer a aposentadoria?

Acho que é preciso aumentar urgentemente a idade máxima. Mas as mulheres sempre têm duas tarefas. Hoje, 47% das famílias brasileiras são mantidas por elas. As mulheres adentraram no mercado de trabalho com uma força muito grande, mas elas têm a tarefa do domicílio, de cuidar dos filhos e do marido. Como no Brasil há menos homens que mulheres, quem tem seu homem preserva ele de qualquer modo. E por isso precisa trabalhar mais, não só para trazer insumos para dentro de casa, mas também para a organização familiar.

O desgaste de relatar a reforma da Previdência foi o gatilho para o sr. deixar a vida pública?

Foi uma parte muito intensa. O trabalho era uma tristeza. Esse pessoal todo que está preso, do PT, ia para reunião com a gente, acordava tudo e no outro dia votava contra, com argumentos pífios. Um dia me chamaram para falar sobre a reforma num programa de TV. Cheguei lá, na plateia estavam  sindicalistas do PT. Nos intervalos, ameaçaram me agredir. Foi preciso o presidente da Câmara mandar seguranças oficiais, dez homens armados, para dentro do estúdio. Houve também decepção com algumas pessoas com quem eu tinha uma convivência mais próxima.

Se não fosse esse trabalho, hoje o senhor seria geriatra? Foi por causa dele que o sr. se especializou, não?

Desde meu primeiro mandato de deputado federal, percebi que precisava entender melhor a questão do envelhecimento. Eu era recém chegado na Câmara e o então presidente da Casa, o doutor Ulisses Guimarães, me incubiu da Comissão de Seguridade Social. Fui me interessando pelo tema e acabei fazendo pós-graduação  em Geriatria na UNB, no fim do meu último mandato. Dai desisti da política e emendei com o doutorado no Rio Grande do Sul, que conclui em 2006. Em 2007 veio a Unati.

São dez anos este ano.

Sim, no dia 17 de novembro de 2017. Começamos com 250 alunos. Hoje temos dois mil e quinhentos. Fazemos ensino, pesquisa e extensão. São vários cursos em todas as áreas: saúde, línguas, artes lúdicas, programa de corpo e mente. Mas o mais importante, hoje, acredito que seja a pesquisa.

E como essa história começou?

Em 2007, o IBGE apontou que em um município do Amazonas, 1% da população estava acima de 90 anos. Esse município é Maués. A média mundial de nonagenários na população, mesmo nos países desenvolvidos, é 0,5%. Então eu peguei uma equipe de pesquisadores do Brasil e do exterior e fomos para Maués, estudar os vieses do envelhecimento saudável.

E vocês descobriram o “segredo” da vida longa?

O primeiro viés da vida longa é a genética. Um estudo feito com 5 mil centenários do mundo mostrou que eles têm no DNA um componente chamado fator de longevidade, a apolipoproteína E2. Quem nasce com isso já nasce longevo. O exame para investigar se a pessoa tem esse gene custa R$ 18 mil reais. Em Maués, examinamos 183 idosos, de um grupo de 1.813 que integraram nossa pesquisa. Dos que fizeram o teste, 67% tinham o fator da longevidade. Desses, mais da metade são índios satere. Então eles nasceram para ser longevos.

Então não é possível buscar a longevidade?

É sim. Porque além da genética, eles praticam muito exercício, dormem muito e têm uma dieta especial – à base de peixes e frutos amazônicos. Quando o Homo sapiens evoluiu e ficamos de pé, a natureza criou órgãos musculares para trazer o sangue da periferia e das vísceras para o coração. E colocou dentro das veias umas válvulas, para impedir que o sangue volte. Então, o ser humano tem que fazer exercício, para que esse sistema fique sempre ativo. Os idosos de Maués fazem muito exercício. Moram na terra firme e a roça é sempre na várzea. Ou vão caminhando ou vão remando.

E a dieta? Que alimentos o sr. destaca?

De manhã, em jejum, eles tomam pó de guaraná, que é vasodilatador e facilita a entrada de glicose na célula, ajudando a prevenir a diabetes. E tem propriedades anticarcinogênicas. Comem castanha todo dia, com aquela pele escura rica em celênio, metal que dispara o centro de defesa do organismo. Comem camu camu, uma árvore aquática que tem a maior concentração de ácido ascórbico de todas as frutas do mundo. Comem açaí.

É um estilo de vida bastante comum no interior do Estado. O sr. já pensou em estender a pesquisa a outros municípios?

Ainda não passei para outra cidade. Não tem dinheiro. Fazer pesquisa sem dinheiro é impossível. Começa pelos custos de deslocamento, as passagens de avião para o interior são muito caras! E olha que sou um pidão, vivo de pires na mão. Vou na Cieam, vou na Fieam...

O projeto que transforma a Unati em fundação tem relação com essa necessidade de captar recursos? Quais seriam as vantagens?

Teríamos independência para correr atrás de recursos em várias instituições que patrocinam pesquisa no mundo. Hoje, o grande problema, além do pagamento dos funcionários e manutenção da infraestrutura, é falta de dinheiro para pesquisa. A fundação facilita essa captação. É preciso, claro, ter uma estrutura de prestação de contas muito rigorosa. Mas nunca tive problema com isso.

No modelo de fundação, os gestores são escolhidos por eleição. Dá para imaginar a Unati sem o sr. no comando?

Tenho 76 anos. Estou investindo muito nas cabeças que me rodeiam aqui. Estimulando a equipe a fazer mestrado, doutorado. Coloco todo mundo na pesquisa, para se interessarem. Então, estou preparando um grupo que comigo ou “sem-migo” vai levar a Unati. Posso até ficar como consultor. Mas daqui a quatro anos terei 80, vou viver mais dos sonhos.

E de onde vem esse amor pelos estudos?

Amanheço estudando. Acordo às 5h e estudo até 6h30. Preparo aulas, reviso pesquisas, escrevo para o jornal gravo para a rádio. A única coisa que liberta o homem é a educação. Se eu fosse mulher, não queria casar. Ia ter meus amores e tal, mas ia querer ser independente. E a educação é o único caminho.

Novo espaço no jornal de quinta-feira

Colaborador de A CRÍTICA desde 2009, Euler Ribeiro deixará de escrever no caderno Vida & Estilo, onde tinha coluna quinzenal, para assinar artigos semanais no caderno A do jornal. Os textos do doutor geriatra serão publicados na página A2 todas as quintas-feiras.

Perfil: Euler Esteves Ribeiro

Idade: 76

Estudos: Medicina pela Universidade Federal do Pará, doutorado em Medicina e Ciências da Saúde pela PUC do Rio Grande do Sul.

Experiência: Secretário de Saúde nos Governos Mestrinho e Amazonino. Deputado federal de 1991 a 2002. Diretor da Unati desde 2007.

Família:  Casado com Ednéa, sua primeira namorada, tem dois filhos e seis netos: Giullia, Lara, Gabriel, João Victor, Lucca e Euler Neto


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