Terça-feira, 16 de Julho de 2019
Manaus

Hospital em Manaus abriga pacientes sem laços familiares

Após perderem os laços familiares por conta da hanseníase, pacientes que vivem há décadas na unidade ‘ensinam’ a viver



1.jpg O paciente Alberto Alves, de 73 anos, vive há 49 no Hospital Geraldo da Rocha, para onde se mudou por conta da hanseníase
05/08/2013 às 08:42

Aos 73 anos, Alberto Alves tem um endereço incomum para a maioria das pessoas. Há mais de 49 anos, a casa dele é o Hospital Geraldo da Rocha, na Colônia Antônio Aleixo, Zona Leste. As severas mutilações provocadas pela hanseníase o tornaram totalmente dependente e ali recebe desde banho até comida na boca. Seu Albertinho, como é tratado por todos, é um dos oito pacientes que, sem laços familiares, acabou permanecendo no hospital e hoje o tem como a sua casa. E no hospital, com médicos, enfermeiras, assistentes sociais e demais pessoas da administração, eles reconstroem laços de afeto que pareciam impossíveis de existir.

Invisíveis ao público de fora, eles têm suas histórias de vida intimamente relacionadas àquela unidade de saúde que depois de mais de três décadas vai passar por uma reforma e receber obras de adaptação promovidas pelo Governo do Estado. Entre as principais ações a serem realizadas estão a instalação de banheiros individuais e alojamentos para essas pessoas.

Morar no hospital só mesmo por muita necessidade, atesta outro morador, seu Francisco Diniz da Mota, 75. Natural do Município de Anori (a 200 quilômetros de Manaus), veio se tratar em 1977 no hospital, que é referência para tratamento das pessoas com hanseníase. Voltou em 2005 quando teve que amputar as pernas. Mesmo tendo duas irmãs no município de origem e uma sobrinha em Manaus, não tem como viver com elas. As limitações para se locomover e outras doenças o retiveram na instituição, onde trata o coração e a suspeita de ter desenvolvido câncer na coxa. Ex-agricultor, seu Diniz gosta de conversar, assistir televisão e lembrar do tempos bons vividos na juventude. Na velhice, “a vida é mais contemplação, com pouca ou quase nada de ação”, afirma.

SEQUELAS

Seu Albertinho é cego e não tem os braços nem as pernas, o que o levou a desenvolver bem a audição. Ouve com atenção quando é chamado para ser alimentado, tomar remédios ou trocar a roupa. Dependente para se locomover, ele é como uma criança na unidade de saúde, usando inclusive fraldas. Mas essa condição não o faz triste nem ser um peso para as funcionárias e funcionários. “Ele é um dos mais alegres daqui, tem sempre um salmo para falar aos visitantes”, diz a diretora do hospital, Ana Belota, apontando que o carinho com que é tratado responde pela longa vida do paciente.

Ao ouvir a fala da diretora sobre a presença da reportagem, seu Albertinho de pronto pede a atenção para recitar um salmo, o 23, e em seguida o 121. “Elevo meus olhos para os montes, de onde me virá o socorro? Meu socorro vem do Senhor”, afirma o paciente, que não tem

exigências com comida e nem reclama de nada. Gosta apenas de ouvir no rádio programas evangélicos e aprender salmos.

Nessa condição, ele exercita diariamente não só o dever, mas também a solidariedade dos servidores do Hospital Geraldo da Rocha. E estes, no cuidado dispensado ao paciente tão especial, renovam as esperanças tanto na sociedade quanto nos seres humanos.

Blog

 “Estou há quatro anos na direção do hospital que faz atendimento ambulatorial, internações e ainda tem os albergados, cujos problemas vão das sequelas da hanseniase a problemas neurológicos. Desde que cheguei aqui tive a preocupação com a melhoria das instalações, que são muito antigas e inadequadas para as normas hospitalares. Vi o constrangimento deles em ir ao banheiro que não têm portas nas enfermarias. Começamos a buscar as melhorias e depois que o secretário veio aqui conseguimos a reforma. Durante esse período, alguns pacientes internados que têm famílias foram para casa e nós fazemos o acompanhamento domiciliar. Os que não podem, vão permanecer e procuraremos causar o mínimo transtorno para assegurar, no futuro, melhores condições para todos”, Ana Maria Belota diretora do Hospital Dr. Geraldo da Rocha.


Enfermaria e centro cirúrgico reformados

Entre as obras mais importantes realizadas no hospital estão readaptações em enfermarias e no centro cirúrgico, mas a unidade vai receber reforma no telhado, pintura e reparos gerais em todas as suas dependências. Construída na década de 40 do século passado para abrigar pessoas com hanseníase, a unidade foi transformada em hospital e atende principalmente os ex-hansenianos sequelados.

O secretário estadual de Saúde, Wílson Alecrim, disse que após a reforma, cada enfermaria passará a ter apenas quatro leitos com banheiros internos, conforme as normas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Atualmente, os banheiros não têm portas, fato causador de constrangimento aos pacientes.

A diretora do hospital, assistente social Ana Maria Belota, revela que uma média de 60 pacientes são internados por mês nas enfermarias, além dos atendimentos ambulatoriais. Por conta disso, a direção fez um planejamento especial para a reforma, buscando causar menos transtornos tanto aos pacientes de curta quanto aos de longa permanência. “A reforma está acontecendo por etapa. Os pacientes das enfermarias que estão em obras estão recebendo em casa o acompanhamento da equipe do hospital – médico, enfermeiros e demais profissionais”, explicou a diretora, para quem as complexidades e especificidades do atendimento, não raro, são fatores que sensibilizam o corpo servidores de todos os níveis e especialidades. “Todos os que estão aqui, sabem ter uma missão especial”, finaliza.

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