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Manaus
APÓS O PARTO

Funcionários de maternidade acusados de estuprar mulher após parto negam o crime

Os dois técnicos de enfermagem se defenderam, por meio de um advogado, e acusaram o marido da parturiente de 'ver coisas onde não existe' 10/07/2017 às 10:40 - Atualizado em 10/07/2017 às 12:55
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Maternidade Moura Tapajós (Foto: Winnetou Almeida)
Vinicius Leal Manaus (AM)

Os dois técnicos de enfermagem da Maternidade Moura Tapajós, em Manaus, suspeitos de estuprar uma mulher após ela dar a luz de cesárea, na semana passada, negaram, por meio de um advogado, as acusações contra eles. Os dois, denunciados de tocar na vagina e nas nádegas da mulher de forma sexual, afirmaram que o marido da parturiente, o denunciante, “vê coisas onde não existe” ou “fez uma interpretação errada de um procedimento comum”.

A versão deles foi divulgada à reportagem através do advogado Andrews Martins, com número de registro profissional OAB 11954. “A gente trabalha com duas hipóteses. Ou ele tem algum transtorno psicológico, psicótico, e vê coisas onde não existe, ou ele fez uma interpretação errada de um procedimento que é plenamente comum, confundiu os procedimentos”, afirmou Andrews.

Segundo o advogado, existem diversas “contradições” na acusação feita pelo marido da parturiente à polícia, sendo uma delas a versão que de que os dois funcionários não perceberam a presença dele na sala de parto, e que por isso se viram “livres” para cometer o abuso. “Não tem como você se esconder ali. É uma sala pequena e a esposa fica de frente para área onde ele estava. Não tem como ele dizer ‘ah, passei batido, desapercebido’”, falou.

Conforme o advogado, um dos técnicos de enfermagem inclusive dialogou com o marido da parturiente durante o parto. “Ele diz que os dois funcionários não se atentaram que ele era um acompanhante. Como eles não iam perceber que ele era o esposo da paciente se foi o meu cliente que chamou ele para adentrar na sala? Houve diálogo entre os dois. O meu cliente falou ‘oh, pai, pode acompanhar a paciente’”, disse. “Então não tem como dizer que eles não perceberam que era o acompanhante. Não tem como alegar que os funcionários o confundiram com um membro da equipe”

De acordo com o advogado, os dois técnicos fizeram todos os procedimentos de praxe após o parto – momento em que o marido acusa ter ocorrido o estupro. “Eles fizeram a limpeza normal, a compressão abdominal para expelir o restante de parto, jogaram o soro fisiológico e fizeram uma espécie de compressa para fazer retirada do excesso de sangue do abdômen da paciente. Ele vira ela (parturiente) de lado e faz a limpeza naquela área, pegando a coxa e parte da nádega”, explicou Andrews.

Outra suposta inverdade na versão do marido da parturiente é que ela estaria totalmente anestesiada durante e após o parto, conforme informações repassadas pelo advogado dos dois  funcionários. “Ela não estava desacordada, estava consciente. Na cesariana, a anestesia que é aplicada só paralisa da cintura para baixo. Então a todo o momento ela estava consciente e acompanhando o procedimento”, afirmou.

Depoimentos na delegacia

Um dos dois denunciados e mais uma enfermeira testemunha no caso já prestaram depoimento à Polícia Civil na última sexta-feira (7). Segundo o advogado, a enfermeira confirmou contradições na versão do marido da parturiente e “atitudes estranhas” por parte dele. “Ela disse que o marido informou (para ela) que era mudo. Ela dialogou com ele e ele apontou para a boca dizendo que não falava. Ela perguntou ‘mas você ouve?’ e ele apontou para o ouvido e fez positivo, de sim”, explicou o Andrews.

Ainda segundo o advogado, depois a enfermeira percebeu que o marido da parturiente estava mentindo. “Ela achou estranho porque quando a esposa já estava na sala de recuperação, ele falou em voz alta ‘olha, eu vou sair agora para que a minha sogra entre para ficar como acompanhante’. E ela se assustou e falou ‘olha, que milagre, o mudo está falando’. Ela perguntou ‘mas você não falou que era mudo?’ Aí ele deu um sorriso cínico e saiu”, disse o advogado Andrews Martins.

Desentendimentos

Conforme o advogado, houve ainda uma série de “atitudes estranhas” e “desentendimentos” entre o marido da parturiente e a equipe do hospital. “Teve um desentendimento dele na entrada, na triagem, uma discussão com o pessoal da recepção. Depois teve desentendimento com uma enfermeira porque ele estava de sandália na área de recuperação, o que não pode. E depois mais uma discussão porque ele queria permanecer no ambiente e já havia uma acompanhante”, completou o advogado.

“É estranho. Não sabemos a motivação dele. Se ele fez isso por doença, mal caratismo, por conta de esperteza ou má orientação. Só o inquérito e o processo vai poder dizer o porquê disso aí. A gente é convicto que a verdade vai prevalecer. Os dois não cometeram nenhum ato ilegal, nenhum ato ilícito”, finalizou o avogado.

Mais depoimentos e acareação


Delegado do 8° DIP, Demétrius Queiroz (Foto:Divulgação/PC-AM)

A reportagem entrou em contato com o delegado Demétrius Queiroz, titular do 8º Distrito Integrado de Polícia (DIP) e responsável por investigar a denúncia. O delegado confirmou as declarações feitas pelo advogado Andrews Martins. “Sim, eles prestaram  depoimento e disseram isso. A enfermeira falou que ele (marido da parturiente) gesticulou que era mudo e que ouvia. Depois pegaram ele falando com a mulher”, afirmou. “Mas não teve briga ou discussão. Ele (marido da parturiente) só foi proibido de entrar (na sala cirúrgica) e retornar porque não estava com roupa cirúrgica. E teve outro momento em que ele pediu para sair e tinha outra mulher fazendo procedimento. E ele saiu normal”.

De acordo com o delegado, o próximo passoé colher depoimentos do médico que fez o parto e da diretora da maternidade. “Não temos suspeita ainda porque são depoimentos muito contraditórios. Vou ter a conclusão após ouvir a diretora da maternidade e o médico. Se o médico me confirmar que os dois técnicos de enfermagem estiveram o tempo todo na sala de cirurgia, que eles participaram do parto do início ao fim, vai contradizer muito o depoimento do marido”. Caso ainda haja contradições, o delegado afirmou que poderá ser usado o recurso da acareação, a confrontação entre as duas partes.

Nota de repúdio

O advogado Andrews Martins afirmou ainda que servidores da Maternidade Moura Tapajós divulgaram uma nota de repúdio contra a denúncia de estupro e apoiando os dois funcionários suspeitos do crime. Na nota, sem assinatura, se fala em “mentiras [...] denegrindo não só a imagem dos profissionais injustamente acusados, mas de uma categoria como um todo”. “Os mesmos são acusados por uma estória mentirosa sem qualquer fundo de verdade e cheia de contradições, sendo fruto de uma mente distorcida e doentia que será desmascarada e refutada legalmente”. Leia a nota na íntegra aqui.

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