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Manaus
Simbolismo da violência

FDN usa o mesmo método de impor medo do grupo terrorista Estado Islâmico

O uso simbólico da violência empregada nas mortes de presos no Compaj, em Manaus, é o mesmo usado pelo grupo extremista Estado Islâmico: espalhar o medo e demonstrar poder sobre os rivais 09/01/2017 às 05:00
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Assim como no caso dos terroristas dos extremistas religiosos, a exibição de força a partir das armas também foi uma ações dos presos executores do Compaj
Isabelle Valois e Kelly Melo Manaus (AM)

O simbolismo da violência utilizada para demonstração de força e de poder na disputa de territórios do tráfico e domínio da massa carcerária, presente no banho de sangue ocorrido domingo passado no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), quando 56 presos foram assassinados de forma brutal, tem características semelhantes ao usado pelo grupo terrorista Estado Islâmico. É o que explica Davyd Spencer Ribeiro de Souza, sociólogo, mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Conforme Spencer, a violência e a crueldade tendem a ser a características comuns destes grupos e facções.

O especialista ressalta, no entanto, que este é o único traço característico em comum entre a Família do Norte (FDN) - facção criminosa que comanda o tráfico de drogas no Estado e que é apontada como responsável pela matança dos presos - e o Estado Islâmico. “Somente a crueldade na forma da violência não pode servir como parâmetro para esta comparação”, destaca.

“O Estado Islâmico é uma organização muito ampla e complexa, orientada por um fundamentalismo religioso. Portanto, há uma identidade ideológica muita mais ampla que se associa a uma visão ou ‘projeto’ de poder e de sociedade e como forma de resistência ao ocidente aos valores e a cultura considerada uma ameaça. O terrorismo global é uma de suas características”, completou Spencer, que tem pesquisas destinadas ao campo de violência e conflito na sociedade pós-convencional.

O pesquisador afirma que o modus operandi de violência da facção amazonense é muito parecido com o dos reinos bárbaros da época da Santa Inquisição. “Com o Estado absolutista, o soberano tinha justamente o poder de morte sobre as pessoas. As punições eram cruéis para sustentar e difundir o terror. Os absolutistas pretendiam ser temidos mais do que respeitados. A dominação dos súditos se faz pelo terror”, comentou.

“O terror e o medo devem ser enfrentados politicamente, resistindo a qualquer forma de ostentação ou valorização simbólica da violência e da barbárie. As redes sociais, neste caso, acabam se tornando uma grande armadilha. Há, certamente, um profundo déficit de reflexividade e de capacidade crítica por parte daqueles que compartilham fotos e vídeos de casos de violências, especialmente aquelas mais cruéis e desumanas. Este ato apenas reforça a violência no imaginário popular, corroborando ainda para a sua naturalização e banalização, além da produção do medo e da desconfiança social”, pontuou.

Processo social

Para a antropóloga Márcia Maria Oliveira, pós-doutora em sociedade das fronteiras, a banalização da violência vista no massacre do Compaj é resultado de um processo social com o qual os algozes dos presos mortos não souberam lidar, com problemas sociais, econômicos e com a própria violência. A antropóloga também entende o massacre como uma barbárie. Para ela, seres humanos agiram como animais, sem racionalidade, sem reflexão, sem complacência, considerando o próximo como uma coisa ou objeto.

“Vimos muito isso aqui no Compaj. As pessoas se matam como o outro não fosse um ser humano ou se pode até dizer que a atitude de matar também não tenha sido humana, pois se viu a banalização dos requintes de crueldades e o mal foi ‘pessolificado’. Isso tudo é um resultado de um processo social”, explicou a especialista .

Com base nas pesquisas, Márcia Oliveira afirma que há uma inversão de prioridades no Estado, pois este deveria investir bem mais na saúde, educação e emprego, mas investe mais na polícia, como se segurança resumisse em ter mais polícia. “Um Estado que pensa no social investe na melhoria de vida do cidadão. Quando se investe mais na polícia, acaba o investimento sendo destinado na repressão do cidadão e não na formação. Isso é o que acontece no Amazonas. O que presenciamos no complexo é um sintoma de uma sociedade que não tem sabido gestar os recursos no sentido de prioridades e investimentos. Não temos uma resposta para formação de cidadãos”, completou a antropóloga.

Banalização do mal

Márcia Oliveira explica que no caso do Compaj houve o que a filósofa alemã Hannah Arendt chama de banalidade do mal. O agir dos encarcerados mostra que todos estão agindo pior do que em uma situação do que se estivesse numa situação de “normalidade”.

Crueldade é característica da FDN

O requinte de crueldade nas mortes ordenadas pela facção criminosa Família do Norte é uma característica facilmente identificada, segundo a polícia. Geralmente, os “traidores” ou rivais são decapitados ou mesmo esquartejados. A FDN tem um estatuto, segundo o qual quem “trai” a facção paga com a vida e é torturado antes de morrer. A forma brutal de assassinar os desafetos também pode ser considerada uma herança do da “tradição” dos traficantes colombiano, já que muitos deles têm ligação direta com a facção amazonense.

Em julho de 2015, por exemplo, o traficante Winchester Uchôa Cardoso, o “Chester”, foi decapitado ao dar entrada no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Ele e os traficantes Ronairon Moreira Negreiros e Diego Fábio Mattos Oliveira, o “Piu Piu” foram acusados, na época, pelo comando da facção criminosa FDN de tentar tomar o poder dos líderes João Pinto Carioca, o “João Branco”, e José Roberto Fernandes, o “Zé Roberto da Compensa” ou “Potência Máxima”.

No mesmo mês daquele ano, o presidiário Aldemir Picanço de Oliveira,o “Deco”, foi assassinado e depois decapitado no Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM), localizado na BR-174. A causa do assassinato também está relacionada a uma rixa entre as facções criminosas FDN e Primeiro Comando da Capital (PCC).

Em maio de 2013, o traficante Frank Oliveira da Silva, o “Frankzinho do 40”, um dos lideres do Primeiro Comando da Capital no Amazonas, e o assaltante Antônio Carlos da Costa Uchôa, o “Tonga”, foram encontrados com os corpos dentro de duas malas às margens do rio Negro. Eles foram decapitados e tiveram os corpos esquartejados. Uma das hipóteses levantadas pela polícia foi de que Frankzinho foi morto pela FDN, por estar ameaçando a expansão do “império” da facção, que é aliada ao Comando Vermelho.

Apesar de os principais líderes da FDN estarem presos em unidades prisionais federais desde 2015, as “ordens” para matar não pararam de chegar ao Amazonas. Partiu da cúpula da FDN, por exemplo, a execução de presidiários que aderissem ao acordo de delação premiada contra membros da facção criminosa. As ordens de assassinatos são citadas em um pedido de habeas corpus encaminhado à Justiça Federal no Mato Grosso do Sul (MS), onde “Zé Roberto da Compensa”, Alan de Souza Castimário, o “Nanico”, e Cleomar Ribeiro Freitas, o “Copinho”, estão presos. O documento é de outubro do ano passado.

Corpo do traficante ‘Tonga’ foi encontrado esquartejado em uma mala no rio Negro. Foto: Luiz Vasconcelos - 25/nov/2013

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