Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Superação e sucesso

Gari de Manaus é aprovado na 1ª fase de concurso para Polícia Civil

Após anos estudando para concursos durante os breves intervalos, Wellington Gomes, de 28 anos, conseguiu aprovação na primeira fase do concurso para escrivão da Polícia Civil de Alagoas



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02/10/2021 às 11:41

É no intervalo entre uma atividade e outra que o gari Wellington Gomes, de 28 anos, consegue dedicar aos estudos pelo menos três horas por dia. O 'Gari Concurseiro', como ficou conhecido em Manaus, tem um objetivo claro: seguir carreira pública. Após diversas tentativas, hoje, ele comemora a aprovação na primeira fase do concurso para escrivão da Polícia Civil de Alagoas, e se aproxima cada vez mais do sonho de ser servidor público concursado.

Wellington, que é deficiente auditivo e autista, espera conquistar uma das vagas reservadas para Pessoas com Deficiência (PcD). Há quase 10 anos estudando para concursos, há dois, ele se divide entre o serviço de gari e os estudos. É com esse emprego que ele tem conseguido bancar as taxas de inscrições e viagens para realizar provas de concursos em diversos estados brasileiros. Além disso, ele também é acadêmico do curso de Serviços Jurídicos.



“Eu só queria um emprego para pagar meus estudos e a faculdade, porque para o concurso da Polícia Civil precisa de nível superior. Em novembro de 2019, comecei a exercer a função de gari. Era responsável pela limpeza da Feira da Panair [Zona Sul de Manaus], e eu sempre dei um jeito de estudar. Eu limpava a feira e no intervalo estudava. Depois voltava a limpar pela segunda vez e estudava mais um pouco”, conta.


Wellington Gomes utilizava os tempos de intervalo no trabalho para estudar para concurso. Foto: Arlesson Sicsú

Após alguns meses trabalhando em diversas áreas da cidade, foi na Ponta Negra que ele se fixou e permanece até hoje, trabalhando seis horas por dia. Enquanto faz a limpeza da área, ao fone de ouvido, Wellington ouve aulas de cursos preparatórios para concurso. No intervalo para o almoço, mais uns minutos de estudos. “Eu só preciso de uma cadeira, pego uma cadeira, fico debaixo daquelas árvores, das barracas e estudo lá mesmo no intervalo de descanso”, disse.

Inspiração na família

A maior fonte de inspiração de Wellington é a mãe dele, enfermeira concursada, Natalina Matias Freire, de 47 anos, que até hoje continua estudando para concurso. Ela conta orgulhosa sobre a rotina de estudos do filho, e relata também que, na saga para conseguir um emprego, Wellington enfrentou muito preconceito devido às condições de saúde. 

“Eu sempre dei forças para ele e disse que ele era capaz, que ele ia conseguir. Se precisar eu te ajudo, mas você é capaz de conseguir as tuas coisas”, incentivava. “Quando ele começou a procurar emprego ele enfrentou muito preconceito. Nossa, eu sofria tanto, e dizia: filho você tem que trabalhar, você é capaz, você consegue, pra ele não ficar olhando para as limitações dele”, relata.


Mãe de Wellington, Natalina Matias é a fonte de inspiração para que o filho alcance os sonhos. Foto: Arlesson Sicsú

Depois de muita procura por uma profissão, Wellington conseguiu o emprego de gari. “Ele chegou pra mim e disse: ‘mãe, só consegui esse emprego de gari’. Aí eu disse: ‘Filho, vai para esse mesmo, é emprego, não importa, você vai ganhar seu dinheiro, vai pagar suas contas, vai comprar suas coisas. Pega esse emprego mesmo’”, incentivou a mãe.

Nas redes sociais, Wellington compartilha com amigos e seguidores um pouco da rotina do “Gari Concurseiro”, como ele mesmo se apresenta em seu perfil pessoal. A história dele tem servido de exemplo para outros “concurseiros” que assim como Wellington sonham com estabilidade da carreira pública. Perseverante, ele afirma que só vai sossegar quando finalmente for nomeado ao cargo de servidor público de Polícia. 

 “O mérito é todo dele, porque eu acompanhei toda a luta. Ele tem uma história muito linda de superação, incrível! Acho que serve de exemplo pra muita gente, para as pessoas que pensam em parar, quando encontram o primeiro obstáculo querem desistir. Ele nunca parou, nunca desistiu do sonho dele. Eu tenho muito orgulho, pois ele venceu todas as limitações dele. Já tem três dias que eu choro, já não tenho mais nem lágrimas para expressar o quanto eu estou feliz, o quanto estou emocionada”, contou a mãe de Wellington, emocionada.


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