Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020
SETOR FUNERÁRIO

Funcionária de cemitério particular relata efeitos dos sepultamentos em massa

Equipe de cerca de 60 funcionários viu crescer para cerca de 13 sepultamentos diários



WhatsApp_Image_2020-04-29_at_22.29.53_16B0E3BD-6284-4D8F-8034-D64A36BAA28C.jpeg Foto: Junio Matos
30/04/2020 às 06:31

Todas as manhãs, a encarregada de campo Rose Gonçalves* reúne os funcionários de um cemitério particular de Manaus para uma reunião. “Conversamos a respeito do que pode acontecer durante o dia, os cuidados que cada um deve ter e orientamos que verifiquem se os colegas estão utilizando corretamente os Equipamentos de Proteção Individual (EPI)”, relatou.

Cerca de 60 funcionários, entre colaboradores e prestadores de serviços, atuam no cemitério, na qual a fonte desta reportagem pediu para a equipe de A Crítica manter em sigilo o nome e a localização para evitar retaliações.



Antes da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), a equipe realizava uma média de 13 sepultamentos por semana. Atualmente, este número corresponde ao total de enterros diários e os funcionários foram divididos em dois grupos que trabalham a cada dois dias alternados.

“Nossa condição psicológica fica abalada, porque temos uma relação de amizade com nossos clientes. Quando alguém chega e diz: ‘poxa, fulano faleceu de coronavírus’, a gente sofre e chora”, afirmou Gonçalves.

“É muito complicado quando chega o cortejo e tenho que orientar a família para manter a distância enquanto nossos rapazes fazem o sepultamento. Quando o serviço termina, eles podem se aproximar do jazigo e fazer suas orações”, explicou

Rose Gonçalves fala da dor causada pelo coronavírus com propriedade. Nos dois dias que passou internada no Hospital e Pronto-Socorro Delphina Aziz, na Zona Norte de Manaus, ela recebeu oxigênio por meio de aparelhos. Depois foi autorizada a continuar o tratamento em casa, recebeu alta e está em fase de recuperação.

Mas um funcionário do cemitério encontra-se em isolamento social após confirmação de diagnóstico para a Covid-19.

“A parte mais difícil, tanto para os familiares quanto para os pacientes, é o isolamento. Se você tem mais de duas pessoas em casa, deve ficar isolado num quarto, sem falar com ninguém. Você come, se veste dentro do quarto para não transmitir o vírus”, relembrou.

“Quando você entra no hospital, é logo conduzido para a Sala Rosa. As únicas notícias que os familiares recebem são divulgadas pelos médicos ou boletins”, explicou.

Além da experiência difícil no ambiente de trabalho, Gonçalves tem de lidar com o boato, propagado nas redes sociais, de que o crescente número de sepultamentos na capital trata-se de uma farsa.

Mas somente na última terça-feira, a Prefeitura de Manaus informou que 122 sepultamentos foram registrados nos cemitérios públicos da cidade, gerenciados pela Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp). E nenhuma família optou pelo serviço gratuito de cremação que é oferecido pelo município desde o último fim de semana.

“Fico triste quando vejo comentários no Facebook afirmando que estamos enterrando caixão vazio. Isso me magoa muito. Temos um trabalho sério e estamos sofrendo com tudo isso”, se revoltou. “Essa situação me deixa abalada. Come é que o ser humano consegue ter tanta falta de noção?”, comentou.

Velórios e enterros

No início do mês, a Prefeitura de Manaus adotou medidas para impedir a aglomeração em velórios e sepultamentos. O Decreto 4.801 disciplina os velórios e enterros para pessoas cujas mortes não foram por Covid-19, entre as quais a limitação de dez pessoas por velório e a redução para até 2h do tempo das cerimônias. No sepultamento, a presença de até cinco pessoas. 

Mortes em casa e sem causa certa

Em entrevista à rádio Jovem Pan, na manhã de ontem, o prefeito Arthur  Neto defendeu que os dados em relação ao agravamento da crise do novo coronavírus (Covid-19) em Manaus precisam  ser tratados com mais clareza. A Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS), por sua vez, informou que somente os óbitos em casa que atendem ao critério clínico para a Covid-19 estão sendo testados.

“Vivemos um quadro grave. Os sepultamentos pularam de 20 a 32 por dia e estão acima de cem. Os atestados registram como doenças respiratórias e causas indefinidas. Não consigo entender como uma pessoa entra no hospital e sai morta sem saber qual a causa. Eu traduzo isso como Covid”, declarou o prefeito.

De acordo com dados da Semulsp, dos 1.815 sepultamentos ocorridos entre 1º e 25 de abril, 482 foram de óbitos em residência. Reforçando a entrevista do prefeito, o titular da Semulsp, Paulo Farias, comentou que, nas últimas duas semanas, o número de sepultamentos nos cemitérios públicos da capital mais do que triplicou - da média de 30 enterros diários, houve um aumento de 100 por dia, desde a segunda quinzena deste mês.

“O aumento na demanda de sepultamentos está muito acima dos óbitos confirmados por Covid-19. A maior parte se dá por síndrome ou insuficiência respiratória, além de causas indeterminadas ou desconhecidas”, disse Farias.

*Nome fictício

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Repórter de Cidades
Formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Além de A Crítica, já atuou em uma variedade de assessorias de imprensa e jornais, com ênfase na cobertura de Cidades e Cultura.

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