Domingo, 25 de Agosto de 2019
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Fechado para visitação, Bosque da Ciência tem apenas quatro servidores

Somente na Casa da Ciência, espaço reinaugurado no Bosque há um mês, são necessárias pelo menos dez pessoas para dar suporte aos visitantes. Semef anunciou que fará convênio para manter visitas



INPA_2E05303E-A64B-49CE-B349-DE237006D7C4.JPG Foto: Divulgação
09/07/2019 às 18:46

Mantido por apenas quatro servidores concursados, o Bosque da Ciência fechou as portas para as visitas públicas, pegando muita gente de surpresa. Pelo menos quem não tem acompanhado de perto os cortes orçamentários que o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) vem sofrendo nos últimos anos.

O bosque, que é uma ponte entre a população e a produção científica do instituto de pesquisa, acabou sendo afetado pelo orçamento abaixo do necessário que vem sendo repassado ao Inpa nos últimos anos, como a direção do órgão federal já havia admitido em 2018.

Os cortes no orçamento da instituição se tornaram brutais nos últimos anos, o que inevitavelmente vem refletindo cada vez mais na manutenção do Inpa. Só em 2017 e 2018, a redução foi de 40% no orçamento do órgão. Em 2017, a Lei Orçamentária Anual (LOA) disponibilizou o montante de R$ 42,33 milhões, caindo para R$ 25,56 milhões em 2018.

Sobre o bloqueio de verbas (que o governo federal chamou de ‘’contingenciamento’’) dos institutos de pesquisa do Brasil, a direção do Inpa informou que o contingenciamento de 25% da LOA programado para todas as Unidades de Pesquisa (UPs) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) foi ‘’descontingenciado’’ ainda no mês de maio.Mesmo assim, a verba seguiu insuficiente para a manutenção do instituto de pesquisa.

“Devido à realidade orçamentária atual, o Inpa está revisando seus contratos de modo a cumprir as metas previstas no TCG [Termos de Compromisso de Gestão]”, disse o instituto em nota enviada à redação.

Ou seja, o fechamento do Bosque da Ciência para visitação pública anunciado na noite da última segunda-feira (8) foi apenas um dos sintomas de uma profunda crise que o Inpa vem atravessando há muito tempo sem qualquer perspectiva de melhora.

Conforme o secretário geral do Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Amazonas (Sindsep-AM), Walter Matos, a não realização de concurso público, além de não ter permitido a recomposição do quadro de servidores que se aposentaram, acabou por afetar a qualidade do serviço prestado pelo órgão.

Prova disso é que, atualmente, os 13 hectares do Bosque da Ciência vinham sendo resguardados por apenas quatro servidores, de terça-feira a domingo. Isso sem contar os terceirizados da vigilância e da limpeza e o auxílio de estagiários voluntários oriundos de cursos técnicos e de graduação das áreas ambiental e de turismo (muitos deles desistem por encontrar estágio remunerado ou por falta de dinheiro para se deslocar ao estágio).

Somente na Casa da Ciência, reinaugurada há um mês, são necessárias pelo menos dez pessoas para dar suporte aos visitantes.

“Hoje o Inpa conta com 40% dos servidores com abono de permanência (quando o trabalhador tem tempo pra se aposentar, mas ainda segue trabalhando sem pagamento da previdência). Lamentavelmente, a situação do instituto de pesquisa, neste governo, só tende a piorar. Eu não vejo perspectiva de melhoria diante das políticas atuais aplicadas no setor público, tais como o contingenciamento, o corte de orçamentos etc. Essa situação atual do Inpa já estava mais do que desenhada”, afirmou Walter.

Procurada pela reportagem, a diretoria do Inpa informou, por meio de sua assessoria, que realizou uma reunião de gestão na tarde de ontem para tratar, justamente, da atual situação do Bosque da Ciência, bem como ver alternativas para que o espaço volte a funcionar de forma regular. A diretoria tem levado em consideração a terceirização do Bosque, mas um estudo de viabilidade técnica e econômica precisa ser feito. E isso demanda aquilo que mais tem feito falta ao instituto, recursos financeiros.

Opinião da população

O Bosque da Ciência é um dos lugares em que mais o fotógrafo Jorge Sanneto frequenta na cidade para caminhar, passar um momento mais próximo à natureza e, claro, fotografar.

“Sempre que eu estava lá conhecia algo novo sobre o nosso Estado e a nossa natureza pela diversidade de atividades que o espaço disponibiliza para a sociedade. Com o fechamento (para visitas) do Bosque, o Amazonas perderá uma de suas melhores opções, que oferece apoio à educação, turismo e a cultura da nossa região”, disse ele, que chegou a entrar em contato com o Inpa para saber se aceitam voluntários para manter o lugar funcionando.

A estudante de ciências biológicas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) Rayane Dias conta que recebeu a notícia da suspensão das visitas com muito pesar.

“Sabemos que houve esse corte de verbas. Infelizmente, não tem como proporcionar o avanço do conhecimento (e da difusão do mesmo) com esses cortes. Os estudantes que precisam do Bosque para pesquisa, trabalho e aperfeiçoamento acadêmico e profissional é que serão bastante prejudicados com esse fechamento. Estamos testemunhando um período de retrocesso na educação”, observou.

Já o estudante do quinto período de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) Ernan Passos lamenta que as famílias amazonenses de baixa renda vão perder mais uma ótima opção de lazer e de acesso ao conhecimento científico.

“Estou triste que a minha sobrinha não poderá mais ter acesso a um grande laboratório de conhecimento que temos no Amazonas. Lamento pela juventude e pelas famílias da periferia, que já tinham dificuldades no acesso, agora passam a não ter acesso nenhum. Isso é resquício de um governo que não tem preocupação pelo conhecimento”, criticou.

Visitas só com agendamento

Dedicado à educação, divulgação científica e ao lazer, o Bosque da Ciência recebeu, ano passado, cerca de 100 mil visitantes, sendo que aproximadamente 70% de forma gratuita. A partir dessa semana, o Inpa continuará apenas com as visitas em grupo agendadas e confirmadas pela coordenação do serviço de apoio às áreas de visitação. O agendamento pode ser feito neste link. site http://bosque.inpa.gov.br/

Sem repasse

O valor da entrada do Bosque da Ciência custa R$ 5, porém, crianças, idosos e grupos escolares e sociais agendados não pagam.  O valor arrecadado é depositado numa conta do governo federal e não tem retornado para o bosque. Questionado pela reportagem a respeito da falta de repasse, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) não se posicionou até a publicação desta reportagem.

Semef fará convênio

A Secretaria Municipal de Finanças, Tecnologia da Informação e Controle Interno (Semef) anunciou hoje (9) que vai firmar um convênio para repassar recursos que garantam o funcionamento do bosque, por um período de três meses, além de custear um plano de viabilidade econômica, necessário para a terceirização do parque.

O prefeito de Manaus, Arthur Neto, também solicitou uma audiência com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, para tratar do assunto, de forma permanente.

Objetivo

O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) foi fundado em 1952 e implantado em 1954. Foi criado com o objetivo de realizar estudos científicos do meio físico e das condições de vida da região amazônica para promover o bem estar humano e o desenvolvimento socioeconômico regional. O instituto conta com 73 depósitos de patentes, dos quais 17 são patentes concedidas por direito de propriedade industrial (patentes). O maior número de tecnologias protegidas são as das categorias alimentos, bebidas e saúde.

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