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Manaus
MEDO

Homem torturado por traficantes tenta entrar no programa de proteção a vítimas

"Ainda me sinto refém e estou sem proteção", diz homem confundido com "delator" do tráfico no loteamento Rio Piorini 13/09/2017 às 23:04 - Atualizado em 14/09/2017 às 12:09
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Vítima teve uma das orelhas decepadas e diz que o medo virou parte da rotina. Foto: Euzivaldo Queiroz
Danilo Alves Manaus (AM)

Torturado por traficantes em fevereiro deste ano após ser confundido com um informante da polícia, o técnico de refrigeração João Paulo*, 23, teme ser assassinado antes de ser aceito no Programa Estadual de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas do Amazonas (Provita-AM). Isso porque, apesar de ter dado entrada no pedido no mesmo mês que sofreu o atentado, continua à espera de uma resposta.

Enquanto isso, ele conta que o medo se tornou membro da família. Ele até viajou para o estado do Pará e tentou voltar à rotina normal, mas precisou voltar para Manaus. "Eu passei dois meses por lá, mas decidi voltar. Aqui eu trabalho, mas não tenho vida social. Não posso frequentar praças, shoppings ou locais mais distantes. Eu ainda me sinto refém", disse. 

Por pouco João não foi executado por traficantes, depois de passar mais de seis horas em um cativeiro, no loteamento Rio Piorini, bairro Colônia Terra Nova. João foi levado por um grupo de homens até uma casa em construção na rua Amazonas. Lá, ele foi torturado, teve a orelha decepada e o dedo cortado."Eu desmaiei muitas vezes, mas eles me acordavam para me agredir mais. Levei coronhadas, apanhei com pernamanca, pedaços de pedra e tive meu corpo amarrado por arame e farpado", relatou. 

Depois de uma denúncia de vizinhos, foi resgatado por policiais da 18ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom). "Quando eu vi aquele policial, ele parecia um anjo. Momentos antes, os traficantes haviam cavado uma cova rasa e faziam questão de me mostrar as ferramentas, enquanto me agrediam". 

O jovem de 23 anos passou cinco dias no hospital e, em seguida, registrou o boletim de ocorrência (B.O). Os suspeitos foram presos no dia 14 de fevereiro.  De acordo com delegado Jone Clai Rodrigues, titular da 18º Distrito Integrado de Polícia (DIP), o homem foi levado injustamente, pois os traficantes acreditavam que ele fosse informante da polícia. 

"Dias antes do crime contra esse jovem, um traficante identificado como Junior foi preso no bairro depois de denúncias anônimas. Ele foi liberado em audiência de custodia no dia seguinte. Foi então que o grupo criminoso começou a planejar a execução", afirmou Jone Clai. 

Depois do pesadelo, João entrou em contato com os policiais civis, que o encaminharam ao Ministério Público do Estado (MP-AM), onde deu entrada na documentação para ser inserido no Provita-AM. 

"Eles ficaram com algumas cópias de documentos e até agora não me responderem nada. Se eu que passei por esse terror não tenho direito de me integrar no sistema, quem pode?", questionou. Ao ser procurado ontem,  o MP-AM informou que João deve ir até a sede do órgão, na Zona Oeste da cidade, para verificar a situação, mas reiterou que não pode passar nenhuma informação sobre processos relacionados ao programa.

Já na manhã desta quinta-feira, o órgão afirmou, em nota, que não há pedido de inclusão do jovem no programa de proteção à testemunha. "De acordo com o delegado do 18º DIP, Doutor Jone Clay, o rapaz foi ouvido na delegacia e lá foi apenas informado sobre o programa. A partir daí, a família optou por mandar o jovem para o estado do Pará", diz a nota do MP-AM.

Regras para entrar são rígidas

 A vítima sob proteção do Provita-AM recebe alimentação, saúde, atendimento psicológico e dinheiro do governo para pagar despesas, mas precisa comprometer-se a tentar arrumar um novo emprego, prestar depoimentos e não pode dizer a ninguém, seja amigo íntimo ou familiar, onde está. 

O acesso à Internet também é controlado. Apenas a Justiça, o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública têm acesso aos dados das testemunhas. Em casos mais graves, a família também pode ser incluída no programa e, em situações de perigo extremo, a pessoa pode até ganhar uma nova identidade. As regras para que uma pessoa entre no programa também são rígidas. 

Só serão aceitas pessoas comprovadamente coagidas ou sujeitas a grave ameaça, que colaborem com o processo criminal e que se comprometam a colaborar com o programa, sem colocar em risco as demais pessoas protegidas. Não são aceitas vítimas já presas ou indiciadas.

*Nome fictício

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