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Manaus
BATALHA

Fome, saudade e esperança: por vida melhor, venezuelanos habitam semáforo de Manaus

Grupo de imigrantes ostentam cartazes com pedidos de emprego e ajuda financeira para sustento. De crianças a idosos, a luta se repete em discursos sofridos sob o sol da capital. Grupo vai, todos os dias, à rua 04/07/2018 às 18:13 - Atualizado em 05/07/2018 às 09:17
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Ramona tem 72 anos e está em Manaus há pouco mais de uma semana. Veio com netos e cunhada em busca de vida melhor e comida (Junio Matos)
Isabella Pina Manaus (AM)

"Não tira foto de mim, por favor. Não quero envergonhar a minha família. Eles acham que a minha vida aqui é boa". Começa com essa frase de apelo a conversa com uma venezuelana de 34 anos que passa o dia em um sinal na Av. das Torres, Zona Norte de Manaus. Há três meses ela vive longe de casa. Há três meses ela liga para a família e confabula, ao telefone, com a ideia de que tem vivido bem longe de casa. Não tem.

Ela, que não quis ter nome divulgado, carrega em uma das mãos um cartão que pede um emprego como diarista ou dinheiro para ajudar com comida. Na outra mão, segura o filho de quatro anos que ameaça brincar entre os carros no semáforo. Essa é a realidade dela. A realidade de quem faz, por dia, em dias bons, R$ 15. Daí tem que sair dinheiro para alimentação, aluguel, e ainda para mandar um restinho à família que está na Venezuela.

"Eu venho todos os dias aqui e praticamente imploro para conseguir um trabalho como diarista. Qualquer coisa. O dinheiro que nos dão aqui (no sinal) ajuda muito. Mas é difícil. A minha família está lá. Tenho outros dois filho, tenho mãe, irmãos... Eu ligo para eles e tenho que sorrir. Conto como a vida aqui é melhor, como o trabalho está sendo bom. Eu desligo chorando". 

Essa é a história de uma personagem. A mesma se repete com outros que encontraram, ali no cruzamento da Av. das Torres para o Coroado, um reduto para arriscar a chance de uns trocados. A maioria não quer mostrar o rosto. Escondem com as mãos, colocam as placas na altura da figura e resistem a entrevistas. "Não ajuda contar nossa história. Ela continuará do mesmo jeito". Essa aspa, carregada de descrença, é de Ramona - uma das poucas que se apresenta.

Ramona Mendoza tem 72 anos. Ramona tem as mãos duras, com calos. Tem em sua expressão rugas que contam uma história que vai muito além dos reflexos da idade.

"Eu já trabalhei com tudo na minha vida. Eu já fiz muito, e nunca deu certo. Olha onde eu cheguei... Eu vim porque ficar na Venezuela era a certeza de que não daria certo. Lá não tem mais comida. Não tem comida para vender. Não tem remédio. Não tem mais nada. Acabou".

Ela chegou a Manaus há pouco mais de uma semana. Veio de ônibus com a cunhada e três netos. Aqui encontrou o filho e mais dois familiares. Todos estão hospedados juntos e recebem ajuda da Igreja Santa Catarina de Sena, onde há a Casa de Acolhida, que recebe e abriga imigrantes na capítal. A casa fica perto de um supermercado, conta. "Lá tem comida barata".

"A nossa casa tem uma sala pequena e um quarto", interfere Jon, neto de 13 anos de Ramona. São, então, oito pessoas distribuídas em dois cômodos.

No meio da fala, logo depois da entrada do interlocutor, um motorista atira R$ 5 pelo vidro do carro. O dinheiro cai no chão e o jovem corre para guardar (Foto: Junio Matos)

"Disseram que seria melhor. E é. Lá nós passávamos fome. Um dia, fui ao hospital, com toda essa minha idade, e eles não tinham um pílula para dor de cabeça. Aqui tem comida. Aqui as pessoas se importam mais".

Ramona e seus conterrâneos fogem da crise enfrentada em seu país. Eles fogem da fome, da dificuldade e da vergonha. 

"Só queremos um pouco de paz na hora de ir dormir. Queremos saber que amanhã dá para acordar, comer e sair para tentar um trabalho. Aqui sabemos que isso pode ser nossa realidade. Lá não", conta outra venezuela que esconde o rosto na penumbra de um boné baixo e vende picolés debaixo do sol.
 

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