Domingo, 28 de Fevereiro de 2021
TRAUMA

Há uma semana, morria sem oxigênio casal referência da cultura árabe no AM

A empresária Muna Hajoj contou ao A CRÍTICA um pouco da experiência traumática de saber que os seus pais, Amado Ali Hajoj e Zahieh Hajoj, haviam morrido sem oxigênio no HUGV, em Manaus



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21/01/2021 às 13:44

Uma semana após perder o pai e a mãe em um intervalo de minutos, a empresária Muna Amado Ali Hajoj, de 41 anos, contou ao A CRÍTICA como foi ter passado pela experiência traumática de receber a notícia de que seus pais haviam morrido sem oxigênio durante tratamento contra a Covid-19, em Manaus. Muna explicou um pouco sobre a trajetória da família palestina no estado do Amazonas e como foram os últimos momentos dos dois, já infectados pela Covid-19.

"Meus pais, Amado Ali Hajoj e Zahieh Abdel Karim Hassan Hajoj, eram comerciantes e estavam casados havia 46 anos. Ele tinha 75 e ela, 65. Vieram da cidade de Bani Naeem, na Palestina, nos anos 1970.” disse a filha do casal palestino. 



Os pais da empresária sentiram os primeiros sintomas covid-19 na véspera de Natal. A família tentou tratá-los em casa, mas o quadro piorou e os dois foram internados na UTI do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV). No dia 14 de janeiro, ambos foram a óbito por falta de oxigênio.

“Meu pai trabalhava como mascate. Foi preso e torturado na guerra com Israel e resolveu fugir dali. Primos e outros parentes no Brasil o ajudaram a vir. Depois buscou minha mãe, de quem já estava noivo. Sou a filha mais velha de três, nasci em 1979 em Manaus.” contou a empresária.

Para Muna, sempre foi um risco expor os seus pais quando a pandemia iniciou, segundo ela, a família sempre se preocupou com o isolamento dos dois.

“Quando a pandemia começou, assumi a confecção da família. Como meus pais moravam com meus irmãos e suas respectivas famílias, achamos por bem isolar a todos, já que os dois eram idosos e, portanto, grupo de risco.

Na casa em que viviam, ninguém saía para nada. Na nossa cabeça, a chance de eles serem contaminados pelo novo coronavírus era bastante pequena, mas a verdade é que ninguém sabe nada sobre essa doença.” disse Muna.

Os sintomas

“O primeiro susto, no entanto, aconteceu na véspera do Natal. Meu pai começou com uma febre e minha mãe apresentou dor no corpo e muita tosse. No início, tentamos tratar eles em casa para não irem para o hospital, mas não foi possível infelizmente prosseguir.” afirmou a filha do casal.

Segundo Muna, seu pai deu entrada no hospital no dia 30 de dezembro, e sua mãe, no dia 5 de janeiro. Primeiro foram para um hospital particular, mas depois decidiram transferi-los para o Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV).

“Minha mãe foi transferida da UTI no final da tarde de 13 de janeiro e, no dia seguinte, faleceu por asfixia, ou seja, por falta de ar. Meu pai faleceu minutos antes, da mesma forma. Segundo um amigo que viu o atestado de óbito, foi uma diferença de 17 minutos.” Disse a filha do casal.

Muna conta também a situação que foi no dia em que diversas pessoas morreram por falta de oxigênio, inclusive seus pais, e quando ela recebeu a notícia da morte.

“Na UTI onde meu pai estava, faleceram mais quatro pessoas; na enfermaria, mais quatro entubados. Todos precisando muito de oxigênio. Quando eu cheguei no Hospital e recebi a notícia, gritei para a enfermeira: Como assim? Os dois morreram? Acho que morri junto por alguns segundos. Nem no meu pior pesadelo aquilo poderia ser real!”

Segundo a empresária, o casal palestino foi um dos primeiros que morreram no HUGV por falta de oxigênio.

“Os primeiros óbitos por falta de oxigênio do Getúlio Vargas foram meu pai e minha mãe. Eles deram a notícia aos nossos parentes na Palestina, porque estávamos sem condições. Nossa família lá entrou em desespero. Meu irmão, que também estava com Covid-19, reconheceu os corpos, ajudou a funerária a colocá-los no caixão e fez as orações dentro da religião islâmica, que nós seguimos.” afirmou a filha do casal. 

O casal foi sepultado no mesmo dia do falecimento, não se pode haver velório, ainda segundo a família o Sheik da mesquita (especialista nos ensinamentos Islão) só pôde fazer uma oração por eles, à distância no cemitério em que foram enterrados.

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Repórter do acritica.com
Jornalista formado pelo Centro Universitário do Norte (Uninorte), natural do município de Coari-AM

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