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Fórum Contra o Trabalho Infantil quer conscientizar motoristas sobre esmolas para menores

A ideia é não incentivar os menores a permanecer numa situação que colabora para o abandono escolar e a marginalidade 14/03/2015 às 11:51
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Mais de 20 mil crianças trabalham no AM, segundo Assistência Social do Estado
Cinthia Guimarães Manaus (AM)

Faça chuva ou faça sol, J.R.S de 14 anos está todos os dias no semáforo da rua Belém com a rua Maceió, no Adrianópolis, Zona Centro-Sul, fazendo malabarismo para faturar uns trocados. Seu sonho? “Comprar uma chuteira para jogar futebol e me matricular na escolinha do Cruzeiro”.

O garoto que costuma pedir dinheiro no trânsito de Manaus há pelo menos três anos diz que frequenta o 9ª ano do Ensino Fundamental à tarde, mas que quer ser mesmo é jogador. A mãe trabalha de doméstica para sustentar ele e mais dois irmãos e conta com a renda que o garoto fatura no sinal para ajuda nas despesas de casa. 

A história de vida de J.R.S é o enredo de 83 crianças e adolescentes que frequentam as ruas expostas ao trabalho irregular ou pedindo esmola, situação vetada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Nesta sexta-feira (13), o Fórum de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil realizou uma ação nos semáforos da cidade com objetivo de conscientizar motoristas sobre a importância de não dar dinheiro para crianças pedintes, que chegam a faturar de R$ 50 a R$ 150 por dia. 

“Será que é impossível tirar este meninos da rua? Por que eles têm uma convicção que está tudo legal. Eles ganham até mais do que um trabalhador assalariado. Temos que sensibilizar os motoristas, a sociedade. Porque as pessoas pensam: Ah, eu sou caridoso, dou uma esmola e dou minha parte. A campanha é mostrar que você está comprando a infância desse menino. Se ninguém desse dinheiro no sinal as crianças não estariam nas ruas”, disse a coordenadora do Instituto Ler para Crescer, Elaine Elanid, ONG que faz parte do Fórum Estadual.

Os menores estão expostos a problemas sociais como abandono escolar e atrasos, marginalidade e até falta de registro de nascimento. Uma particularidade detectada pela Semasdh é que a maioria deles vem do bairro Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste, conhecido por ter sido um leprosário até a década de 80 e um espaço segregado.

*José, de 13 anos, é mais um dos meninos da Colônia. De aparência franzina e com os dentes estragados, o garoto diz que pede dinheiro no sinal para comprar um videogame e para comprar a merenda da tarde.

O menino diz que a mãe, faxineira, não se importa com o fato de ele e o irmão mais novo passarem o dia na rua fazendo malabarismo. “A segregação social vem desde o leprosário. A Colônia é basicamente um município onde tem 6 mil crianças. Há poucos anos eles foram incluídos em Manaus porque o acesso antigamente era feito por barco. Você vive um particularidade social, são os excluídos dos excluídos”, disse. 

A próxima ação do fórum deve reunir todos os órgãos responsáveis pela tarefa de erradicação do trabalho infantil e traçar metas e ações práticas como: possibilidade de inclusão no programa primeiro emprego, mapear as famílias e fazer um trabalho de conscientização das mesmas e providenciar documentações como certidão de nascimento e matrículas de menores que estão fora da sala de aula.

Mais de 20 mil

O trabalho infantil é um problema presente em Amazonas sob várias condições como trabalho agrícola, doméstico, em carvoarias e olarias. Segundo a secretária-executiva de Assistência Social do Estado, Graça Prola, dos 62 municípios do Estado, 43 ainda apresentam alto índice de trabalho infantil. Ao todo, 20 mil crianças e adolescentes vivem em situação de trabalho infantil nesses locais. 

De acordo com Graça Prola, atualmente, as atividades de trabalho infantil dos municípios da Região Metropolitana não são mais “meramente agrícolas”, como no passado, e o comércio informal, com a venda de guloseimas, envolve boa parte das crianças e adolescentes nessa situação. 

Nos municípios mais distantes, a roça ainda é o caminho que muitos pais encontram para ocupar os filhos. “Em alguns casos não tem necessidade da criança trabalhar e os pais levam para a roça apenas para ocupar o tempo”, disse Graça.

*Nome fictício

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