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Homem larga emprego para transformar 'lixeira viciada' em jardim comunitário, em Manaus

Mesmo sem apoio de órgãos públicos, o administrador Charles Alves, mais conhecido como 'Ceará', buscou inspiração e modificou a paisagem de 900 metros quadrados, dando lugar ao verde, ao invés do lixo 23/02/2015 às 09:00
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“Ceará” (como é conhecido no bairro) largou a profissão que exercia para se dedicar às atividades de jardinagem e reciclagem
Luana Carvalho Manaus (AM)

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Um terreno inóspito que antes servia de “lixeira viciada” para moradores de um conjunto da Zona Centro-Sul de Manaus foi transformado em um jardim comunitário cheio de flores, árvores frutíferas, espaços para sentar e até ler um livro. Mesmo sem apoio de órgãos públicos, o administrador Charles Alves, 38, buscou inspiração e modificou a paisagem de 900 metros quadrados, dando lugar ao verde, ao invés do lixo.

Os resíduos foram reaproveitado por “Ceará” (como é conhecido no bairro), que largou a profissão que exercia para se dedicar às atividades de jardinagem e reciclagem. “Era um terreno muito sujo, onde os próprios moradores despejavam lixo e entulho. Um dia presenciei um senhor com uma picape jogando lixo no local e fiquei indignado. Fui em casa, peguei umas ferramentas que eu tinha e comecei a limpar”, disse.

O trabalho de transformação do espaço começou em 2011. Aos poucos Ceará e a esposa, Sandy Alcântara, 38, viram as sementes brotarem e as árvores darem frutos no ‘Jardim Comunitário Cajueiro da 13’, em referência ao nome da rua. “Não foi fácil. Plantávamos as mudas e no outro dia não estavam mais lá. Então eu plantava de novo pois pensava que algum morador tinha pegado para plantar em casa. Mas depois descobri que arrancaram as plantinhas de maldade”, lembrou.

Durante o processo de limpeza do terreno, Charles encontrou muitos materiais reaproveitáveis. “Era ferro velho, peças de carros, vidro, latas, fogões, geladeiras e eletrodomésticos. Comecei a separar e ver o que dava pra reutilizar. De repente despertou uma vontade de associar àquilo a uma atividade em que eu pudesse ficar trabalhando e me dedicando parcialmente ao espaço”, contou.

Tudo tem uma utilidade no jardim comunitário, onde até os fertilizantes e remédios para pragas são naturais. “Nada químico. É tudo orgânico e natural”, garante.

Depois de estudar agroecologia por conta própria, Ceará resolveu aplicar o conceito de permacultura no jardim, uma maneira de pensar e organizar a atividade produtiva, formando sistemas multifuncionais, duradouros e eficientes. “Uma planta sustenta a outra pois todo o sistema é orgânico. Produzimos nosso próprio adubo, temos minhocário e fazemos nossa própria compostagem”, relatou.

Para Charles, tudo na natureza tem uma utilidade. “Nosso remédio natural é feito com fumo de corda (tipo de tabaco) sabão neutro e álcool. Tudo é necessário, até um inseto combate o outro. Não gosto nem de matar os cupins, porque eles servem de alimento para os pássaros”.


No Cajueiro da 13, nome carinhosamente dado em homenagem à primeira árvore do terreno, peças de máquinas de lavar, garrafas de vidro, latas, geladeiras e eletrodomésticos viraram vasos de plantas. Até as lixeiras foram catadas no lixo. “Também temos locais para depósito de pilhas. Depois eu as recolho e levo para o Parque do Mindu, pois lá eles tem um sistema de coleta”, contou.

Alguns vizinhos ajudam com as doações. Para regar as flores, Ceará estende uma mangueira da casa dele. “A conta de água sempre dá muito cara, mas também tenho um vizinho que reveza a atividade de aguar as plantas e empresta a mangueira da casa dele”, completou.

É com a colaboração de doadores e dedicação de Charles e da esposa dele que o ‘Cajueiro da 13’ vêm sendo mantido. “Todo dia dedico pelo menos três horas do meu dia para manter nossas árvores vivas. Estou zelando pelo patrimônio do nosso bairro. É um bem que fazemos a nós mesmos, é como se fosse um alimento para a alma. Se cada um fizesse sua parte para o meio ambiente, o mundo seria muito melhor”.

‘Lixeiras viciadas’ são comuns em Manaus

As ‘lixeiras viciadas’ são criadas pelos próprios moradores e recebem todo tipo de dejetos. Mesmo depois de desativadas, a população insiste em despejar lixo nos locais. De acordo com o Código de Postura do Município, é proibido atirar resíduos, detritos, caixas, envoltórios, papéis  e objetos em geral nos logradouros públicos e em áreas verdes, passíveis de multa.

Todo morador deve ter uma lixeira em frente de casa. Caso contrário, a pessoa ou empresa que for flagrado depositando lixo em via pública em horário fora do previsto para a coleta, poderá sofrer penalidades. A Lei Orgânica do Município de Manaus prevê multa de 10 (dez) a 100.000 (cem mil) Unidade Fiscal do Município (UFMs), de forma progressiva, até o valor máximo fixado, conforme definição em lei específica. Atualmente o UFM custa R$ 74,59.

Outra paisagem

Na Rua Sargento Paulo Afonso, duas ruas depois do  jardim comunitário da 13, no Conjunto dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar, no bairro Flores, Zona Centro-Sul, o cenário é deprimente. Há muito lixo, entulho e móveis velhos.


O catador de materiais recicláveis Gilson Marques, 36, trabalha há 20 anos na área e contou que cenários como este são comuns. “Cato latinhas, ferro velho e tudo pode ser aproveitado. É muito comum encontrar lixeiras principalmente em áreas verdes”, contou.

Com um carrinho de mão, Gilson percorre quilômetros e passa por pelo menos 30 ‘lixeiras viciadas’ todos os dias. “Moro na Colônia Santo Antônio e de lá passo pela Cidade Nova (Zona Norte), Parque 10, Parque das Laranjeiras e Flores (Zonas Centro-Sul)”. Ele acorda às 6h30 e trabalha até às 17h. “Por um lado é ruim para o meio ambiente. Mas é de onde muitas pessoas como eu tiram o sustento da família”, disse Marquers, que consegue lucrar aproximadamente R$ 20 por dia com a venda de materiais que recolhe no lixo.

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