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Manaus
INCIDÊNCIA

FCecon registra 11 casos de câncer de pênis no Amazonas somente em 2018

Em quatro anos o órgão registrou 40 casos da doença e nove mortes. Fimose e presença do vírus HPV são os principais fatores para o surgimento, explica especialista 04/10/2018 às 20:15
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Especialista afirma que homens procuram atendimento apenas quando o grau da doença é avançado (Foto: Junio Matos)
Oswaldo Neto Manaus (AM)

Além do câncer de colo de útero, causado pelo Papilomavírus Humano (HPV), outra doença provocada pelo vírus tem chamado a atenção de pesquisadores de saúde do Amazonas devido grande incidência no Amazonas. Um monitoramento realizado por pesquisadores da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas (FCecon) mostrou que desde 2014, ao menos 40 casos de câncer de pênis foram registrados no Estado. O alerta é ainda mais grave: em 22,5% dos casos os pacientes vieram a óbito no Amazonas.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), esse tipo de tumor representa 2% de todos os tipos de câncer que atingem o homem brasileiro. Os dados nacionais mais recentes mostram que em 2013, 396 pessoas morreram no país. 

No Amazonas, em quatro anos, nove de 40 pacientes que estavam sendo acompanhados vieram a óbito. Os dados são da farmacêutica e pesquisadora Valquíria Alves, integrante de um grupo que atende pacientes com a doença na unidade de saúde.

O câncer de pênis em homens é causado por dois fatores preponderantes. O primeiro é a contaminação pelo HPV, que também é o vírus causador do câncer de colo de útero e câncer de cabeça e pescoço. Outro aspecto é a existência da fimose, dificuldade em descobrir a glande por conta do prepúcio. Neste caso, os processos infecciosos aumentam já que não há a higienização completa do órgão. Entretanto, a pesquisadora estuda outros fatores ainda não identificados que podem causar o câncer de pênis.

“Nos nossos estudos constatamos que destes 40 pacientes acompanhados, cerca de 50% tinham HPV, outros 15% fimose, mas 35% não tinham nem fimose nem HPV. Será que há outros vírus? Essa é a nossa pergunta, então vamos analisar para saber se há outro vírus relacionado”.

Dificuldades

Em países desenvolvidos, a faixa etária de homens que contraem câncer de pênis varia de 55 a 75 anos. Nesses lugares a doença é considerada rara, e se for levado em consideração o fator religioso em determinados locais, onde o homem deve realizar a circuncisão do prepúcio, os índices de câncer são ainda menores.

No Brasil as pesquisas apontam que as regiões Norte e Nordeste registram maior número de casos de câncer, e no estado do Amazonas, devido à questão geográfica e a falta de informação sobre a doença, muitos homens procuram o serviço de saúde apenas quando o câncer já apresenta estado avançado. Aqui a faixa etária é ainda mais alarmante, pois a doença é encontrada principalmente em pacientes de 21 a 55 anos.

 “As lesões, verrugas, são características desse tipo de câncer. Entretanto, os pacientes chegam aqui com feridas que tomam todo o órgão. Sabemos que aquela lesão não começou daquele tamanho”, disse ela, relatando que a FCecon já atendeu um paciente do interior com apenas 21 anos.

“O relato que ele (paciente) nos fala é que em seis meses aquela lesão tomou aquela proporção, mas pelo nosso conhecimento não é possível. Ela deve ter começado pequena, mas o paciente não fala porque tem vergonha, em vários casos mora no interior e não tem acesso”, explicou.

FCecon atende pacientes com o câncer de pênis (Foto: Junio Matos)

O abandono do tratamento também é outra dificuldade colocada pela especialista. “O paciente que fizer o tratamento não deve abandonar o tratamento. O abandono é muito marcante. Eles vêm, fazem o tratamento, acompanham três, seis meses, e não voltam mais”.

Vida sexual depois da cirurgia

Para registros com grau inicial, há cirurgias mantenedoras e executadas a laser que preservam o pênis do paciente, entretanto, na maioria dos casos atendidos pela pesquisadora, a penectomia foi utilizada. O tratamento consiste na cirurgia de retirada parcial ou total do órgão sexual. O fato dos homens procurarem a FCecon no estágio avançado do câncer, segundo a especialista, deixa como única alternativa a penectomia.

Ainda não há estudos sobre o impacto do câncer na fertilidade do homem, porém, a pesquisadora garante que os estímulos sexuais continuam mesmo com a retirada do órgão.

“Ele vai se redescobrir. Tenho um projeto de uma aluna de Medicina e avaliamos sete pacientes depois da cirurgia, depois de três meses até um ano. Em seis meses eles afirmam que a qualidade de vida melhorou e a atividade sexual também. Um dos pacientes com penectomia total relatou que começou descobrir zonas erógenas na região da cirurgia. Observamos então que precisamos ter uma visão multidisciplinar com esse paciente, tanto com um médico, psicólogo, terapeuta, a fim de fazer essa pessoa a voltar a ter uma vida sexual”, disse.

Prevenção

A prevenção contra o câncer deve ser procurada de duas formas. A primeira é procurar um médico para identificar possível caso de fimose. A cirurgia de circuncisão é indicada nestes casos para permitir a higienização do pênis de forma correta.

Outra forma de evitar o câncer é tomando a vacina contra o HPV, que previne 63% dos casos de câncer de pênis no Brasil. A medicação é indicada pelo fato dos homens também serem transmissores do vírus para parceiras, e vice-versa. A vacina está disponível nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Prefeitura de Manaus.

“A prevenção é melhor. Eu prefiro que o paciente não venha pra cá. Queremos que o paciente consiga prevenir essa doença, pois quando ele chega aqui no estágio avançado e descobre a realidade, ele fica deprimido. Queremos mudar essa realidade para reduzir esses casos e trazer qualidade de vida tanto para homens quanto para mulheres”.

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