Sábado, 27 de Fevereiro de 2021
Presídio desativado

Histórias de horror da Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, permanecem após fechamento

Local que foi palco de rebeliões, fugas e confrontos entre presos, agora esvaziado, exala uma existência macabra



06/11/2016 às 08:00

Primeira unidade prisional de Manaus, a Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, está definitivamente desativada, encerrando assim mais de um centenário de funcionamento e de histórias de horrores. Muitas dessa vão ficar para sempre na memória de quem conviveu por muitos anos com o comércio ilegal, tráfico de drogas, rebeliões, abusos, assassinatos e o domínio do crime organizado no local.

Construída em 1904, na avenida Sete de Setembro, para abrigar 104 presos, um em cada cela, chegou a ter 1.170, com mais de 20 encarcerados em cada cela, composta apenas por um banheiro e uma cama de concreto. Os internos se abrigavam como podiam na hora de dormir. Armavam redes, deitavam um ao lado do outro no chão e, quando não tinha mesmo espaço, uns ficavam em pé enquanto outros dormiam.



A história de horrores da Vidal Pessoa foi contada pelos agentes carcerários Luiz Gonzaga Monteiro, de 67 anos de idade e 31 anos, e Jorge da Silva, com 61 anos de idade e 17 de profissão. Para eles ,são muitas histórias que dão até para escrever um livro.

A Vidal Pessoa foi palco de muitas rebeliões, que resultaram em mortes, mutilação de presos e fugas. Luiz ainda lembra como se fosse hoje o dia que foi feito de refém durante uma rebelião em 2000. “Eu entrei para pegar um preso e levá-lo ao Hospital de Custódia e, quando passava pelo raio A, fui rendido pelos presos conhecidos como ‘Serginho’ e ‘Neto’”, conta o velho carcereiro.

Luiz lembra que os dois rebelados encostaram estoques de ferro na sua costela, mandaram ele ficar calmo e o trancaram em uma cela onde havia mais cinco presos dizendo que ele seria morto. “Fiquei mais de duas horas refém. Nessa hora só me restou rezar e pedir para sair vivo”, relatou.

Luiz e Jorge ainda recordam do local onde um preso de nome “Leandro” foi assassinado com uma picaretada na cabeça. “Os presos não gostavam dele porque ele só andava de paletó aqui dentro e acabaram o matando”.

Os carcereiros relembram de oito celas construídas nos fundos do presídio chamadas de “céu azul”, que não tinha iluminação. Nelas, eram colocados de castigo os presos indisciplinados que não obedeciam as ordens da cadeia e que batiam nos outros presos. Eles ficavam durante 30 dias, sem banho de Sol e sem receber visitas. Elas foram desativadas pelo então secretário de Justiça Félix Valois.

‘Lei do Cão’ imperava no presídio

Como em todas as cadeias, a população carcerária sempre tem uma liderança e suas próprias leis. Presos acusados de estupro eram estuprados quando entravam na cadeia. De acordo com Jorge da Silva, o estuprador entrava na cadeia apanhando dos policiais militares e era recebido com “alegria” por presos gritando “chegou mais uma mocinha para nós”. No ritual violento, o estuprador era obrigado vestir calcinha de mulher, era maquiado e abusado por muitos detentos. E, quanto mais reagia, mais sofria. “Alguns desses estupradores pediam para morrer, eram levados passando mal para o hospital e tiveram outros que morreram. Em um deles, enfiaram num cabo de vassoura no ânus”, contou Jorge da Silva.

Blog: Amadeu Soares, Coronel da Polícia Militar

“Fui diretor da Vidal Pessoa de 2000 a 2001. Essa cadeia tem muita história pra contar. Vivi muitas histórias macabras ali. Foram rebeliões, fugas e mortes, muitas mortes. Lembro de um detento chamado de ‘Galinho’. Era uma pessoa idosa, mas muito chato. Ele botava moral nos outros presos e quando algum não obedecia às suas ordens ia para o castigo ‘saia justa’. Lembro também do ‘xerife’ conhecido como ‘Pezão’. Era um cara alto e branco que comandou a cadeia. Foram muitas mortes. Já era tempo de ser desativada e digo mais: é um local macabro, que mesmo desativada tinha que passar por um processo de exorcizarão muita reza e oração. Era um local impróprio para qualquer pessoa viver”.


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